Diagnóstico Tupis: presente e futuro em perspectiva

Um mês e meio de Tupis todo fim de semana. Foi o que pudemos viver neste começo inédito de 2016, pois jamais antes havíamos presenciado tantos jogos de alto nível das seleções nacionais em tão curto espaço de tempo – e com resultados notáveis. O XV masculino excedeu as expectativas de todos terminando no quinto lugar do Americas Rugby Championship, alcançando histórica vitória sobre os Estados Unidos e fazendo jogos apertados com Uruguai e Chile, alem de 3 tries sobre o Canadá. O sevens masculino, por sua vez, subiu um degrau com grandes resultados em janeiro para depois voltar à cena no fim de semana passado jogando bem contra potências mundiais, apesar de não obter vitórias e, sobretudo, mesmo cansado e sem a adequada preparação (pelo foco do trabalho ter se voltado ao XV). E, como sempre, a seleção feminina reafirmou sua superioridade na América do Sul, mantendo-se alguns degraus acima de suas concorrentes durante a conquista de seu 11º título continental, além de ter, em Barueri, alcançando mais uma vez seu melhor resultado na Série Mundial, o 8º lugar.

 

Nas vozes dos protagonistas, além do grande trabalho – lúcido, acima de tudo – das comissões técnicas envolvidas, o fator mais citado para o saldo de qualidade da seleção masculina está na criação das academias de alto rendimento – independente da discussão que existe acerca de seu funcionamento. A garantida de um aprofundamento do plantel e sua melhor qualitativa, aliada às pontuais – mas, impactantes – importações de atletas de origem brasileira radicados no exterior permitiu que o Brasil disputasse o Americas Rugby Championship da maneira que disputou. Por outro lado, cobrou seu preço ao tirar o foco do sevens de parte do elenco, o que se refletiu em um desempenho que, apesar de bom, poderia ter sido melhor em Vancouver pelo potencial do grupo. Foi uma aposta mais do que justificável pela necessidade de se crescer no XV – modalidade central de nosso esporte.

 

O que se viu nas seleções foi uma confiança e uma consciência tática e de objetivos que por tanto tempo lhe faltou, por mais dedicados e bons que fossem nossos jogadores. Faltava acreditar no passo adiante e confiar no trabalho realizado. As academias trouxeram confiança. O discurso de ambição que não parecia antes em sintonia com o que víamos dentro de campo se encaixou. O Brasil amadureceu, deu o salto adiante, mesclando a geração que deu tudo de sua vida pelo esporte (dentro e fora de campo) com os novos que já chegam formados dentro de um espírito profissional e ambicioso. Aliado a tudo isso, muita consciência das limitações. A lucidez passa por aí: entender o que podemos fazer e o que não podemos, trabalhar as deficiências após identificá-las com propriedade e realismo.

 

Entre tantas virtudes, é preciso pontuar que as conquistas se deram a partir de um princípio básico de pirâmide invertida: o investimento se fez em cima, para que o sucesso traga no futuro investimentos para a base (muitos investimentos na base foram feitos, como o programa do Get Into Rugby, mas os clubes, que garantem a estrutura do rugby competitivo amador evoluiu muito menos, em especial quando se olha para o feminino e o juvenil). Isto é, a lógica adotada não apenas pelo rugby, mas por outros esportes brasileiros, de que antes é preciso ganhar (pois o “torcedor brasileiro só liga para a vitória”, assim como a imprensa) para ter visibilidade e conquistar investimentos globalmente. A fórmula aqui para vencer é focada no investimento direto no alto rendimento, possível pelo “momento olímpico” do país. Lógica igual à do Governo Federal, que apostou no Bolsa Atleta e no Bolsa Pódio, mas sem grande mudança no esporte comunitário e escolar, que segue precário, mesmo sendo o celeiro para o alto rendimento do futuro.

 

Trata-se aqui de uma aposta, mais do que defensável e que claramente rendeu frutos importantes para as seleções em menos tempo do que outra estratégia traria. É justamente no médio prazo que sentiremos se a aposta foi a melhor ou não. Mas, no futuro, quando julgarmos a atual estratégia de crescimento estaremos munidos de uma injustiça: a de já sabermos seu resultado. Hoje, a estratégia é uma aposta.

 

Vamos curtir o momento, aplaudir as conquistas, mas sem ingenuidade, pois estruturalmente nosso rugby está ainda abaixo do que sugerem os resultados obtidos pelo alto rendimento. O trabalho é longo, é preciso todos jogarem juntos, mas pensando lá na frente, pois o esporte é uma montanha-russa, tanto no campo (resultados) como fora dele (investimentos públicos e privados, visibilidade, prestígio). A batalha pelo rugby só começou.

 

 

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