Rugby no Rio 2016: pura alegria e frustração

Com o fim das temporadas das duas Séries Mundiais de Sevens e a definição dos primeiros classificados aos Jogos Olímpicos, pouco depois do fechamento da primeira fase de compra de ingressos para o torneio olímpico, é justamente o Rio 2016 o nosso assunto da vez.

 

Megaeventos, como a Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos, são muito mais complexos do que suas propagandas sugerem. Receber um evento dessa magnitude está bem longe de significar necessariamente o desenvolvimento de um esporte de forma concreta e contínua após o próprio megaevento, ou o acesso do público geral a seus ídolos ou a novas modalidades esportivas para além do que ocorreria se o evento fosse realizado em outro país. Tampouco um legado para o futuro do esporte em uma cidade ou país é assegurado, e certamente o Rio 2017 – assim como o Pan de 2007 – sugere.

 

Não vou entrar em detalhes sobre os efeitos positivos do Brasil receber os Jogos Olímpicos, afinal, no que toca ao rugby ou a vários outros esportes (mas, não diria a todos) a Olimpíada no país significou, antes mesmo dela acontecer, muitas conquistas e ganhos que não ocorreriam sem ela, dado o investimento público ou maior interesse de empresas privadas, visibilidade interna ou externa de nossas seleções e atletas, e estruturação organizacional – ao menos da parte do rugby – que foi, de uma forma ou de outra, estimulada por conta do Rio 2016 estar no horizonte. Se não houvesse Jogos Olímpicos aqui, o rugby teria crescido, sim, mas possivelmente não na mesma medida.

 

Porém, há duas tendências que devem ser vistas de forma crítica (e não de modo complacente ou fatalista). A primeira é o tão falado legado, que justificou os gastos públicos na ordem de bilhões com o evento. No Rio 2016, o rugby será jogado em Deodoro, em um estádio descartável em uma cidade sem espaços substanciais para a prática do rugby (com a exceção do humilde, mas essencial, campo do Rio Rugby na UFRJ) e repleto de pequenos estádios de futebol, ligados fortemente às comunidades suburbanas, mas vários em estado de putrefação. Se o Rio 2016 servisse para trazer grandes benefícios à comunidade e dar nova cara aos bairros cariocas qual seria o papel de um estádio desmontável – construído com gastos de oito dígitos – para ser usado por duas semanas com uma capacidade modesta de 20 mil lugares?

 

Não sou engenheiro ou economista para calcular se houve economia de recursos em se fazer um estádio descartável ao invés de se reformar um estádio já existente, nem sou especialista na política olímpica ou mesmo conhecedor do quadro político dos clubes de futebol cariocas, como Madureira, Bonsucesso, Olaria, São Cristóvão, Portuguesa ou Bangu para avaliar os empecilhos de se pleitear reformar seus estádios com parcerias público-privadas (como se pleiteou originalmente do rugby acontecer em São Januário, estádio do Vasco da Gama). Dinheiro público em um equipamento privado se justificaria caso fosse tecidas parcerias que viabilizassem o uso do estádio pela comunidade por um longo período, e há exemplos no mundo de práticas semelhantes, inclusive no rugby (como é o caso do estádio do Saracens, construído para uso privado em um local público, que abre à comunidade em determinados períodos). No caso carioca, a contrapartida pela reforma poderia ter sido justamente a realização de projetos sociais ligados ao rugby no local, além da realização de jogos de rugby de forma vantajosa para seleção brasileira e clubes locais.

 

No estado do Rio ainda haveria outra opção, talvez ainda melhor, mas fora do munícipio: Niterói e seu estádio municipal de Caio Martins, descartado, entre outras razões, por não estar dentro dos limites da cidade do Rio de Janeiro, mas que certamente poderia ter sido uma opção melhor que Deodoro.

 

A outra questão a se pensar é o preço dos ingressos, que se conecta com a ideia principal da questão anterior. Todo mundo sabia que os ingressos seriam vendidos a preços altos e seria muita ingenuidade acreditar o contrário, como em qualquer megaevento “gourmetizado”, como a Copa do Mundo de Futebol. Não há diferença. O modelo é o mesmo. Trabalho voluntário dos apaixonados, gastos públicos exorbitantes e lucros ainda maiores às entidades donas. São eventos que servem também para as pessoas gastarem muito, tirarem fotos nos jogos para postarem no Facebook (para dizerem “eu estive lá”), mesmo não sendo torcedoras assíduas do esporte. A questão é se o torcedor de Facebook, que ocupou o lugar do amante sem dinheiro daquele esporte, passará a frequentar jogos após o megaevento e virar um público participativo e assíduo da modalidade, que contribua de alguma forma com o esporte, ou se toda a contribuição dele para o esporte olímpico foi ter adicionado uns trocos a mais no bolso da organização.

 

O modelo do rugby sevens escolhido para o Rio 2016 não é um acaso, pois foi garantido que um esporte, normalmente jogado ao longo de dois ou três dias, tivesse seis dias de exibição. Bom para o rugby? Sim, é mais exposição. Mas melhor ainda para quem vende ingressos, é evidente. Você que está reclamando que é muito caro pagar para ver todos os dias do rugby, saiba que era esperável.

 

Na organização do Rio 2016, não está em jogo sua paixão pelo rugby ou o legado do rugby na cidade. Apenas o que dará mais lucro, e ponto final. Infelizmente, como a CBRu – e nenhuma outra federação brasileira de esporte olímpico – tem participação real nas decisões, vamos terminar o ciclo de 2016 agradecendo pela oportunidade e pelos incentivos governamentais ao longo dos últimos anos, mas com um sentimento enorme de que poderia ter sido bem melhor. A velha sopa da alegria com frustração.

 

 Foto: Estádio Caio Martins, Templos do Futebol

 

 

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