Machismo dentro do Rugby brasileiro: uma realidade a ser enfrentada

OPINIÃO (ARTIGO ATUALIZADO) – Quem acessa com frequência as redes sociais já deve ter se deparado com diversas mulheres – e vários homens também, assim como clubes – levantando a bandeira “Lutamos pelo Rugby Feminino”, manifesto geral em prol de maior igualdade de gênero no esporte da ovalada, que sempre se mostrou fértil e receptivo a campanhas que tenham valores do esporte como solidariedade e respeito como referência. É por isso que o Portal do Rugby também decidiu abordar a questão do gênero, mais uma vez. E nada mais justo que dar a voz a uma mulher para abordar o assunto.

 

São embaladas, desde quando nascem, na possibilidade de até conquistarem renomadas profissões, no entanto, a partir da pré-adolescência, esquecidas nas aulas de Educação Física e, ainda assim, elas representam 50,4% das pessoas que praticam atividade física no Brasil (segundo pesquisa da Revista Exame em 2015). O esporte é um setor majoritariamente liderado por homens e destinado a eles e esta problemática tem fundo estrutural, isto é, está baseada na desigualdade de gênero que é presente e comum e se manifesta em basicamente todas as modalidades. Com o Rugby não é diferente, os dados do CNRu mostram que são 3116 jogadoras contra o número de 10783 jogadores e, provavelmente, muitas delas já enfrentaram situações nada agradáveis dentro de seus clubes só por serem mulheres.

 

No final do mês de agosto, a página do Facebook da FEA-USP,  “FEA pra elas”, fez um protesto contra o grito que a equipe masculina de rugby da faculdade faz antes dos seus jogos e durante as festas que exprime conteúdo misógino e ofensivo às mulheres. Este caso exposto pelas estudantes da FEA trouxe à tona a discussão sobre situações de machismo que são recorrentes dentro do rugby no meio universitário ou fora dele. Certamente, a exposição do grito não é um caso isolado dentro do rugby nacional. As  reclamações e questionamentos dos setores femininos vêm aumentando conforme as mulheres têm conhecido o feminismo e o empoderamento, ou seja, os comportamentos machistas têm sido cada vez mais apontados e não tolerados (em nota enviada após a publicação deste artigo, a FEA Rugby esclareceu que já está revendo o uso do grito e declarou apoio ao rugby feminino).
 

Os acontecimentos que podem exemplificar como o comportamento machista está presente dentro do rugby são vistos não somente em gritos. Se a ótica partir da hierarquia dentro de clubes e federações, a Federação Paulista (FPR) é uma das únicas que possui uma direção feminina e, ainda mais, gerenciada por uma mulher. Esta exclusão em diretorias e gerências faz com que o planejamento e o calendário feminino seja sempre subjacente ao masculino, detalhes sutis demonstram que o setor das mulheres está sempre renegado ao segundo plano. Até mesmo na FPR  que existe uma mulher na diretoria feminina, a arbitragem e campo são destinados aos campeonatos femininos depois que os masculinos já estão “prontos”. Se esta situação ocorre numa organização ampla,  nos clubes maiores ou menores e em equipes universitárias, é muito mais recorrente. Os exemplos que ocorrem na prática do rugby deste “descaso” com os setores femininos é a frequência de atletas da equipe masculina que, muitas vezes, não são preparados, que as treinam e aplicam uma técnica de jogo baseada nas noções que eles possuem, tudo isso porque as mulheres não têm direito à mesma qualificação técnica que eles e também na frequente  ausência das equipes femininas nos estatutos dos clubes, ou seja, na prática elas não existem.

 

Essas situações decorrentes precisam ser expostas. Que os clubes pecam nas gerências, a maioria do público consumidor de rugby já sabe. No entanto, poucos têm conhecimentos das entrelinhas que diminuem mulheres em espaços que já são estruturalmente diminuídas.

 

Os relatos das jogadoras deixam claro que os jogadores e torcedores que os fazem não estão confortáveis com mulheres ocupando um espaço que, ouse alguma delas refutar, é deles. Para uma infinidade de homens praticantes do rugby, as mulheres são, de fato, um enfeite para o móvel que é relevante. E por isso, ao exercerem função de auxiliar de linha, já tiveram que ouvir que deveriam lavar louça, afinal, a cozinha que é o lugar das mulheres. E tem clubes que levam essa ideia à prática. Em terceiro tempo misto, não é incomum que elas precisem cuidar da comida enquanto eles tomam a cerveja.

 

Se as mulheres incomodam na gerência dos clubes e, em alguns casos, até na arbitragem, os torcedores e jogadores não hesitam em expressar que os corpos delas em campo são agradáveis, mas não de forma elogiosa, e, sim, constrangedora, cantando, inclusive, que o importante não é que elas joguem e sim que os “peitinhos” apareçam. Existem clubes que proíbem que as jogadoras vistam top durante os campeonatos que também envolvem a categoria M19 masculina porque a forma física delas pode tirar a atenção deles.  Os comentários sobre os corpos continuam nos terceiros tempos com jogadores que dizem que as jogadoras estão lá para, exclusivamente, dançarem para eles. Em outras situações, os jogadores já as filmaram se divertindo depois dos jogos. As atletas também são questionadas por suas orientações sexuais e em muitos clubes são orientadas a não se beijarem entre si porque crianças ou adolescentes podem ser influenciados.

 

Todas as situações enfrentadas pelas jogadoras e causadas pelo machismo estrutural e também nas atitudes “menores” em seus clubes são as maiores causas da desunião entre as equipes femininas e masculinas, levando assim à extrema dificuldade dos times femininos terem, de fato, uma crescente que os torne competitivos e diminua a rotatividade. Estes comportamentos, principalmente os que dizem respeito à estrutura interna do clube, retiram o mérito delas e, por consequência, a autoestima das atletas para permanecerem treinando. O que ocorre é, também, uma deturpação dos valores do rugby que deveriam promover a união entre as equipes e com o desrespeito gerado impede a aproximação.  Se o rugby é um “esporte de bárbaros jogados por cavalheiros” é minimamente contraditório que mulheres sejam apagadas. Elas, sequer, precisam de cavalheiros, elas precisam de espaço e equidade dentro dos clubes.

 
Texto: Maria Freire
Imagem: Karina Araujo – Vitória RC

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