Touch Rugby: um celeiro de habilidades

Hoje o Portal do Rugby traz um texto especial que pode e muito ajudar a pensarmos rumos alternativos de desenvolvimento da bola oval no país. Susi Baxter-Seitz, iniciadora do projeto Brasil Touch Rugby (clique para saber mais) e treinadora no Curitiba Touch, discorreu sobre a modalidade do Touch Rugby, seu crescimento e seus benefícios no desenvolvimento do rugby. Confira já!

 

 

Vou logo dizendo que, apesar de amar o esporte, eu nunca joguei rugby. Sou do tipo que se quebra sozinha, super delicada, daquelas que tem um carimbo enorme escrito frágil na testa. O meu esporte é o touch rugby, ou touch footie, como é conhecido na Austrália. Comecei a jogar por acaso, entrei em campo porque quis ajudar o time de Munique a suprir o numero mínimo de meninas para um torneio misto em Berlim, e nunca mais saí de campo, isso foi em 2009.

 

Em 2010 participei do campeonato europeu em Bristol jogando com o time feminino alemão e, em 2011 fui a Edimburgo jogar a Copa do Mundo de Touch. Foi lá que assisti, de camarote (na verdade em pé, grudada na lateral do campo), as jogadoras da Austrália e da Nova Zelândia darem show de como jogar touch. Dentre elas, cinco que estavam em campo na final do rugby 7s nas Olimpíadas: Emilee Cherry, Nicole Beck, Alicia Quirk (australianas), Niall Williams e Tyla Nathan-Wong (kiwis). Neste mesmo ano Charlotte Caslick começava a despontar na seleção juvenil da Austrália (menores de 18 anos) no TransTasman, competição anual de touch entre Austrália e Nova Zelândia e que, em 2016, teve a primeira participação de times japoneses durante a fase de preparação.

 

O touch nasceu durante os treinos de rugby league, como forma de aquecimento para os jogadores. Aos poucos foi se desenvolvendo a ponto de se destacar como uma modalidade própria e começar a contar com a sua própria federação. O fato de não ter o contato físico do rugby faz com que ele seja um esporte social, que pode ser praticado por pessoas de várias idades, homens, mulheres e misto, durante o intervalo nas escolas. Pode até ser um happy-hour no parque após o trabalho, como a nossa “pelada”, mas com a bola oval. Skills básicos do rugby como o passe acabam se desenvolvendo de forma natural, crianças aprendem desde cedo como manusear a tal da bola oval, e ter segurança nos passes curtos e longos.

 

O touch, quando jogado corretamente, de acordo com as regras do FIT (Federation of International Touch), exige que o jogador tenha muita visão de jogo, tanto aquele que está com a bola nas mãos quanto os outros 5 que estão em campo. A ausência da opção do contato faz com que os jogadores tenham que criar, e enxergar, espaços na defesa, buscar um overlap para então jogar um 3 contra 2, 2 contra 1, ou aqueles passes longos (que digamos de passagem, maravilhosos) para o jogador que está na ponta, geralmente livre de marcação. Tudo isso além de trabalhar o condicionamento físico, já que num jogo de touch você corre de costas por quase 40 minutos.

 

A revista Rugby World fez uma análise detalhada e bem bacana de algumas das jogadas das australianas durante as Olimpíadas em seu blog. Ela analisa algumas das decisões das jogadoras, a leitura da defesa, a criação dos espaços, as linhas de corridas e a maneira como as jogadoras, principalmente Caslick, armaram as jogadas. E a análise é concluída com ênfase no fato das jogadoras terem jogado touch, e que esta base foi determinante para o sucesso delas.

 

No ano passado, durante as semifinais da Copa Mundo de Rugby, algumas personalidades do rugby (como os ex-jogadores Shane Williams e Jonathan Davies, além da Sky News) relacionaram o touch como um dos fatores do por quê das seleções do hemisfério sul (Austrália e Nova Zelândia) serem tecnicamente “superiores” às do hemisfério norte. Não porque os seus jogadores ainda jogam um “touchzinho” de vez em quando no parque, mas porque os jogadores crescem jogando touch, é a tal da formação da base. Da equipe feminina campeã olímpica de sevens da Austrália, oito jogadoras representaram a Austrália em campeonatos de touch, tanto na categoria juvenil quanto na adulta.

 

E tem certas federações no hemisfério norte que estão começando a abraçar a causa. A RFU (Rugby Football Union, da Inglaterra) começou a promover o touch com o O2 Touch. A Federação Irlandesa de Rugby criou uma parceria com a Associação Irlandesa de Touch e também está promovendo o touch, torneios e os pólos de treino em toda a Irlanda. Já a Touch Football Australia tem parceria com a NRL, o Rugby League, e não com o Rugby Union. É a tal da política no esporte.

 

A divulgação do touch no Brasil é complicada. 1: porque muita gente ainda não conhece o rugby e acha que é futebol americano, 2: porque os que já ouviram falar do rugby acham que o touch “também é violento”, 3: porque os que jogam rugby não querem jogar touch porque não tem o contato, o tal do “é só touch” e 4: porque cansa muito. Apesar disso já faz um ano que temos treinos de touch semanalmente no campo do Curitiba Rugby. O grupo é bem variado, com alguns jogadores de rugby, iniciantes, homens, mulheres, crianças a partir de 9 anos e adultos de até mais de 50 anos, todos jogando juntos. A maioria dos treinos reúne entre 8 e 14 pessoas, dependendo da chuva, mas já chegamos a ter 34 pessoas num treino. E continuamos crescendo.

 

Atualmente, na América do Sul, o touch é praticado no Chile, na Argentina e no Equador, além do Brasil. O Chile merece destaque por ter uma excelente liga de touch em Santiago e ter sido o primeiro país sul-americano a participar, muito bem por sinal, de uma Copa do Mundo de Touch, no ano passado na Austrália. Santiago, Córdoba e Mendoza são sedes do Torneio Transandino que normalmente acontecem em março, agosto e novembro, respectivamente. A primeira participação de brasileiros foi em 2015 em Córdoba como jogadores e árbitros, jogando num dos times chilenos. O objetivo é ter a primeira participação de um time brasileiro em alguma edição do torneio Transandino em 2017 e, quem sabe, na Copa do Mundo da Malásia em 2019.

 

Escrito por: Susi Baxter-Seitz

Foto: Touch Football Australia – Murray – Energy Photos

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