O ano de 2014 para o Rugby de clubes no Brasil foi muito interessante, sobretudo por mostrar que as forças estão cada vez mais distribuídas pelo país, dada a expansão das oportunidades para clubes poderem competir com equipes de outras regiões. É uma situação que pode passar desapercebida, mas está acontecendo. Podemos decretar esse ano como um divisor de águas no cenário nacional, pois essa descentralização aconteceu em diversos níveis simultaneamente.

Os exemplos começam pelo Super 10. Pela primeira vez em nove anos, o campeão não saiu de São Paulo, e de quebra, dois dos semifinalistas vieram de fora do estado, um fato potencialmente inédito (a ausência de dados nos anos 90 impedem afirmar com 100% de exatidão), o que torna o título inédito do Curitiba ainda mais histórico. Não podemos esquecer a grande estreia do Armstrong Dragons, na primeira divisão, que em seu ano de estreia conquistou duas vitórias e propôs jogos duros contra os maiores clubes do país. Não fossem as irregularidades, poderia fazer um papel melhor ainda em 2015.

Na Taça Tupi, Serra e Brummers, clubes historicamente menores no seu próprio estado (esse ano realizaram suas melhores campanhas no Gaúcho) assim como a Poli que retornou esse ano à elite paulista, roubaram a cena, ofuscando os mais conhecidos BH Rugby e Charrua, que fizeram campanhas apenas regulares em seus grupos. Os três clubes, junto com o Jacareí ficaram nas primeiras posições da competição, e o clube do Vale do Paraíba, com apenas 11 anos de história ainda ascendeu à elite nacional em 2015, batendo o tradicional Rio Branco na repescagem.

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Não há exatamente uma fórmula do sucesso em todos esses casos, mas o investimento na base mais uma vez se mostra o mais favorável a render bons frutos (leia ou releia nosso artigo de 2013 sobre esse assunto) . Essa é a receita do Curitiba, São José, Jacareí e Brummers por exemplo. 

 A descentralização não para por aí. No M19, Rio de Janeiro e Santa Catarina ainda não possuem um campeonato de bases bem estruturado, mas fizeram grandes campanhas e chegaram à final do M19, cabendo aos fluminenses, o merecido título do campeonato de seleções na categoria, enquanto os paulistas levaram o título do M17 sobre o Paraná, apoiado basicamente pelo bom trabalho de base do Curitiba.

Curiosamente, o Rugby feminino, muito menor em números de praticantes, ano após ano apresenta um bom equilíbrio entre clubes de regiões diferentes, totalizando sete estados nas principais posições. O Desterro voltou a ser a grande força do país, com o bicampeonato do Super Sevens e tentará o tri no BR Sevens no próximo mês, mas outros três estados seguem brigando ponto a ponto pelos títulos, representados pelo Niterói, SPAC e Charrua. Desde 2013, as gaúchas saíram do bloco intermediário, onde ainda figuram BH Rugby, Vitória, São José e Curitiba e SP Bandeirantes Saracens para disputar os principais títulos do país.

No plano regional, também foi possível ver essa evolução. Em São Paulo, o interior paulista teve dois clubes entre os quatro melhores na divisão de Acesso, e o São Carlos, campeão indiscutível tem tudo para brigar pelas primeiras posições na série B no próximo ano. Na série B, Lechuza e Tornados fizeram um campeonato à parte dos clubes das regiões metropolitanas e capital, cabendo ao clube alvilaranja a vaga, pois os Corujas de Sorocaba , campeão, escolheram se manter na divisão inferior e desenvolver a base para o futuro.

Com o incentivo ao desenvolvimento de bases, essa tendência deve aumentar nos próximos anos, caberá às Federações locais e à CBRu, estimular a participação de clubes de regiões mais remotas e fomentar a capacitação técnica de seus quadros de forma que possam atender essa crescente demanda. Ainda há muito trabalho a ser feito por clubes e entidades, mas apesar do que julgam os críticos, fazem parte do mesmo movimento, que julgo ser irreversível.