No primeiro semestre do ano, a CBRu mostrou o se calendário de competições para 2016, apontando a eliminação de nada menos que três etapas, equivalente à metade do Super Sevens feminino, a única competição de alto nível para os principais clubes do país. A novidade não foi recebida em silêncio, com jogadoras de diversos clubes mostrando sua insatisfação com tamanho corte, desproporcional aos cortes realizados em competições masculinas.
 
No mês passado, veio a solução. Um crowdfunding (projeto de financiamento coletivo) ou seja, conclamando torcedores, simpatizantes e porque não, as próprias jogadoras, a custear a realização de uma etapa adicional, que para completar, não deve valer para a classificação do Circuito (A descrição: Apoie o rugby feminino e colabore com o fortalecimento de uma sociedade mais justa…) Oi?? Justo e apoiador seria a entidade gestora do esporte no país não cortar o torneio das mulheres pela metade.
 
O que se viu nas redes sociais, foram muitas atletas divulgando a iniciativa como se fosse a salvação da temporada e não o que realmente é: um remendo mal feito de um planejamento realizado sem considerar a realidade dos clubes e a necessidade do Rugby feminino para que este siga crescendo. É muito fácil cair no discurso “é ruim mas é o que temos agora” mas o fato é que agora se apresenta uma oportunidade única desde a fundação da CBRu, dispersada a fumaça dos fogos de artifício que estouraram antes da hora. É um momento de reflexão para todos os realmente interessados em desenvolver o esporte no longo prazo, um momento de se QUESTIONAR. Questionar como todos recursos da CBRu são gastos e se o formato do Super Sevens é o mais adequado para fazer o Rugby feminino crescer no país (spoiler alert: aqui no Portal do Rugby, achamos que não. Logo mais sai um artigo sobre esse tema).
 
A Confederação deu seus motivos: não houve captação suficiente via Lei de Incentivo para o campeonato das mulheres. Motivo válido, afinal, é por meio deles que a entidade custeia seus campeonatos e a alta performance. Mas o ponto é: porque a Lei de Incentivo é a única fonte de custeio dos campeonatos? A CBRu se orgulha de sua transparência, mas sem o olhar de um contador experiente, fica difícil saber como parte do dinheiro é gasto e acredito que falte essa comunicação mais clara com parte importante do seu público, os jogadores. Como por exemplo, como foram gastos os mais de R$5milhões advindos de patrocinadores no último ano? Em um esporte em que todos fazer a sua parte por amor, quanto ganham os profissionais (do CEO ao estagiário) da CBRu? Por que os clubes não são consultados na elaboração do calendário que eles irão disputar?
 
Porque se com toda essa transparência e gestão profissional que vem sendo aplicada nos últimos anos, a solução para um problema de falta de 50mil reais (o custo médio de cada etapa segundo o projeto) para um campeonato é organizar um crowdfunding para levantar o valor, algo está muito errado, e para isso, a verdade é que os clubes nem precisam da CBRu. Eles podem se organizar por conta própria como era feito na época da ABR (Associação Brasileira de Rugby), ou individualmente como de fato muitos vem fazendo com sucesso ultimamente, como o Desterro, e mais recentemente, o Rugby para Todos esse último um projeto de reconhecida seriedade e que visa o longo prazo, e não algo que vai ser consumido em um fim de semana. Novas Biancas saem de iniciativas assim, não de uma etapa de Super Sevens.
 
Sim, agora os clubes, cujas poucas fontes alternativas de renda passam ocasionalmente pelo crowdfunding tem na CBRu não um parceiro que ajude a fomentar um ambiente propício para a geração de divisas de forma independente, mas um rival pela mesma receita, o dinheiro bem intencionado do apoiador do esporte.
 
Claramente, a prioridade da CBRu não são os clubes, e sim o alto rendimento. Faz sentido, não é diferente dos planos das Uniões ao redor do mundo. Mas o Brasil não é como os demais países em que se espelha. Não tem ainda uma cultura de Rugby enraizada em jogadores e clubes fortes. Não tem ainda uma unidade nacional. Pulou etapas e ignorou a necessidade de fortalecer os formadores de jogadores e viabilizar o ecossistema do esporte, torná-lo viável financeiramente além de seus domínios. Trouxe resultados imediatos, é verdade, mas duradouros?
 
Depois dos Jogos, o que vem?
 
Na última semana, a CBRu anunciou o australiano Paul Healy (ex-treinador da seleção chilena) como coordenador da Academia de Alto Rendimento de São Paulo. A que preço? O Rugby brasileiro quer (e precisa) saber.
 
Foto: Luiz Pires/Fotojump

14 COMENTÁRIOS

  1. Quando começamos a falar de profissionalismo e mudanças pela CBRu é inevitável dizer que houve avanços, mas será que esses avanços são permanentes ou provisórios?….Uma confederação tem obrigação de fomentar o desenvolvimento do esporte no país através de seus clubes, ligas, sua base e a seleção vêm depois de tudo isso. Afinal uma seleção forte só é forte quando os suas associações de todos os tamanhos sejam fortes. Privilegiar masculino ou feminino, norte ou sul não é o melhor caminho. Para quem não estudou geografia e demografia humana brasileira prova que o nosso desenvolvimento não vai ocorrer de forma sustentável. Não espero migalhas da confederação para que no fim os louros sejam para eles e as dividas fiquem para gente.
    Ver um financiamento coletivo é um insulto a inteligência da comunidade do rugby que houve que os maiores investimentos no mundo Olímpico veio para o rugby muito bem captado, mas muito mal usado e consumido. Nossas meninas e meninos merecem respeito. Enquanto os craques e potenciais jogadores são produzidos pelos clubes e pelos grupos que fazem o trabalho de formiga e não dos núcleos e academias da CBRu. Bato na tecla que são nos clubes e colégios que os valores do rugby são colocados e ensinados….A incoerência de uma confederação que vende esses valores mas não os prega.

    Como vc pode planejar algo quando a confederação não discute abertamente através de várias formas uma mais ampla e democrática de como caminharemos juntos. Tudo vem de goela abaixo e não digerido de forma adequada. Muitas vezes parece pessoal, mas de pessoal não existe. Não gostam de outro caminho que não sejam o deles.
    Falo por mim que já tramitei por vários esportes e várias confederações de vários países isso que tá sendo é uma copia mal feita de muita porcaria.

    Captação não houve de forma adequada ou o gasto foi errado? Lambuzaram com o dinheiro alheio? Um bom patrocinador gosta de clareza para onde vai dinheiro. Precisamos ou não de grife? Precisamos sim de competência.
    Gastam fortunas nos NARS para ter 100 quando poderíamos de 500, 1000 se o pensamento não fosse um copie e cola de outros projetos…Não somos Itália, nem Argentina e muito menos Nova Zelândia somos Brasil e queremos sim desenvolvimento para que a conta não sobre para nós. Temos características próprias que podem engolir todos eles no longo prazo com muito trabalho. Os estrangeiros sempre são bem vindos, mas vejamos que temos que ter o pé no chão.

    Prioridade são os clubes, universidades, escolas, projetos sociais e outras formas de enraizar o esporte e não trazer meio dúzia de “zé ninguéns” que nada vão deixar em nosso país. Pior que constrangem muitos atletas que acabam sonhando com castelos de areia do esporte.
    Estamos no caminho certo da forma mais errada….vai matar a base com um teto forte mas que no fim a casa cai e depois não levanta mais….Triste mas muito triste.

  2. HP, o que está errado, parece, é que o dinheiro acabou ano passado. Sonhos megalomanos do CEO atropelaram a diretoria tecnica.

    Salários altos, 10 mil, 20mil reais, e bonus anuais de 100mil? São verdades ou boatos? Se verdade, pagam duas etapas e nem precisa de crowdfunding.

    Falta alguém destrinchar a semi-transparência dos balanços e deixá-los claros para todos…

  3. Parabenizo o Portal pela materia e pergunto onde estao os recurosos dos patrocinadores? Como vamos desenvolver o esporte se ainda não temos campos de Rugby, onde a maioria dos clubes treinam em praças ou parques do governo, ainda adptando campos de futebol para o Rugby, onde estão os 15.000.000,00 em caixa? Precisamos de campos, clubes mais fortes, categorias de base, feminino, adulto xv, 7s, mais fortes, com mais intercambios proveitosos e com planejamentos serios a longo prazo, termos pessoas na CBRU com mais identificação com o Rugby nacional…. abraço estamos unidos essa e minha opniao

  4. Excelente artigo e venho falando isso há muito tempo. Por quê a CBRU não cria um setor de desenvolvimento de equipes, a base das academias de alto rendimento? Por que não investir em clubes, na formação destes, que são o início de tudo? E lógico, falta claramente uma política de desenvolvimento nacional, apoiando dignamente os Clubes do norte e nordeste!

  5. Um texto excelente, com uma reflexão importante.

    Ainda assim, creio que dois pontos devem ser observados:

    1) Ainda que também entenda que o foco da CBRu seja o rendimento, não podemos nos esquecer de seu Projeto Pólo. Acompanho de longe tal projeto e entendo que ele ainda atinja poucos clubes, mas também vejo que os clubes que estão diretamente envolvidos nele tem tido um crescimento importante no que tange a sua base de atletas infantis e juvenis.

    2) É claro que a CBRu tem o que melhorar na sua transparência com relação aos seus gastos, mas creio que essa crítica não pode ficar restrita à mesma. Afinal, quais são as federações que disponibilizam seus gastos aos seus afiliados?

  6. Parabens pela materia!
    “A solução para um problema de falta de 50mil reais para um campeonato é organizar um crowdfunding para levantar o valor, algo está muito errado, e para isso, a verdade é que os clubes nem precisam da CBRu. Eles podem se organizar por conta própria como era feito na época da ABR (Associação Brasileira de Rugby), ou individualmente como de fato muitos vem fazendo com sucesso ultimamente”

  7. Gostei do artigo. É triste a falta de prioridade ao feminino, e a solução do crowdfounding soou no mínimo estranho.
    Porém gostaria de ponderar que na outra ponta existe um sério trabalho de desenvolvimento do rugby feito pelo Brasil Rugby Desenvolvimento – braço da CBRu. Clubes participantes tem a oportunidade de se desenvolver com solidez pensando no longo prazo. O problema talvez seja por aí… um projeto como esse hoje é tocado por 4 ou 5 caras. O braço é curto para o tamanho das necessidades. Poderia ter um pouco mais de destaque e prioridade dentro do orçamento da CBRu, e quem sabe seja esse um excelente caminho para o futuro.
    Por outro lado eu também gostaria de colocar que não dá pra querer desenvolver o rugby se os clubes não tiverem disposição, organização e foco. Hoje vemos que, se ainda falta um pouco mais de incentivo da Confederação, mais ainda é a falta de interesse – ou condições para se desenvolver – por parte dos clubes. Ah meses atrás houve em São Paulo um curso de Gestão de Clubes organizado pela CBRu onde das mais de 50 equipes locais, apenas 1 enviou representante – todos os outros vieram do interior – e ainda foram poucos. Isso se repete nas capacitações em arbitragem, coaching, rugby infantil, escolar e outras…
    Por tudo isso, quando penso no macro do rugby no Brasil, vejo uma ponta (alto rendimento) com demandas urgentes por resultados, que trazem visibilidade, receitas, patrocinadores, divulgação e mais praticantes ao esporte – e outra ponta (os clubes) que necessitam de um processo de amadurecimento que é longo e lento, e não consigo ver receita pronta para isso tudo funcionar como num passe de mágica… Mas também rejeito a crítica generalizada, em especial sobre os gringos que estão tirando leite de pedra e agregando ao nosso esporte. Ajustes devem ser feitos sim, sem dúvida, mas não podemos voltar ao patamar de 10 anos atrás, quando havia quase nada.
    Acredito que o trabalho é ajustar com transparência as prioridades entre o alto rendimento e o desenvolvimento dos clubes, sem abrir mão de nenhuma das duas pontas.

  8. Nos clubes,quem os fazem são as pessoas e para que um clube sobreviva,tem que se planejar e cobrar responsabilidades dos participantes dos mesmos,seja treinando,pagando mensalidade,ajudadno de alguma maneira.
    Eu treinei num clube e no caminho de volta do ônibus ouvi um colega comentar com o outro que não iria pagar a mensalidade e era um cara relativamente que treinava bastante.