Longa vida ao nosso Twickenham, o Pacaembu

Sexta-feira foi um dia esplendoroso para o rugby nacional. Com ações de marketing intensas e um palco de gala como aliada, a partida entre Brasil e Alemanha no Pacaembu, em São Paulo, quebrou o recorde de público para um evento de rugby no Brasil (basicamente dobrando os melhores públicos registrados até então), com 10.480 torcedores presentes – e precisamente calculados na entrada do estádio.

 

O evento encheu de orgulho o rugbier nacional. Primeiro, pois a CBRu acertou em tudo ao longo da montagem da partida, não havendo do que se queixar. Local melhor impossível, food trucks e cerveja na entrada do estádio, um dia excelente (a sexta-feira a noite, que apesar de não facilitar a vinda de torcedores de outras cidades, não concorre com outros eventos esportivos de peso, para atrair o interessado leigo) e um horário bom (após o expediente de trabalho, mas já sem o pior do trânsito terrível das noites de sexta paulistanas). À organização, nosso humildes parabéns.

 

E à comunidade do rugby nosso agradecimento. Após alguns eventos que não foram ideais em termos de presença de público na cidade (com horário ou local sendo atribuídos por muitos como os culpados) a Grande São Paulo, região com a maior concentração de jogadores e amantes de rugby no Brasil, compareceu em peso para o espetáculo, fazendo ela própria um show próprio.

 

Mais importante do que o próprio recorde e a atmosfera criada, foi a certeza de que a comunidade do rugby entendeu a importância do evento. Encher o Pacaembu significava muito mais do que criar um evento bacana. Significava e significa mostrar que o rugby tem condições de se tornar um usuário regular do tradicional estádio paulistano – e mesmo de se beneficiar de possíveis incentivos para ocupar o estádio municipal. E é aqui que jaz o ponto crucial. Com a construção da Arena Corinthians e com a inauguração do novo Allianz Parque, todos os grandes clubes da capital paulista possuem seus estádios próprios, o que significa que o Pacaembu (que não pode mais receber espetáculos musicais) precisará de eventos para os próximos anos, ainda mais por ser mantido em boa medida com dinheiro dos impostos dos cidadãos. O único grande clube de futebol que é potencial usuário do estádio é o Santos, que possui grande torcida na capital e, ainda que nem todos no clube santista entendam essa lógica, precisa e tende a mandar eventualmente partidas no Pacaembu. Porém, dificilmente o Santos em um futuro próximo irá preencher o calendário de eventos necessário para o estádio não se transformar em parcialmente ocioso.

 

Tal situação beneficia basicamente três modalidades que fazem uso de estádios: o futebol feminino, o rugby e o futebol americano. Colocando 10.480 torcedores no palco, demos um primeiro passo – que esperamos que seja um entre muitos – para transformar o Pacaembu em “nosso Twickenham”. Mais dois eventos no ano que vem estão marcados já para o Pacaembu: os jogos contra Estados Unidos (no dia 27/2) e Argentina (no dia 5/3) pelo Campeonato das Américas. Ter uma casa dessa qualidade é privilégio não disponível para muitos países no rugby mundial – basta ver como a Argentina vem sofrendo para encontrar uma casa apropriada para seu time de Super Rugby em Buenos Aires. A existência de um estádio como o Pacaembu, público e com espaços em seu calendário na maior cidade do país precisa ser aproveitada. É evidente, ainda, que o uso do Pacaembu não significa que as seleções deixem de jogar em outras cidades – pois é essencial ter os/as Tupis jogando no maior número possível de cidades e estados diferentes – mas é importante como projeto de popularização contar com um local que seja sentido por todos como a casa do esporte, que seja uma certeza de sucesso e que se torne conhecida pela regularidade dos eventos.

 

Assim, parabéns à CBRu e a todos os rugbiers que ajudaram a dar um passo crucial na história de nosso esporte. Que seja o primeiro de muitos. Não tiremos 2016 da cabeça, temos recordes a bater e muito a crescer. Sexta-feira, dia 4 de dezembro, nos deu a certeza de que estamos nesse caminho.

Comentários