Asa Branca e Maranhão duelando em 2016. Foto: Aline Nascimento

ARTIGO OPINATIVO – O ano de 2018 foi o pior ano registrado nesta década em termos de campeonatos de rugby XV masculino no Brasil fora do Sul-Sudeste. O rugby brasileiro para além das federações filiadas à CBRu está minguando – ou ao menos em termos de competições masculinas, já que pelo menos Melina e Delta estão na elite feminina nacional.

Clubes que antes conseguiam reunir forças para jogarem XV ao longo do ano deixarem de ter a capacidade de angariar fundos e/ou plantel para isso. Vamos ilustrar?

Em 2017, como levantamos ao final do ano, um total de 49 partidas válidas por competições no Norte, Nordeste e Centro-Oeste foram realizadas, envolvendo 23 clubes, de 13 estados diferentes. Isso tudo representou mais de 10% de todos os jogos de XV válidos por competições realizadas no Brasil todo, envolvendo quase 20% (mais de 19%) dos clubes ativos em XV masculino no país.

  • Em 2017, o Centro-Oeste tivera 17 partidas de XV realizadas por 3 competições interligadas: a Taça Pantanal, a Taça Cerrado e a final regional da Copa Brasil Central (Pequi Nations), em um total de 9 clubes participantes, de 5 estados diferentes (MT, MS, GO, DF e TO).
    • Isso incluiu jogos realizados no Estádio Nacional de Brasília, com exibição em TV local.
  • Em 2018, a Taça Cerrado morreu, com clube de Goiás e Distrito Federal tendo apenas participado de um torneio de tens, seguido agora recentemente de um amistoso, nas nada de campeonato;
  • A Taça Pantanal foi reduzida em 2018 a 2 clubes, Cuiabá e Primavera (ambos do Mato Grosso), que realizaram 2 partidas. No Mato Grosso do Sul o XV acabou;
  • O Norte contou em 2017 com 3 clubes participantes da liga regional, reduzida a 2 clubes em 2018;
  • Por sua vez, o Nordeste já estava dividido em 2017 entre o Campeonato Baiano (com a Bahia buscando um caminho próprio) e o Nordeste Super XV (organizado pela Federação do Nordeste).
    • O Campeonato Baiano contou com 4 clubes;
    • O Nordeste Super XV contou com 7 clubes;
  • Em 2018, o Baiano seguiu com 4 clubes (com o Itabuna deixando o torneio, mas com o Sergipe ingressando);
  • O Nordeste Super XV, por sua vez, morreu, acabando com jogos de XV no restante da região. Para seu lugar, clubes de Ceará, Rio Grande do Norte e Paraíba vem organizando em 2018 jogos de tens pela Liga Independente, mas o XV não está mais presente;
    • Piauí e Ceará, que tiveram seus estaduais de XV como parte das competições nordestinas, já não têm mais;

É importante ressaltar que todas essas competições têm história – não foram caprichos de um ou outro ano:

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  • A Copa Centro-Oeste (o simpático Pequi Nations) nasceu em 2009 e teve 9 edições até acabar em 2018;
  • A Liga Norte nasceu em 2012 (sendo antecedida pelo Campeonato Amazonense, de pé desde 2004) e chegou neste ano à sua 7ª edição;
  • Antes de ser extinto, o Campeonato Nordestino (que teve formatos e nomes distintos ao longo de sua existência) nasceu em 2006 e teve nada menos que 14 edições até 2017 (com 2 torneios paralelos em 2015);

Com isso, fica evidente que o rugby XV minguou fora das áreas reconhecidas pela CBRu. Dos 5 campeonatos existentes em 2017, apenas 1 (o Campeonato Baiano) sobreviveu com mais de 2 times.

Tal perda não foi substituída por um boom no desenvolvimento regional por meio do sevens em nenhuma dessas regiões – com a exceção da criação positiva da já mencionada Liga Independente no Nordeste – e, tampouco, do juvenil. O sevens não ganhou o lugar do XV no Centro-Oeste. E mesmo no Nordeste, a Liga Independente nasceu, mas outros desenvolvimento importantes que estavam acontecendo nos últimos anos – como o Cearense de Sevens e Circuito Interestadual Maranhão-Piauí-Pará – morreram ou decresceram. No Mato Grosso do Sul, o XV não foi substituído pelo sevens: o MS 7s também morreu com circuito estadual.

E quando falamos em juvenil, talvez a região mais animadora seja Manaus, com o projeto Ajuri do GRUA – que não precisou abandonar a Liga Norte de Rugby XV para seguir trabalhando no desenvolvimento.

Ou seja, se muitos de nós (pessoas preocupadas com o desenvolvimento) apontamos que pensar num calendário de XV muitas vezes pode ser um “passo maior que a perna” para a maioria dos times, o fato é que o declínio do XV não teve como contrapartida um crescimento no sevens ou no tens, nem substituído por foco no juvenil. O que vemos é um cenário agonizante.

 

Falta união para os clubes e liderança para a CBRu

Os dados nos levam a algumas ponderações e questionamentos importantes:

  • O que diferencia o cenário do início da década com o atual?
  • Por que tantos clubes proliferavam nessas regiões ambicionando e se sacrificando por montarem e levarem adiante competições que demandavam tantos recursos? E por que o fôlego foi perdido?
  • A resposta pode passar por crise econômica no país, é claro, mas seria ingênuo acreditar que é apenas isso;
  • O “passo era maior que a perna”, com muita ambição, mas pouco planejamento de longo prazo e estruturação dos clubes pensando num futuro sustentável;
  • O foco em organizações (ligas e federações) que englobavam grandes áreas e demandavam viagens custosas acabou cobrando seu preço;
  • Por um lado, as competições regionais eram a única saída para os times jogarem. Por outro lado, monopolizou suas atenções, que não foram divididas com esforços assertivos na criação de competições estaduais duradouras e bem organizadas – de sevens e tens num primeiro momento, para XV num estágio seguinte;
  • Reclama-se muito da falta de filiação à CBRu, mas pouco foi feito para se unir os clubes na criação de federações estaduais duradouras e compromissadas (mesmo que não reconhecidas pela CBRu);
  • A situação bizarra de clubes desunidos, que não confiam uns nos outros na organização de federações e campeonatos, é frequentemente relatada, mostrando a falta de avanço de uma “cultura de rugby”;
  • Se antes havia ambição de que estar ativo e jogando significaria a médio prazo ser visto no cenário nacional, hoje o cansaço bateu e o fôlego acabou, sem uma liderança ativa;
  • No sevens feminino o Brasil fora do Sul-Sudeste é bem vindo nas competições da CBRu (Super Sevens), pois o rugby feminino não pode abrir mão a nível nacional de boas equipes, como Melina ou Delta;
  • No rugby masculino, já saturado a nível nacional, a resposta é que tais regiões não têm espaço por não serem bem organizadas (evocando-se o estatuto de filiação à CBRu);
  • O estatuto foi criado em um momento que nem todas as federações já filiadas reuniam todos os critérios por ele estabelecidos;
  • E uma filiação intermediária, provisória/transitória, para os estados que têm rugby ativo mas não cumprem com o estatuto, jamais foi pensada, perpetuando um cenário pouco estimulante (e duvidoso, já que o exemplo de um estado bem sucedido em conquistar a filiação ainda não foi visto);A rejeição da CBRu de liderar o processo de criação de um espaço para as demais regiões criou um estado de limbo.

 

E vamos pensar em caminhos…

  • Quando falo em liderança da parte da CBRu, é criar um caminho mais claro e menos contraditório para o Norte/Nordeste/Centro-Oeste.
    • Menos contraditório porque aceitar tais estados em alguns circunstâncias e não aceitá-los em outros parece a máxima do “jeitinho”;
    • Se temos equipes de fora do Sul-Sudeste participando de competições de sevens da CBRu (feminino, sobretudo, mas masculino também), algum tipo de filiação tais regiões precisam ter – e deixar claro que filiação é essa;
    • Portanto, se os clubes de fora do Sul-Sudeste são bem vindos no sevens, qual a situação de suas regiões dentro da organização do rugby brasileiro? E onde estaria escrito, registrado e reconhecido qual é essa situação?
    • Além disso, se o discurso que se faz é em prol do desenvolvimento, por que exigir que para um estado se filiar ele deva ter um campeonato de rugby XV? Ter um bom e bem organizado circuito de sevens (ou de tens) não deveria bastar? Afinal, sevens e tens são tão rugby quanto XV! Mais que isso, permite aos clubes se voltarem a metas mais realistas e a gastos e investimentos mais realistas. Exigir que um estado tenha campeonato de XV mas cobrar dele ações de desenvolvimento me parece algo contraditório;
    • Em outras palavras, se há rugby organizado – e um circuito de sevens bem feito já é rugby organizado – tem que haver reconhecimento da CBRu. E isso seria um tipo de liderança positiva para fazer com as que ações prioritárias dos clubes de fora do Sul-Sudeste sejam realistas e em prol do desenvolvimento e da criação de uma federação;

 

É preciso que se tenha um plano: onde o resto do Brasil se encaixa dentro da Confederação Brasileira e do rugby brasileiro para, aí sim, haver um horizonte claro, que norteie os trabalhos – e sirva de parâmetro de cobrança também. Mas com coerência, sem pedir nada a mais que todo o Sul-Sudeste já não tenha.

Porque, após quase uma década da CBRu, em 2018 o que foi construído fora do Sul-Sudeste de forma independente (com algum apoio da CBRu, é fato, por meio de cursos e do sevens, mas sobretudo de forma autônoma) está sendo perdido ao longo deste ano. E a paixão que existia parece murchar. O desfecho era previsível, infelizmente.

6 COMENTÁRIOS

  1. Plenamente de acordo com a ideia que tanto os sevens como os Ten são rugby de pleno direito. Como se pode entender que uma modalidade olímpica não seja considerada em pé de igualdade com as outras variantes – o XV nem sempre foi XV, e não perdeu status por causa disso…
    Apenas uma achega: Não concordo com meis-filiação. As Federações que cumprem as exigências legais – estatutos, diretoria, cumprimento de obrigações… – e que demonstrem ter actividade devem poder ser filiadas na CBRu. Simples assim.
    Apenas ao nível do seu peso nas decisões da CBRu poderá/deverá haver um peso diferente para o nível de actividade demonstrado.
    Tem Sevens? vale um voto. Tem XV? vale mais um voto. Tem rugby escolar? vale mais um voto. tem x árbitros nível y? tem mais um voto.
    Tem mais actividade, mais times, mais competições, mais árbitros, etc? tem mais votos…
    O que não pode é ser impedida de fazer parte da FAMÍLIA DO RUGBY!!! E para isso não pode deixar de ter peso nas decisões centrais. Mesmo que esse peso seja muito pequeno!!! Mas o facto de FAZER PARTE DA FAMÍLIA permite que dê a sua opinião e que SEJA OUVIDA!
    E a questão não fica no laço entre a CBRu e as Federações. Se uma Federação pretende obter apoio estadual, a primeira coisa que lhe é perguntado é se tem a Utilidade Pública e a filiação ao orgão nacional (no caso CBRu). E quem não tem, dificilmente consegue apoios.
    Então temos uma pescadinha de rabo na boca: Não tem dimensão – para o que precisa de apoios – não tem filiação. Não tem filiação, não tem apoios – então não tem dimensão!!!
    Na Bahia atravessamos todo esse deserto!
    Tantávamos contatar uma entidade oficial, éramos ignorados.
    Depois de termos a Utilidade Pública, passámos a ser ouvidos.
    Estamos em processo – que esperamos seja final – de filiação, e começamos a ter algumas respostas a nossas solicitações.
    Com a filiação, com certeza que seremos ouvidos, respeitados e ajudados!
    (Reparem que falo de apoios municipais, estaduais e de grandes empresas e não de apoios da CBRu. Isso é outra história)

    • Essas ponderações do Manuel Cabral (outro catedrático) são muito interessantes! A CBRu precisa deixar de ser a Confederação do Rugby do Sudeste-Sul, para se tornar uma confederação nacional efetivamente. Ou, pelo menos, que ela seja foro de articulação das federações estaduais do país. Como eu dizia em outro comentário, muito (já foi e) pode ser feito simplesmente quando os representantes de times e de federações se encontram. Um dos melhores debates este proposto aqui!

  2. De que adiantaria o estado do Ceará, Piauí ou Pernambuco, no qual já tiveram federações, voltarem a desenvolver uma federação estadual se jamais seriam (como nunca foram) reconhecidos pela CBRu ? A Bahia está mais próxima de criar uma federação reconhecida pela CBRu e mesmo assim, esse processo já demorou e demora anos pra acontecer.

    Me pergunto o que a Bahia fará para “se manter” entre as federações reconhecidas após esse processo, por quê a dificuldade que o estado está tendo para atender todos os requisitos da CBRu não é brincadeira.

    Sabe-se que um dos requisitos para existir federação, deve haver um numero X de clubes, e esses clubes devem pelo menos ter categorias de base e desenvolver alguma atividade social e tudo mais.

    Em contra partida, os clubes menores que pertencem a federações reconhecidas (EX: MG, RS), não desenvolvem nenhum tipo de projeto na base ou têm ao menos um CNPJ e ago parecido e, por conseguinte, não atendem aos requisitos da CBRu, mas podem usufruir de benefícios (É da saber que a CBRu custeia viagens)

    METADE dos times das federações reconhecidas não fazem nada que é exigido e mesmo assim são beneficiados enquanto aqui no Nordeste, no Norte e no Centro-Oeste se vive um estado de ABANDONO TOTAL !