Abusos contra a arbitragem: chegamos ao fundo do poço em 2015

Valores do Rugby. É um tema que vira e mexe abordamos aqui, às vezes até fica chato, repetitivo. E ainda assim é cada vez mais necessário, e dois fatos ocorridos nesse ano demonstram isso. Dessa vez, passamos ao largo da violência física e vamos direto ao desrespeito recorrente a que são submetidos os árbitros, uma das figuras centrais do nosso esporte e por isso mesmo, pego no fogo cruzado da ira de jogadores e torcedores quando algo não sai de acordo com o script mental de cada um.
 
No Campeonato Fluminense, um jogador do Guanabara, irritado com a demora em receber atendimento médico, cuspiu na direção da mesa de arbitragem. Segundo consulta, o Guanabara não fez qualquer sanção ao jogador. Consultando a FFRu, a entidade ressaltou a importância da formação do STJDRu nesse ano (após o ocorrido), mas não comentou sobre uma possível punição.

 

Na disputa de 3o lugar da Série B do Campeonato Paulista, um jogador do Ilhabela, irritado com a marcação do árbitro, o ameaçou verbalmente e depois fisicamente, tornado um fim de semana que poderia ser agradável, em um martírio, mais próximo de cenas que vemos por vezes em jogos de futebol do que na alegre e respeitosa confraternização entre vencedor e perdedor. O jogador foi suspenso preventivamente pelo TJD da Federação Paulista até conclusão do processo e não pode disputar competições pelo clube.

 

Sobre erros

O árbitro erra. O Nigel Owens, melhor árbitro do mundo, erra em final de Mundial. O árbitro que acabou de tirar o certificado N1, também.
Mas jogadores também erram. Erram passes fáceis, chutes curtos, furam tackles, perdem lineouts, scrums, cometem knock-ons. O Dan Carter, melhor jogador do mundo, erra. E aquele reserva do time da 3a divisão que começou a jogar ontem, também.

 

E por que o erro do árbitro é cobrado com tanta fúria por jogadores e torcedores? No Brasil, ainda estamos formando uma comunidade do Rugby, e o aprendizado faz parte desse processo. Achar que um árbitro vai deliberadamente errar contra o seu time (ou roubar, como temos visto falar com uma frequência futebolística) é menosprezar demais a índole de uma pessoa que abre mão de muitas atividades pessoais para estar em campo, assim como qualquer jogador.

 

Sobre valores e responsabilidades

Definitivamente, tem algo errado acontecendo na transmissão dos valores do esporte aqui. Certamente não são casos isolados, mas sim somente o que chega até nós de forma aleatória, ou como foi no caso do jogo entre São José e SPAC mencionado no começo do artigo, na TV. É essa a mensagem que queremos passar para o público que está começando a abraçar o esporte? Já presenciei torcedores inflamados e ofendendo arbitragem até em jogos de categorias de base, e certamente isso acaba se refletindo dentro de campo, onde os garotos estão no estágio de formação como jogadores de Rugby.

 

O fato é que torneios estaduais podem ser uma verdadeira caixa preta nesse sentido, e com liberdade para agir como bem entenderem, os mal-intencionados só vão se fortalecer. A atuação do TJD em São Paulo, e a formação do STJD que abrange casos nacionais e onde a primeira instância estadual ainda não se faz presente são um importante passo para coibir esses abusos, mas o problema é muito mais fundo. O sentimento de impunidade já ronda o ambiente entre os árbitros, que Brasil afora não se sentem protegidos das ofensas e intimidações que vem se tornando rotina no rugby brasileiro. O maior problema está no nível estadual, onde a proximidade das federações – e em muitos casos a falta de medidas enérgicas, seja por desestrutura das entidades, seja por interesse geral de que o problema seja tratado – é reduzida e frágil.

 

Mais uma vez, o exemplo tem que vir dos jogadores, treinadores, da direção do clube, é pelo exemplo que se transmitem valores, e não por vídeos motivacionais que são compartilhados a exaustão, muitas vezes por jogadores que são capazes de fazer o exato oposto dentro de campo.

 

Valores além do Facebook, senhores.

 

12188637_10205214191263067_99592705_n

Comentários