Este artigo nasce de uma reflexão minha após a polêmica fusão entre Stade Français e Racing na França. E ela se estende ao dia a dia do rugby em qualquer parte do mundo, nas atitudes dos praticantes e dirigentes, torcedores e treinadores.

 

TL;DR (“na boa, é muito grande, não vou ler”): No texto abaixo vou defender que os valores do rugby são incompatíveis com a ideia de vitória e de crescimento a qualquer custo e que a forma com que foi anunciada a fusão entre Stade Français e Racing vai contra os preceitos do esporte, sendo desrespeitosa com os torcedores e servindo de alerta de que o rugby possa tomar caminho semelhante ao de outros esportes que se entendem como meros negócios, sem o devido apreço aos valores morais de conduta que pregam.

 

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Como não sou adepto de opinião na forma de meia dúzia de palavras de efeito com ambição de “verdades”, optei por um texto maior analisando. E, claro, deixem seus comentários, concordando ou discordando. Sem isso, perdemos nossa capacidade de debate sério.

 

Valores do rugby?

Pois bem, quando se fala em “valores do rugby” e “espírito do rugby” está cada dia mais claro para mim que cada um parece ter a sua própria versão desses conceitos, normalmente ajustados ao que melhor convém. Então, não darei muitas voltas, vou deixar claro como enxergo os tais “valores” da bola oval, que para mim são muito preciosos. Na visão do World Rugby, o rugby tem 5 pilares em sua ideologia: Integridade; Respeito; Solidariedade; Paixão; Disciplina (no Brasil, você encontra eles em todos os materiais didáticos sobre rugby).

 

Espera, você falou ideologia? Sim, porque “ideologia” nada mais é que um sistema de ideias e valores sobre o mundo, algo que qualquer ser humano tem, querendo ou não. Direita, esquerda, centro, liberal, conservador, anarquista, niilista, coletivista, individualista ou um pouco de cada. Todo mundo tem uma visão de mundo sobre cada aspecto da vida. Esportes não têm ideologias sozinhos, eles não são pessoas. Eles podem servir a qualquer propósito, a qualquer ideologia, basta enviesar algum aspecto a seu bel prazer. Na verdade, com tanta informação disponível na vida, chegamos ao cúmulo de que qualquer um “prova” o que quiser. Coerência, conceito, fundamento, método, espírito crítico no manuseio de dados (ou fatos) são o que definem o quão perto da “verdade” uma ideia está, mas parecem que viraram detalhes incômodos no mundo atual que podem ser escondidos em prol de uma boa retórica, por mais barata que ela seja.

 

Por isso, eu volto aos pilares do rugby. Quando a federação internacional define que esses aspectos morais (sim, morais, porque todos eles são relativos à conduta pessoal) são centrais ao praticante, ela está enviesando sua forma de enxergar o esporte. Eu, por acaso, concordo com essa visão de que o rugby não seja apenas um jogo, ele é algo a mais, ele exprime uma forma de se relacionar com o mundo. Novamente, esses valores podem ser lidos e entendidos de formas completamente diferentes, de acordo com a visão de mundo do leitor. Para mim, quando juntamos os 3 primeiros pilares, “Integridade; Respeito; Solidariedade”, a ideia mais clara é de que falamos em um esporte coletivo, no qual o respeito ao próximo é aspecto central. Seja ao amigo(a) de clube, seja ao adversário em campo. Seja ao árbitro, seja ao torcedor. Não é essa a leitura que na prática a maioria de nós no rugby temos dos valores?

 

Avançando na análise dos valores, o respeito ao próximo somado ao quinto pilar, o da “Disciplina”, me leva a mais uma conclusão dos valores da bola oval: o do jogo limpo. Isto é, o respeito às regras do jogo, que tem como espírito por trás o bem comum. Certo? E quando se fala no respeito às lideranças, à hierarquia, trata-se de uma via de duas mãos, isto é, quem lidera ou quem arbitra tem igualmente que seguir os mesmos valores de quem respeita a liderança e a arbitragem.

 

O desdobramento mais lógico desse “jogo limpo”, na minha cabeça, é justamente o de que no rugby a vitória – que é movida pela “Paixão”, o quarto pilar, que gera o esforço e a dedicação em se fazer o melhor – é sempre uma consequência do trabalho e que não deve ser perseguida a qualquer custo. Exatamente. “Vencer de qualquer modo” não faz parte, na minha cabeça, dos valores do rugby. O ganho pessoal deve ser consequência e compatível com a essência coletiva do jogo. Não é o que falamos sempre, que é o time que ganha junto e perde junto? Não por acaso o rugby foi amador por tanto tempo (de 1845 a 1995), para impedir que a “Paixão” seja trocada pela “Ganância” e que o ganho pessoal seja único fim, obtido por quaisquer meios.

 

E mais: a palavra “vencer” pode ser trocada por “crescer” também. “Crescer” a qualquer custo não faz parte do rugby do mesmo jeito. E por “crescer” eu volto ao segundo parágrafo deste texto, pois “crescer” com a ideia de “melhorar” é costumeiramente trocado pela ideia de “progresso”. O “progresso” a qualquer custo, que não significa absolutamente nada se não for devidamente definido: o que é “progresso” nesse caso?  Ou ainda, “progresso” para quem? É preciso definir, colocar na mesa de qual “vitória”, de qual “crescimento” e de qual “progresso” se fala e, mais importante de tudo, qual é o caminho para eles. Justamente porque no rugby vencer a qualquer preço não é compatível com os pilares do esporte. Mais que isso, a derrota é parte natural da vida, por consequência. Pelos valores do rugby que eu enxergo, a derrota não tem nenhuma desonra. A desonra está em não dar seu melhor e em não jogar limpo, apenas isso.

 

Torcedor é só consumidor e clube é só empresa?

No caso dos clubes de Paris citados, a fusão entrou em conflito, na minha visão, com os pilares do rugby. Mais precisamente com os 3 primeiros. Quando falamos de clubes profissionais, falamos de torcidas. Em qualquer esporte. O torcedor pode não ser o dono legal do clube, mas ele fornece os alicerces para o clube existir. Sem torcida, não há o “negócio esporte”. É claro que essa lógica se aplica a qualquer mercadoria, mas o esporte vai além, pois o torcedor não é mero consumidor, ainda mais no rugby. O torcedor se baseia no exclusivismo, ele sempre torce para apenas um e faz o trabalho voluntário (“marketing” voluntário e incondicional) por paixão, não por mero gosto.

 

Mais que isso na verdade, o torcedor é também produto do clube. Sim, ter uma torcida e as características da torcida agregam valor ao próprio clube, que usa o torcedor para ganhar justamente o apoio do patrocinador. O fabricante de sabão em pó não usa seu número de consumidores e a fidelidade deles para que uma montadora de automóveis estampe sua marca na caixa de sabão em pó. E ninguém se prende a um produto se ele passa a ser de má qualidade.

 

O clube esportivo faz dinheiro também porque tem uma torcida e sua torcida é fiel ao clube independente da qualidade do time. Dinheiro esse que interessa à própria torcida, que quer vê-lo reinvestido na equipe para vê-la campeã ou simplesmente com resultados melhores. O torcedor não abandona o time quando ele vai mal. O resultado ruim apenas inibe novos torcedores e fãs de aderirem ao time. Já uma mercadoria ruim (como o sabão em pó que citei aleatoriamente) afasta o consumidor, óbvio. Ele não é fiel por amor ao produto. O título, por sua vez, não tem nenhum valor direto a não ser status para atrair mais torcedores, que gerarão mais patrocinadores e apoiadores, interessados na visibilidade e em agregarem valor às suas marcas (o valor da associação ao vitorioso, ao bem sucedido, à quem tem seriedade). Diferente do torcedor aficionado, há o fã, que aprecia mais de um time ao mesmo tempo, é claro, e que muitas vezes tem seu carinho a um time movido pelas características da torcida à qual ele quer momentaneamente se juntar. Todos somos torcedores de uns e fãs de outros. E rivais de outros. No caso do rugby, a rivalidade se baseia nos pilares também, isto é, paixão com respeito e integridade. O rival é amigo, mas não deixa de ser rival.

 

É fato também que grandes empresários e empresas possam ser responsáveis pelo crescimento de equipes esportivas, pois o esporte profissional tem valores tão inflacionados hoje que não basta apenas o dinheiro dos torcedores – entendidos como clientes – para um time ser competitivo. A realidade inflacionada do futebol e dos esportes americanos, movida por toda uma rede de ganhos pessoais que existem dentro da máquina esportiva, chegou ao rugby – para o pesadelo dos rugbiers do século passado e do século retrasado, que tinham horror ao esporte profissional, por razões que não cabem serem esmiuçadas aqui. E mesmo esporte amador é caro de se fazer e difícil sem o apoio privado. Isso é uma realidade. A questão agora é: quais os limites que os pilares do rugby deveriam impor às práticas econômicas (do “esporte como negócio”, que nasceu fora do rugby) dentro do esporte?

 

Afinal, qual a conclusão e o que os franceses tem a ver com isso?

Na minha opinião, se os pilares do rugby não limitarem certas práticas econômicas, o rugby estaria se transformando em outro esporte. E deveria, portanto, abrir mão de falar em seus valores, caso contrário seria hipocrisia. Amarrando, todo o valor que a torcida e que os sócios hoje e ontem deram a uma equipe gerará em partes o que essa equipe será amanhã. Isto é, o valor de uma equipe é gerado por quem a construiu. Quando um empresário compra uma equipe, ele não está montando um negócio dele do zero, ele está assumindo a responsabilidade de gerir algo que foi criado por outras pessoas e que segue em alguma medida preso à forma com que essas pessoas – os torcedores e sócios – se relacionam com a equipe.

 

Quando Racing e Stade Français, que são clubes rivais na mesma cidade, anunciam a fusão sem que antes tivessem consultado seus torcedores e com a alegação de que a união seria para se construir um clube ainda mais vitorioso, a única coisa que passa pela minha cabeça é que suas direções não tiveram o menor respeito pelo que pensam os torcedores. Da noite para o dia, o torcedor que foi devoto de uma agremiação passará a ser obrigado a torcer por outra. Ele ou ela que emprestou sua dedicação na construção da instituição não foi consultado sobre isso. Decidiram por ele ou ela que o mais importante é vencer e que seguindo cegamente a liderança (uma que não conduziu seu clube balizada pelos pilares do esporte, mas que apenas a comprou) a vitória será supostamente obtida.

 

Para ser justo, as fusões são comuns na França sim. Por exemplo, o Bordeaux-Bégles é a união de dois clubes da região de Bordeaux, o Stade Bordelais e o Bégles, ambos ex campeões nacionais. Entretanto, a fusão se deu quando a cidade não tinha um clube na elite nacional havia uma década e com ambos sofrendo com a transição do rugby amador para o profissional. Um do centro e outro do subúrbio, quando ambos estavam arriscados de colapso e quando não competiam verdadeiramente dentro do rugby profissional. Houve discordância, mas o senso comum entre a maioria dos adeptos é de que era necessária a junção. Diferente dos dois clubes de Paris. Pois é bizarra uma fusão vinda de um clube que foi o campeão nacional da França em 2015 (Stade Français) e do clube que foi o campeão nacional de 2016 (Racing), isto é, de dois times que já eram vencedores na era profissional e que competiam por torcedores no mesmo espaço. No ano em que ambos estão indo mal, ou o risco do insucesso levou à pulverização dos pilares do rugby, ou a ânsia desmedida por mais e mais (se a tese da compra do Stade pelo Racing se provar) fez com que história e pessoas (jogadores, torcedores) fossem vistos como mero detalhe irrelevante. Tudo de forma incrivelmente imediatista e sem qualquer consulta (afinal, se o “nobre” motivo era criar um time grandioso, é bom saber se o torcedor queria esse time). Não foi sobrevivência exatamente.

 

Em outras palavras, para eles tudo valeria ser feito para vencer mais, pois apenas crescer é o que importa. A má gestão de ir de campeão nacional a ameaçado de rebaixamento, no caso do Stade Français, já vivido por todos os grandes clubes do mundo, não foi tratado como percalço do esporte. Para mim, unir equipes é algo natural no rugby, pois rivais não são inimigos. Porém, as fusões devem, no mínimo, ser reflexo de uma vontade coletiva, não capricho de uma ambição pessoal. Da forma com que houve a fusão na França, temo que ela vire um marco da viragem de que o rugby profissional estaria disposto a abrir mão de seus ideais em prol da vitória, do espetáculo ilimitado. Ou melhor, que o rugby estaria disposto a trocar de ideias, abrindo mão da quina “Integridade-Respeito-Solidariedade-Paixão-Disciplina” pela ideologia da vitória e do crescimento econômico a qualquer preço. E isso é uma questão de ideologias, passível de ocorrer em qualquer lugar do planeta oval. Cabe ao rugbier – praticante ou apenas torcedor – dizer que valores ele quer associados a seu esporte.

 

Foto: Torcida organizada do Stade Français – LP/Jean-Baptiste Quentin

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