Proibição do contato físico no rugby juvenil? Debate agora sobre o tema com Flávio Santos

 

Após conversar com alguns treinadores e professores do Reino Unido que trabalham e atuam nos Emirados Árabes Unidos, percebi que cada um tem uma opinião diferente e vou tentar passar aqui um pouco da visão deles de forma resumida.

 

Após a Inglaterra ter vencido o mundial de 2003, houve uma grande procura pelo Rugby no país e essa busca causou uma preocupação muito grande por parte da RFU quanto à qualidade referente ao coaching que era oferecido. Antigamente, jogar rugby infantil na Inglaterra poderia ser considerado um dos esportes mais tediosos para se praticar já que o esporte era ensinado seguindo um método tradicional que visa ensinar o jogo a partir das habilidades e em seguida o jogo. Os treinos super estruturados desde cedo, sem permitir que as crianças se expressassem, fazia com que cada vez mais o jogo das crianças se parecesse com o jogo dos adultos e todos sabem que a Inglaterra carrega uma cultura de contato em seu jogo e isso também se refletia no jogo das crianças.

 

Tendo isso em conta e devido a preocupação sobre a qualidade do coaching que era praticado nas categorias inferiores a RFU achou por bem adotar um programa de desenvolvimento limitando o contato para os iniciantes dos 6 aos 9 anos visando gerenciar os riscos envolvidos com o contato se adotou pelo TAG Rugby nesta faixa etária, porém, a transição para o jogo com contato feita a partir dos 10 anos vem se mostrando um tanto complexa já que as ações desenvolvidas a partir do jogo sem contato (TAG Rugby) são muitas vezes (na maioria) diferentes das que se pretende atingir com o jogo utilizando o contato.

 

Por exemplo, no TAG se estimula o portador da bola a carregar a bola até perder o TAG (fita). No caso do jogo com contato, isso seria o mesmo que ensinar até receber o tackle. Muitas vezes queremos que o jogador que porta a bola fixe o marcador e passe antes do contato. Outra situação do TAG é quando se ensina o defensor a usar a mão para parar o atacante para buscar o TAG (fita). Na transição para o contato físico, isso não é benéfico, já que para frear o atacante é necessário dar o tackle com os ombros e pernas, sendo que em muitos casos ao utilizar as mãos o defensor acaba por cometer um “sling tackle” conhecido tb como “camisetear” ou seja, o defensor agarra na camiseta do portador e utilizando a velocidade do próprio portador o arremessa sem que o portador tenha tempo de controlar sua queda no chão, sendo este um tipo MUITO perigoso de ação para as faixas etárias mais novas que estão recém desenvolvendo técnicas de contato e ainda não controlam o corpo. Estes são apenas alguns exemplos do que podemos encontrar na transição do jogo sem contato para o jogo com contato já que as demais questões como correr com a bola ou em apoio, passar e receber a bola são exatamente iguais. Outro ponto é a questão das regras que podem ser diferentes de acordo com o que se pretende estimular uma vez que o portador perde o TAG (fita) ou mesmo se o local de pratica é aberto ou fechado, se pode utilizar os pés ou não, qual a regra pra defesa após o portador ter perdido o TAG (fita), e nesse sentido os treinadores, clubes e organizações devem buscar um crescimento orgânico visando o desenvolvimento das habilidades dos jogadores, afinal, não existe um certo e um errado mas sim o tempo e o processo de aprendizagem dos jovens jogadores assim como dos treinadores, pais, e todos os envolvidos.

 

O jogo sem contato se mostrou como uma excelente ferramenta de desenvolvimento sobretudo em locais onde a pratica com contato fica limitada pela falta de campos adequados assim como pela falta de cultura do jogo que pode muitas vezes afastar possíveis iniciantes. Muitos países desenvolveram seus processos de formação ou Desenvolvimento do Jogador a Longo Prazo (PATHWAY – Long Term Player Development) utilizando o jogo sem contato (TAG Rugby) como primeiro contato do Rugby para os iniciantes e conseguiram aumentar o numero de seus praticantes o que mostrou ser uma ferramenta eficaz para promover o jogo.

 

A questão do gerenciamento dos riscos está cada vez mais presente no mundo do Rugby e já há algum tempo a World Rugby vem investindo na aréa médica ajudando a todos os envolvidos a entenderem a necessidade de um cuidado imediato adequado para os praticantes que em muitas vezes não contam com equipes de resgate treinadas em seus locais de treino. Já vimos muita melhora na questão da segurança em torno das competições e as melhores praticas podem ser vistas quando um jogo é cancelado por falta de médico e ou socorrista e ambulância mas isso é somente uma pequena parte já que na maioria dos treinamentos não se conta com a mesma estrutura dos jogos e campeonatos ficando a cargo dos treinadores, managers, capitães e demais voluntários a saber lidar com estas questões quando um acidente acontece, independente do grau de perigo que possa gerar para o jogador.

 

Ao transferir esse cenário para as practicas das crianças temos sempre que lembrar que o Rugby é uma excelente ferramenta de desenvolvimento mas os pais e mães preferem que seus filhos pratiquem algo além de divertido, SEGURO e que todas as possibilidades estejam previamente cobertas com um planejamento que envolve o gerenciamento de riscos antes de que se aconteça algum acidente.

 

É sempre bom lembrar que todo investimento na area de pesquisa sobre o bem estar do jogador sempre será pequeno se compararmos os custos envolvidos depois que um acidente grave ocorre, sobretudo para a família, clube e amigos mais proximos do jogador em questão. Portanto, não se deve economizar nessa area e sim entender a prioridade do investimento que pode ser feita atraves de pesquisas junto aos clubes para diagnosticar o atual cenário e desta forma se criar ações de curto, médio e longo prazo que possam cada vez mais diminuir os riscos envolvidos no nosso esporte.

 

O Rugby deixou de ser um esporte de contato e hoje é um esporte de colisão e os impactos que vemos nos jogos internacionais estão se transferindo cada vez mais para o jogo dos jovens já que a tendencia é se copiar o que se vê na TV mas o que muitas vezes não exergamos é que esses jogadores se preparam muito para enfrentar o embate do jogo que demanada cada vez mais da parte fisica dos jogadores e mesmo com toda a preparação e cuidado ao redor dos riscos sempre vemos um ou outro incidente que hoje podemos dizer que recebe um atendimento adequado.

 

Mas voltando ao tema, me parece que a medida de se banir o contato do Rugby no contexto escolar é a mais rápida para se controlar e minimizar os riscos envolvidos e podemos dizer que também é a mais fácil e barata já que para se controlar e gerenciar os riscos muitos profissionais e voluntários precisam se comprometer em aperfeiçoar seus conhecimentos para poder oferecer um ambiente cada vez mais seguro para quem pratica o Rugby em idade escolar sendo que os riscos podem ser minimizados em todos os aspectos desde as técnicas bem executadas até a mala de primeiros socorros assim como um profissional ou voluntário que saiba como utiliza-la, também é necessário ter uma sequencia logica de ações que permitam tomar a melhor decisão quando se depararem com um acidente, porém, tudo isso leva tempo e certamente consome uma certa quantia financeira para prover treinamento a todos os envolvidos e tendo isso em conta, precisamos saber quem está disposto a gastar ou melhor em INVESTIR para que o futuro do jogo seja tão brilhante quanto o presente levando em conta os jovens jogadores de hoje.

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