Outubro chegou e quem ainda não está começando a planejar 2018 já deveria começar a pensar nisso. Regulamentos, calendários, modelos de competições viáveis. São preocupações que todo ano estão na pauta dos campeonatos estaduais, que inauguram o ano de competições do rugby. As federações estaduais no Brasil têm propostas que variam bastante entre si e cada uma ao longo dos últimos tempos teve méritos ao encontrar modelos para lidar com suas carências.

Neste artigo opinativo da coluna TMO vou trazer alguns acertos que tivemos Brasil afora para que as experiência de um estado possam ajudar outros estados a se pensarem. Aqui, é importante entender que a operação dos campeonatos citados não está em questão (erros humanos e problemas de desorganização acontecem sempre, são normais no mundo do esporte amador). O que vale agora é olhar os modelos adotados. Vamos lá?

 

Suspensão ou multa: punições suicidas

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Antes de começar com os acertos, gostaria de levantar algumas práticas que precisam ser repensadas. A primeira delas são as suspensões e punições adotadas contra clubes.

Sejamos realistas: vivemos um esporte amador, no qual, acima de tudo, quem está envolvido faz rugby por amor. Não considero viável ou justo utilizar como punição a clubes os recursos de suspendê-los de competições ou de multá-los. As duas medidas, dentro de um universo tão precário, servem apenas para ajudar a matar iniciativas de rugby. O clube que é suspenso tem grande chance de passar por uma grave desmobilização, além de perder eventuais apoios locais que tenha. A multa só serve para desmotivar ainda mais quem já tira bastante dinheiro do bolso para fazer acontecer o esporte.

Qual a punição justa? Para mim, a melhor punição, mais educativa e não suicida, é retirar pontos da tabela de classificação de uma equipe infratora nos campeonatos dos quais participa, o que pode levar a rebaixamentos inclusive.

O único caso que precisa ser tratado com uma punição diferente é o WO, pois ele causa danos ao outro clube que deveria estar envolvido na partida. No caso do rugby XV, o rebaixamento à divisão inferior para o clube que comete WO é justa. E, no caso do estado não ter uma divisão inferior, a suspensão por um ano das competições de XV se justifica se o estado tiver competições ativas e anuais de tens ou sevens, para que o clube suspenso do XV siga ativo – e possa se repensar, porque quem dá WO é porque está dando um passo maior que a perna ao entrar no campeonato. Não adianta punir um clube no XV e não oferecer alternativa para o ano seguinte.

 

Qual é o preço certo?

Um sério problema que vemos os clubes debatendo é o custo de se jogar campeonatos oficiais. Mais precisamente os valores das inscrições. De certa forma, o valor de inscrição previne que uma equipe desestruturada, que não tenha solidez para se comprometer com um torneio inteiro, entre nas competições arriscando WOs, mudanças de datas, locais de jogo inadequados e outras inconveniências para o campeonato. Porém, valores altos de inscrições também inibem clubes de darem seus primeiros passos. E não apenas no que diz respeito à participação em uma campeonato, que já tem ainda custos com viagens, ambulâncias e afins. Gasto elevado em uma categoria significa falta de dinheiro para outras ações (montagem de categorias de base, manutenção e busca por um campo, marketing e comunicação).

Na hora de se discutir calendários estaduais, é preciso analisar duas coisas:

  • Os clubes que concordam em pagar os valores propostos sabem para onde vai o dinheiro e como será usado? É importante demais lembrar que as federações têm custos para existirem e quanto mais profissional for uma federação mais ela poderá atuar no desenvolvimento, que pode soar vago, mas significa zelar pela qualidade de seus torneios, da arbitragem, dos campos, das capacitações, de eventuais selecionados estaduais, além, é claro, do fato de toda federação precisar formar um caixa para suportar eventuais crises. Esse tópico, na verdade, diz respeito à transparência das próprias federações, que deve ser cobrada pelos clubes;
  • E os clubes que não podem pagar os valores propostos têm alternativas? Valores mais acessíveis (próximos de um preço de custo) devem ser aplicados para a última divisão de um estadual ou para competições paralelas de desenvolvimento voltadas a clubes iniciantes. Nesse caso, as federações precisam se aproximar de ligas regionais independentes, dando apoio à existência delas como formas de iniciação dos clubes menores, sem onerá-los nesse período de “infância”.

O limite entre cobrar organização e elitizar o esporte é bem tênue.

 

Qual o tamanho certo?

Menos é sempre mais. Campeonatos de XV que envolvem muitos clubes estão fadados a terem jogos desnivelados que não ajudam ninguém. O clube forte não tem um desafio e o clube fraco se desmotiva por sofrer derrotas pesadas. Hoje talvez o único estado que possa contar com mais de 6 clubes em uma mesma divisão é São Paulo.

Para os demais, um limite de 6 é recomendável. Duas divisões de 4 equipes são duas competições de 6 rodadas, por exemplo. Qual o problema? Os clubes precisam entender que estar em uma segunda divisão não é demérito nenhum, é um estágio de desenvolvimento.

O mundo está cheio de campeonatos de rugby amadores e profissionais, com um monte de fórmulas diferentes. Quem não acompanha rugby de outros lugares não tem como usar a imaginação de forma produtiva.

Há muitas soluções interessantes para competições além das fórmulas mais óbvias que vemos no Brasil.

 

CNRU precisa ser usado e ter investimentos

O cadastro nacional de rugby é um sistema essencial para nosso esporte. Sua criação foi uma grande conquista da CBRu e todas as federações estaduais deveriam utilizá-lo em todos os seus torneios. É inadmissível que em 2018 tenhamos estados não utilizando o sistema. Se existem falhas no sistema, é preciso que as federações listem os problemas encontrados no uso e levem a demanda de investimento no sistema adiante. Vemos, por exemplo, uma confusão grande nas súmulas. Um clube muitas vezes conta no sistema como se fosse mais de um clube, porque ele disputa competições juvenis, competições com sua equipe B… mas clube tem que ser um só!

Além disso, o CNRU permite que as federações possam gerar dados de suas competições, como é o caso dos hotsites da CBRu para o Super 8, a Taça Tupi e o Super Sevens. Essa possibilidade de divulgação das informações dos jogos precisa estar disponível para todos os estaduais!

 

CBRu deu a dica: regionalização para evitar transtornos

Agora vamos aos méritos de cada federação. E vamos começar com a CBRu, pois o modelo de regionalização é lúcido e precisa ser usado inclusive nos estados. Não vou aqui discutir o Super 16 ou a Taça Tupi, pois falar nos problemas de como um torneio foi conduzido não é assunto agora. É o conceito que importa e ele é ótimo. O rugby de clubes precisa ser sustentável – ele tem que funcionar sem maiores abalos mesmo em um cenário sem verba pública e sem patrocinadores. E o que mais impacta um campeonato é o custo da viagens.

Estados grandes em área precisam considerar a possibilidade de dividirem seus estaduais em grupos regionais, caso tenham número suficiente de clubes para isso. Nesse caso, a necessidade de se encurtar deslocamentos falaria mais alto do que a necessidade de se manter uma primeira divisão com poucos clubes. Um estadual com 2 grupos de 3 ou 4 clubes (isto é, 4 a 6 rodadas), regionalizados, podem ser muito positivos, sobretudo para divisões inferiores e categorias juvenis. Minas Gerais, Paraná e São Paulo, por exemplo, só ganham com isso. Aliás, São Paulo já começou com o Paulista de Desenvolvimento dividido regionalmente.

 

Juvenil regional: um modelo bem vindo

De Minas Gerais e do Rio Grande do Sul vêm modelos excelentes para o rugby juvenil. A Liga do Triângulo Mineiro é um grande acerto dos clubes da região, que estão promovendo jogos entre si, seja no adulto ou no juvenil. Ligas juvenis como essa, que envolvam clubes próximos no sevens, são chave para os clubes começarem a ter um modelo de rugby juvenil para desenvolverem.

Em São Paulo, por exemplo, o desnível técnico dos clubes mais fortes no juvenil com relação aos demais torna o estadual de XV pouco atrativo para um time iniciante no M15, M17 ou M19. Copas e ligas locais flexíveis (estimulando torneios juvenis de sevens e tens ao longo do ano todo, provendo calendários anuais sólidos a quem não tem XV juvenil) podem criar bases sólidas a médio prazo para os estaduais.

Em paralelo, o Rio Grande do Sul lançou seleções regionais juvenis, na máxima da “união faz a força”. Criar selecionados locais nas categorias juvenis fortalece os clubes tecnicamente (pois oferece mais jogos aos garotos) e também no aspecto dos valores do rugby, uma vez que jogar junto de quem ontem foi ou amanhã será seu adversário é uma experiência rica no cultivo da cultura de nosso esporte. Ainda mais quando ocorre no juvenil.

 

Tens nota dez!

Do Paraná e Santa Catarina vêm experiências positivas para a missão de se manter clubes ativos. A Copa Paraná e o Catarinense 2ª divisão foram torneio interessantes que usaram modelos alternativos de rugby para clubes sem XV. Tens ou mesmo um não-ortodoxo “12s” foram explorados, na lógica do “game on”. A Liga Independente do Nordeste, que envolve equipes do Rio Grande do Norte, Paraíba e Pernambuco, também usou o ten-a-side com sucesso.

Portanto, dessas experiências vêm um questionamento importante: por que não usamos mais o ten-a-side? Afinal, é uma modalidade que está nas Leis do Rugby e serve como transição do sevens para o XV, introduzindo o jogo de forwards às equipes que no sevens apenas experimentaram outro modelo de jogo. Ao invés de se jogar XV quando nem 20 atletas estão disponíveis, por que não tens?

 

Rio marca try com seu sevens de desenvolvimento

O Rio de Janeiro acertou em cheio neste ano com a criação de um circuito de sevens de desenvolvimento, voltado para os clubes que não são ainda capazes de atuarem o ano todo no XV. O mérito fluminense está sobretudo no fato do circuito acontecer ao longo de toda a temporada e não apenas no final dela.

Os estados precisam de circuitos de sevens (e/ou tens) de desenvolvimento masculino (e juvenil, como o Rio Grande do Sul mostra no M16) que durem a temporada toda, de março a outubro, voltados para os clubes iniciantes e para equipes “B” dos clubes maiores (que podem usar o sevens para colocarem mais jogadores em atividade, como fez o Guanabara no Fluminense de Desenvolvimento). Isso é essencial para dar atividade a seus membros.

E no fim do ano, como é tradição, todos os clubes jogam o estadual de sevens normalmente.

 

Copa SP é tudo de bom

O mesmo conceito pode ser aplicado ao rugby feminino e São Paulo é exemplo. A Copa SP Feminina é uma ferramenta importante para prover jogos às equipes que ainda não têm condições de jogarem um campeonato como o Super Sevens. Mais que isso, ela funciona como uma porta de entrada para os clubes no cenário estadual das competições femininas.

Seguindo a mesma lógica do masculino, no feminino também é verdade que muitas vezes “menos é mais” porque jogos muito desnivelados pouco colaboram com os clubes. Muitos estados simplesmente não têm clubes o bastante para criarem uma segunda divisão feminina, mas torneios de desenvolvimento focados nas necessidades dos clubes menores são essenciais para o feminino.

 

O intermédia gaúcho versus o desenvolvimento paulista

São Paulo e Rio Grande do Sul têm modelos diferentes de campeonatos para equipes “B”. Os “B”s são parte essencial na construção de uma cultura de rugby positiva de fortalecimento dos clubes. É comum vermos atletas saindo de equipes por não terem espaços nelas. Mas qualquer clube que queira ser sólido precisa do maior número possível de pessoas engajados e qualquer cidade, estado ou país que queira um rugby mais forte precisa de clubes com muitos times – e não muitos times e nenhum clube realmente. Menos também é mais. Melhor uma cidade com um clube forte com times A e B do que dois clubes fracos.

No Rio Grande do Sul, a opção pelo campeonato intermédia, um campeonato só para “B”s, contrasta com a opção paulista pelos times B jogando o Paulista de Desenvolvimento, com esses times enfrentando as equipes principais de clubes menores. Os dois modelos têm seus méritos e o mais importante é que outros estados venham a abraçar a introdução de equipes B dos clubes grandes em seus estaduais.

Mas atenção: tem que se regular bem o funcionamento do B, porque o B deve ser o espaço para os jogadores sem espaço no A, para os veteranos que já não aguentam mais a competitividade do A, para os praticantes iniciantes do adulto que começaram tarde no rugby e para os jogadores recém promovidos do juvenil. O B não é lugar para jogador do A jogar quando tem o fim de semana livre. Isso é deturpar a lógica da existência do B e faz mal para o esporte. A regra precisa ser clara: quem joga o A não pode jogar o B ou deve haver uma cota máxima de jogos que um atleta possa fazer entre o A e o B.

 

No Cerrado, “quem não tem cão caça com gato”

Essa frase é do tempo dos nossos avós e se encaixa bem sobre o rugby de Goiás, Distrito Federal e Tocantins. Os três estados não são filiados à CBRu, mas encontraram duas estratégias perfeitas para se desenvolverem. A primeira é a união. Três estados próximos que se juntaram para poderem trabalhar como uma federação estadual. Ponto para eles!

E a outra experiência é o rugby universitário. Como a Federação do Cerrado de Rugby não é ainda filiada à CBRu, o Cerrado abraçou de vez o rugby universitário, aproveitando a boa relação de suas federações universitárias de esportes com a CBDU (a Confederação Brasileira do Desporto Universitário). O rugby goiano inclusive conseguiu representar o Brasil em torneio na Colômbia por isso.

 

Bahia dando o caminho

Por fim, os estados que ainda não são filados à CBRu precisam se inspirar na federação que mais perto está desse feito, a da Bahia. Os clubes não abundam nada por lá, mas eles estão unidos em um compromisso comum. Leram o estatuto da CBRu para saberem o que precisam trabalhar, montaram um site que oferece transparência às ações e se focaram em um campeonato de XV curto e sustentável aliado com sevens e desenvolvimento juvenil baseado em um projeto que enxerga o estado a partir de regiões. Os demais estados precisam se inspirar.

 

Ah, e vamos ler o regulamento antes de aprová-lo!

Não é?

3 COMENTÁRIOS

  1. “…Mas atenção: tem que se regular bem o funcionamento do B, porque o B deve ser o espaço para os jogadores sem espaço no A, para os veteranos que já não aguentam mais a competitividade do A, para os praticantes iniciantes do adulto que começaram tarde no rugby e para os jogadores recém promovidos do juvenil. O B não é lugar para jogador do A jogar quando tem o fim de semana livre. Isso é deturpar a lógica da existência do B e faz mal para o esporte. A regra precisa ser clara: quem joga o A não pode jogar o B ou deve haver uma cota máxima de jogos que um atleta possa fazer entre o A e o B”

    Muito pertinente essa observação do PdR. Pois em campeonatos onde clubes participam visando um possível acesso à uma divisão superior, pode se comprometer a finalidade do campeonato quando clubes “B” levam mistos de atletas que jogam no A com veteranos e jovens. Caso por exemplo do Paulista de Desenvolvimento em que alguns clubes buscam um acesso para disputar série C e podem esbarrar com um time A (que não visa esse acesso) em fases eliminatorias do campeonato. Tem de haver um limite realmente. Longe de ser responsabilidade dos clubes resolver essa questão, mas sim a respectiva federação e o regulamento devem prever esse tipo de problema em campeonatos desse tipo!
    E parabéns pelo artigo de maneira geral. O rugby brasileiro precisa de pessoas preocupadas com o seu crescimento sustentável em todas as regiões do país onde a bola oval luta pra rolar. Boa, Portal do Rugby.

  2. Às vezes tenho a impressão de que o rugby do Brasil repete os mesmos maus passos do futebol: fórmulas de disputa pouco razoáveis, inchaço das competições e a intermediação obrigatória das federações estaduais entres os clubes e a CBRu. No futuro, quando houver mais dinheiro envolvido, isso pode acabar criando a mesma cultura de desorganização e corrupção que existe no nosso futebol.