Por um esporte com igualdade entre mulheres e homens

Sim, este artigo deveria ter sido escrito ontem, no Dia Internacional da Mulher. E, sim, deveria ter sido escrito por uma mulher, afinal, se a luta é pela igualdade de sexos, nada mais óbvio do que ter mulheres com a palavra. E este espaço está, como sempre, mais do que aberto a quem quiser escrever, em especial as mulheres. Mas, como jornalista, historiador e esportista, também gostaria de poder falar sobre o esporte feminino e, acima de tudo, abrir este espaço para a discussão.

 

O último mês foi histórico para o rugby nacional e a vitória sobre os Estados Unidos foi aclamada como a maior da história do rugby brasileiro. Verdade? Sim, mas do rugby brasileiro masculino. O rugby feminino já chegou a um patamar muito mais elevado, tendo disputado duas vezes a Copa do Mundo de Sevens, em 2009 (talvez este o maior feito de nosso rugby) e 2013, e alcançado 6 vezes o 8º lugar em torneios da Série Mundial de Sevens. Para não falar dos 11 títulos sul-americanos invictos. Acima de tudo, quem colocou antes o Brasil no mapa do rugby mundial foi a seleção feminina.

 

Mesmo com tantos feitos, a participação feminina ainda é reduzida na maioria dos clubes brasileiros. Hoje, ainda vemos muita gente nos clubes que enxerga o time feminino como algo menor, que trata a modalidade como se fosse mera brincadeira. O pior horário disponível para treinos. Um treinador que não é treinador, e sim alguém do masculino com boa vontade, mas com conhecimento muito menor a oferecer do que o treinador do masculino. Nenhuma participação na direção do clube. Nenhum recurso financeiro ou nenhuma vontade dos demais membros do clube em ajudar a arrecadar fundos para a equipe. Essa é a realidade mais do que frequente do rugby feminino Brasil afora.

 

Não por acaso, temos uma lista assustadora de times femininos que rompem por completo sua relação com o time masculino de sua cidade e adotam uma identidade própria e separada. Certamente, não é esse o melhor caminho. O caminho para o rugby, seja ele masculino ou feminino, é o trabalho conjunto entre todas as modalidades, isto é, o time masculino adulto ajudar o feminino, o feminino ajudar o masculino. E ambos trabalharem juntos para fomentarem as categorias de base, a buscarem recursos financeiros e parceria com o poder público para que o CLUBE e o RUGBY cresçam. E abrirem caminho para termos mais árbitras, treinadoras, diretoras.

 

Por falar em categorias de base, quantos clubes hoje conseguem ter equipes juvenis femininas? Sem elas, o futuro do rugby feminino vitorioso brasileiro segue incerto, pois sem juvenis jogando com regularidade não temos garantia de que haverá continuidade na formação de novas atletas de qualidade. Hoje, o rugby juvenil feminino depende muito de projetos sociais de sucesso, seja fomentados por clubes (Curitiba, São José, por exemplo) ou outras organizações (Hurra, Rugby para Todos, SESI).

 

A precariedade da categoria feminina no país se reflete na inexistência prática do Rugby XV feminino (que só pode existir quando a modalidade atinge uma maturidade elevada, com clubes com plantéis muito maiores do que o que vemos hoje) e nos calendários pouco consolidados das federações estaduais para a modalidade, com poucos torneios adultos, um número ainda menor (ou por vezes inexistente) de torneios juvenis e, no caso do rugby feminino de alto rendimento, uma dependência grande ainda do Super Sevens da CBRu. Quando discutimos a situação atual da Seleção Brasileira Feminina e a luta das Tupis (ou Yaras, afinal, é assim que muitas delas gostariam de ser chamadas) em superarem o 8º lugar no circuito mundial encontramos a limitação não no trabalho bom da comissão técnica da seleção e das atletas de alto escalão do Brasil, mas no quadro geral da modalidade feminina no Brasil. Ao compararmos o ambiente de rugby feminino encontrado nas nações que hoje estão acima do Brasil na Série Mundial fica claro onde mora nossa fragilidade. Ela não está na seleção.

 

Mas, como isso pode mudar? A primeira e óbvia barreira é o machismo, que se manifesta velada ou abertamente, dependendo da circunstância. Ele está em todos os lugares e evidentemente é mais difícil para um homem percebê-lo do que para uma mulher, que sente seu peso desde sempre. A começar pelo desincentivo dado em geral na sociedade para as meninas desde a infância a praticarem e gostarem de esportes, em especial os que envolvem contato físico. Não é por acaso que há sempre menos meninas do que meninos nas categorias juvenis. E nas categorias adultas ele se manifesta na já citada falta de igualdade no tratamento do rugby feminino – dentro dos clubes ou mesmo acima deles.

 

Em pleno século XXI, é preocupante ver como há muito poucas mulheres no poder, na verdade em todas as instituições. O rugby não foge à regra. Há uma falta crônica ainda de mulheres nas diretorias de clubes, federações e confederação – há exceções à regra, e muito positivas, mas ainda há um longo caminho a percorrer para que haja igualdade real entre as duas modalidades. E a igualdade só existirá quando as mulheres deixarem de apenas jogar para decidir, propor, conduzir o esporte – e não só as categorias femininas, mas o rugby como um todo, em todas as suas esferas. Pois o rugby é um só, e não mulheres de um lado e homens de outro.

 

Essa separação entre mulheres e homens no esporte é preocupante inclusive na imprensa, pois o esporte feminino é tratado em geral como algo a parte, o que não deveria ocorrer. Se vamos tratar de um esporte, falemos de tudo o que o envolve, indistinguindo em importância homens e mulheres. No Portal do Rugby, felizmente, temos essa política de não separar nossa cobertura: ela é uma só, trata de masculino e feminino, juntos. Se hoje faltam matérias de rugby feminino, é porque há menos competições femininas no país e, no caso do rugby internacional, há menos acesso ao universo feminino para acompanharmos de longe com a mesma atenção. O esforço é muito maior. E, infelizmente, sentimos em nossa cobertura que falta engajamento e interesse da parte do público feminino. Precisamos de ajuda também para ir na direção correta da igualdade. Inclusive dos times femininos, pois sem os clubes nos enviando informações não temos matérias (nem para o masculino, nem para o feminino, é uma questão estrutural nossa).

 

Um exemplo é a cobertura que estamos tentando fazer para o Six Nations Feminino. Soltamos matérias em todas as rodadas e não tivemos nenhum comentário de uma mulher nos artigos. Da mesma forma, há uma tendência de as coberturas do rugby feminino terem menos comentários e retorno do público. Na verdade, o Portal do Rugby hoje tem tantas notícias que envolvam rugby feminino quanto blogs especializados. Mas, não fazemos distinção, pois muitas vezes colocamos o feminino junto do masculino. E temos muitas notícias todos os dias, o que significa que quem não acessa o site todos os dias acaba perdendo muitas notícias, que já saem de vista.

 

Com isso em mente, como depois iremos querer que haja transmissões de rugby feminino e maior cobertura se nem as mulheres do rugby prestigiam da forma necessária os esforços em cobrir o rugby feminino? Não podemos cair no círculo vicioso da discussão interminável sobre se “há pouco esporte feminino na TV e na imprensa porque não há público interessado ou não há público interessado porque não há esporte feminino em quantidade na TV/imprensa?” Ou seja, “quem veio antes, o ovo ou a galinha?”. Se de um lado há o machismo, do outro há ainda falta de consciência e engajamento de parte do rugby feminino na mudança do cenário. O rugby feminino precisa ter mais incentivo quanto à prática, sim, mas também precisa ser mais acompanhado, seja por homens ou mulheres, no que diz respeito a seu noticiário, ao menos na imprensa especializada. Mesmo porque, é hoje a imprensa especializada que faz uma cobertura mais séria do rugby feminino. Afinal, é ainda incrível ver a quantidade de perguntas absurdas feitas a atletas e matérias na grande imprensa que só reforçam uma visão torta sobre esporte feminino. Para o esporte feminino crescer, é preciso haver transmissões de competições femininas, para as meninas e mulheres que as assistirem terem inspiração e referências para seguirem no esporte. Ídolos, acima de tudo. E, claro, é preciso que tudo isso seja noticiado nos jornais, na internet. E para que isso ocorra é preciso garantir o retorno de audiência, que depende muito do engajamento feminino em acompanhar e consumir suas competições. O apoio deveria vir também dos homens, mas contar com os homens nunca foi a melhor saída, afinal, há muitos que jogam junto, mas há muitos que jogam contra.

 

Por um esporte igualitário entre mulheres e homens sempre.

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