Calendário feminino é um problema que precisa ser revisto

O Super Sevens Feminino de 2015 começou errado. O assunto aqui não é nem a organização do torneio, nem o nível de jogo apresentado. O assunto é bem simples: o calendário.

 

A posição que a seleção se colocou no cenário mundial na última década, jogando consistentemente entre a elite do esporte desde 2009, além, é claro, da hegemonia sul-americana, sugerem um desenvolvimento que, no entanto, não é replicado no nível de clubes e, menos ainda, no nível de competições estaduais, que pode cobrar seu preço no futuro próximo.

 

Há que se tirar o chapéu para a CBRu ao profissionalizar a seleção brasileira feminina antes da masculina, dando o devido mérito às atletas, além de seguir trabalhando para fazer evoluir a estrutura disponível e ampliar o número de atletas beneficiadas. Também há que se reconhecer o esforço em manter um circuito nacional de bom nível, de difícil operacionalização, mas crucial para o desenvolvimento da modalidade. É o Super Sevens que sustenta o sevens feminino no país.

 

Porém, é justamente a ligação entre os calendários de seleção e clubes que deve ser repensada. Se tomarmos por parâmetro a última temporada internacional, o Brasil jogou seis torneios do World Rugby – mas, poderia ter sido sete, se as Tupis tivessem sido uma seleção central da Série Mundial – e agora os Jogos Pan-Americanos. Isto é, oito torneios oficiais de suma importância. Ainda houve outros torneios preparatórios extra-oficiais, mas o calendário da seleção se baseia por tais datas, as únicas que são inalteráveis. E a temporada que se avizinha apenas deverá trocar o Pan pelos Jogos Olímpicos.

 

Por sua vez, o Super Sevens possui seis torneios, que, somados aos compromissos internacionais, resultam em 14 finais de semana. Pode-se elevar a conta a 20 finais de semana, se contados os torneios extras que a seleção pode optar por disputar. Se for pensado um fim de semana de intervalo entre um torneio e outro, chegamos a 40 finais de semana. Férias são necessárias e esperamos que o Sul-Americano volte a ser realizado em seu formato tradicional. Ainda assim, o ano tem 52 finais de semana.

 

Logo na primeira etapa da temporada do Super Sevens, as atletas da seleção chamada para o Pan, que seria só duas semanas depois, não se fizeram presentes. O que isso significa?

 

Primeiramente, que o calendário de clubes não está totalmente adequado ao da seleção e que, com isso, os clubes não podem contar com força máxima, dando ao torneio um nível menor do que o que poderia, o que é ruim para o desenvolvimento das demais atletas, que já não contam com bons torneios estaduais – cujos calendários para rugby feminino são ainda medíocres. Entretanto, o que muitas vezes se esquece, é a dificuldade que existe em se montar um calendário, uma vez que a CBRu fica a mercê de CONSUR, World Rugby e outras entidades definirem com rapidez as datas de seus campeonatos, tornando o planejamento da agenda internacional sempre complexa. Por outro lado, a confederação não pode tardar em liberar seu calendário nacional, para não prejudicar clubes e federação estaduais. Tudo funciona como uma grande engrenagem.

 

Nesse sentido, há duas opções. Ou se faz um esforço extra para se adequar o calendário – pois semanas para isso existem – entre Super Sevens e seleção, para que as Tupis estejam presentes em todas as etapas nacionais – mas sem precisarem jogar os estaduais – ou se encara que as Tupis – as centralizadas – não devem jogar o Super Sevens – opinião que pode ser reforçada pelo fato de boa parte das atletas não treinarem com seus clubes por conta da centralização. A opção 1 pode se tornar utópica de ser realizada com perfeição caso os fatores externos citados inferiram. Hoje, o Super Sevens já é realizado no segundo semestre, quando a seleção feminina tem menos compromissos, mas ainda assim é possível aperfeiçoar. A opção 2, no entanto, parece mais lógica hoje, por conta da centralização, mas clubes com muitas atletas na seleção saem pesadamente prejudicados na busca pelo bolsa-atleta, justamente por fazerem um bom trabalho revelando jogadoras. Paradoxal.

 

A solução aqui parece mais pragmática do que qualquer coisa. O Super Sevens precisa ter o tamanho e o formato viáveis, tanto para assegurar a melhor organização quanto para não prejudicar os clubes e a seleção. O que não podemos ter é uma situação instável, na qual as atletas da seleção jogam só quando é possível, prejudicando planejamento de clubes e criando um resultado em campo duvidoso, uma vez que a inconstância da presença das Tupis nos torneios altera o desempenho de forma desigual dos clubes participantes.

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