O último final de semana foi de euforia no rugby argentino, com o título após 48 de jejum do Belgrano Athletic Club em Buenos Aires. As imagens da festa emocionam, mas, para nós brasileiros, elas são acima de tudo uma lição.

 

Todo o rugby argentino de clubes, para quem está chegando agora no rugby, é amador. O único time profissional do país são os Jaguares, que foram formados em 2016 para disputarem o Super Rugby. Abaixo dos Jaguares, a União Argentina de Rugby estruturou um sistema de academias de alto rendimento com vários atletas recebendo bolsas – e podemos ver esses jogadores semi-profissionais em ação com a segunda seleção argentina, a Argentina XV, em torneios ao longo do ano, como o Americas Rugby Championship.  Alguns argumentam que os clubes argentinos não teriam condição financeira para virarem profissionais, já que a economia do país não vai bem há muito tempo. Mas, o amadorismo é, antes de mais nada, uma questão de princípio para os argentinos. Mesmo que o profissionalismo fosse viável, é provável que o rugby por lá seguisse amador, por puro ideal.

 

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Qualquer brasileiro que queira entender o rugby argentino precisa um dia viver a experiência de ir a um clube local. A grande maioria dos clubes argentinos foram formados entre o fim do século XIX e a metade do século XX, o que significa que puderam crescer e estruturar suas sedes ao longo de décadas. Hoje, os clubes argentinos são instituições de milhares de sócios, muitos com relações estreitas com colégios e universidades, mas sempre com profundos laços com a comunidade dos bairros e cidades onde estão instalados. Um clube argentino é sempre um pedaço íntimo da vida de seus sócios, normalmente contando com mais de um esporte.

 

Seria injusto, evidentemente, compará-los com os clubes brasileiros, cuja grande maioria foi fundada entre a segunda metade do século XX e (a maioria esmagadora) já no século XXI. Os clubes brasileiros são jovens e não tiveram o benefício de existirem quando comprar um terreno para construir um clube era algo viável. Hoje, a especulação imobiliária impede que os clubes brasileiros pensem seriamente em possuírem seus próprios campos de rugby, deixando-os com duas possibilidades: buscarem parcerias com o poder público (ou instituições públicas, como universidades federais ou estaduais) para assumirem campos públicos – em geral, mediante a criação de projetos sociais, mas sempre vulneráveis aos resultados das eleições e a outras intempéries políticas – ou parceria com instituições privadas – o que ainda não deu muito certo, com raros casos de sucesso, em especial quando se fala em clubes sociais ou clubes de futebol que tem políticas ainda mais instáveis para esportes amadores que o próprio poder público.

 

União e cultura fazem a força sempre

Mas, o exemplo argentino, reservadas as devidas diferenças, é muito importante de ser entendido pelo aspecto da cultura do rugby. Cada sócio conhece a história de seu clube e o vive apaixonadamente dentro e fora de campo. Basta olhar a quantidade de torcedores que cada clube leva frequentemente às suas partidas. As imagens do Belgrano campeão não são exceções. O dia a dia do Belgrano, do Hindú, do CASI, do SIC, do CUBA, do Alumni e de tantos outros clubes de Buenos Aires (uma cidade que conta com mais de 80 clubes de rugby!), assim como o cotidiano de tantos outros clubes em Córdoba, Rosario, Tucumán, Salta, Mendoza, Mar del Plata ou Santa Fe é sempre de centenas de sócios assistindo aos jogos do lado de fora e sempre com dezenas trabalhando voluntariamente pelo bem de seu clube diariamente. Os veteranos seguem atuantes onde podem, seja como torcedores ou, se tiveram know-how adequado e disposição, em outras atividades do clube.

 

Mais importante ainda é observar que é sempre a instituição que está acima. Cada clube conta com dezenas de equipes, com cada categoria tendo seu time A, B, C (ou até mais que isso). Nesse sentido, cada um entende seu lugar dentro do clube. Aqueles com mais qualidade estarão no time principais jogando competições que têm nível profissional, ainda que jogado por amadores (basta assistir à final do Campeonato de Buenos Aires para constatar que muitos dos atletas em campo teriam plenas condições de jogarem profissionalmente na Europa, mas optarem por permanecerem em seus clubes, vivendo-os intensamente em paralelo com suas profissões). E os jogadores que não estão no nível de jogarem pelo A vivem também intensamente as equipes B (chamadas de Intermédia) ou C (Pré-Intermédia), que têm competições estimulantes. Cada um vive o rugby de acordo com sua realidade e pretensão, mantendo a unidade dentro do clube.

 

Trata-se, aliás, de um aspecto que nós devíamos aprender com os argentinos. No Brasil, é comum vermos clubes rachando por desavenças entre seus atletas. Quantos clubes no Brasil são hoje capazes de sustentar mais de um XV ativo em competições e coexistindo em harmonia? Quantos atletas entendem que jogar em uma equipe B ou simplesmente estar no banco de um time A não é nenhum problema, e sim uma oportunidade de ajudar de alguma forma seu clube? Muitas vezes, exaltamos a quantidade de clubes que temos, mas realmente quantos de nossos clubes são clubes realmente? Temos muitos times, mas pouquíssimos clubes. Mesmo porque é muito difícil virar um clube. Para ser um clube, não é preciso ser dono de seu campo. O que faz um clube ser um clube é criar e sustentar uma comunidade de praticantes e amantes do rugby, desde as categorias de base até os times adultos e os torcedores, entre sócios, familiares e amigos. Formar atletas de ponta é o de menos. O importante para o futuro de cada clube certamente é criar um ambiente interno de rugby, com sócios que sejam torcedores, com jogadores dos mais variados níveis, dos que são capazes de desequilibrar partidas até aqueles que apenas querem viver o esporte, independente se estão levantando uma taça ou apenas entrando em campo para levar água ou o tee a seus companheiros. Talvez, estivesse na hora de vermos clubes pelo Brasil se fundindo e não rachando.

 

A crítica aos argentinos, obviamente, é a ausência na maioria dos clubes de rugby feminino, com as garotas sempre incentivadas a jogares hóquei, e não rugby. Uma pena, mas certamente nós brasileiros poderíamos (e deveríamos) seguir o caminho diferente nesse aspecto. E quando falamos em união falamos também na união entre times masculinos e femininos de um mesmo clube, pois se cada modalidade se desenvolver sem conexão com a outra quem perde é o rugby.

 

Ver bons exemplos, incorporar o que é possível, melhorar o que pode ser melhorado. Inspirar-se, acima de tudo. Pois falar é fácil, o difícil é fazer virar realidade. E se é realidade lá, pode um dia ser aqui. É isso que o rugby argentino pode fazer por nós. Inspirar.