ARTIGO OPINATIVO – Na última sexta-feira, o Blog Olhar Olímpico do UOL fez uma matéria crítica sobre o fato de somente 6 estados do Sul e Sudeste serem filiados à CBRu.

A explicação sobre a filiação de outros estados à entidade é clara há muito tempo: nenhuma nova federação conseguiu (desde 2010) se adequar ao estatuto da CBRu. A intenção por trás é de forçar as regiões a se organizarem. Mas, esse norte vem se mostrando vago e insuficiente.

É fato que a Federação de Rugby da Bahia está em processo de admissão e pode se tornar a primeira nova admitida, mas isso se dará praticamente uma década após a transformação da ABR em CBRu. O longo tempo sem reconhecimento que os estados de Centro-Oeste, Nordeste e Norte vivem já tem efeitos sensíveis que não são positivos. Há um desestímulo em muitas partes do país – pela falta de liderança.

Negar algum espaço dentro da família do rugby, na minha visão, vai contra os Valores do Rugby. Os pilares do nosso esporte, expressos pelo World Rugby e já reforçados pela CBRu, são: Respeito, Paixão, Solidaridade, Disciplina e Integridade. Hoje, cobram-se Integridade e Disciplina para essas regiões na sua organização, mas o Respeito e a Solidariedade com tais estados são insuficientes, dando a impressão de descaso com a Paixão desses rugbiers. Por mais que tenham havido ações positivas, como a realização de cursos e a inclusão de equipes de fora do Sul/Sudeste no Super Sevens, a situação criada é a de um limbo. É preciso clareza: qual o status real do Norte/Nordeste/Centro-Oeste?

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Caso contrário, a impressão que fica (correta ou injusta, cada um que julgue) é de que quando precisamos rechear nossos números de praticantes e clubes ou reforçar competições que não têm a força desejada, o Norte/Nordeste/Centro-Oeste entram para a família. Mas quase na condição de bastardos, ilegítimos.

O autor da matéria foi enfático em sua análise, opinando que a CBRu “cria uma concentração de poder e de recursos em, literalmente, meia dúzia de federações, em detrimento a entidades que existem espalhadas pelo país e que não têm acesso a torneios e investimentos […] Da mesma forma, sem novos votantes, o estatuto não é alterado para flexibilizar as regras de aceitação de novas federações”.

Se isso não for verdade, fica a pergunta: alguém pegará a bandeira e sugerirá um caminho para que todos de algum modo estejam incluídos? Já passou da hora.

 

Minha solução: NÍVEIS DE FILIAÇÃO!

Estudando o mundo do rugby e o mundo do esporte, para mim o caminho para a solução não é de outro mundo. Não é “assistencialista”, nem “elitista”. É algo já utilizado mundo afora em outras entidades, adaptado à nossa realidade.

É preciso colocar O PAÍS INTEIRO dentro do sistema, sem que ninguém fique à deriva. Um sistema que seja o espelho do desenvolvimento atual de cada região, para que cada uma possa se focar em seus problemas imediatos.

Com isso, para mim os passos acertados seriam:

  • Abrir o estatuto para revisão dos critérios com base na realidade vivida ao longo desde a fundação da CBRu. Critérios devem sim (como já está previsto no estatuto) levar em conta a situação das competições estaduais/regionais, a quantidade de atletas e clubes por categoria, o número de árbitros e treinadores, bem como as práticas de governança das federações (práticas democráticas e transparentes);
  • Criar dois ou três níveis distintos de filiação:
    • Nível 1: federações que cumpram com todos os critérios estabelecidos pelo estatuto;
    • Nível 2: federações que cumpram parcialmente com os critérios;
    • Nível 3: federações (que devam se chamar apenas associações?) em estado inicial, que contem pelo menos com a documentação trivial para serem entidades legais;
  • Cada nível de filiação oferece direitos e deveres: número de vagas em competições nacionais? número de votos no Conselho? repasse de verbas? quantidade de cursos?
    • Independente do que se estipule sobre cada nível, algo é sagrado: todos os filiados precisam ter voz e voto;
    • A quantidade de votos pode variar de acordo com o número de clubes filiados, de competições organizadas, de categorias existentes, mas jamais ser negado. Negação de votos poderia existir apenas como punição a improbidade e falta de democracia na gestão de uma federação/associação;
  • Revisão periódica (anual? bienal? quadrienal?) da situação de cada federação, promovendo ou rebaixando seu status de filiação;

Porém, como garantir que todas as regiões primeiramente entrem para o sistema? Para mim, esse é um processo que deve SIM ser dirigido pela CBRu, propondo agrupamentos geográficos que se adequem às realidades atuais de cada região e aos desafios que serão enfrentados para as regiões subirem nos níveis de filiação.

Em outras palavras:

  • O foco de cada federação precisa ser o desenvolvimento, isto é, aumentar a base de praticantes em todas as categorias para tornar sustentáveis os clubes e as competições;
    • Ou seja, o foco imediato NÃO é ter equipes participando de competições nacionais ou ter atletas jogando nas seleções brasileiras. As duas coisas são consequências apenas;
    • O foco é ter clubes sólidos, densidade de clubes (isto é, concentração de clubes que reduzam gastos de deslocamento) e competições locais estáveis e duradouras;
    • Uma vez que a federação tem pessoas capacitadas para gerirem e liderarem seus processos internas, essas pessoas repassarão o conhecimento dentro de suas regiões. Ou seja, trata-se de um protagonismo maior para as federações no desenvolvimento (o que já começou a se encaminhar nas mudanças recentes no desenvolvimento da CBRu, que repassará verba a federações estaduais);
  • Com isso, não é produtivo propor regiões que exijam longos deslocamentos (grandes regiões não funcionam). Mas, na prática, muitos estados precisam do apoio de estados vizinhos, o que significa, que é inteligente unir estados próximos;
  • Para os estados já existentes, é preciso também pensar em subdivisões que ajudem os clubes iniciantes ou categorias iniciantes (equipes masculinas B, femininas e juvenis). Tais equipes não conseguem participar de competições de nível estadual e precisam de pequenos eventos ainda mais locais com regularidade. Por isso, a existência de ligas regionais dentro dos estados (ou mesmo em regiões de fronteira entre estados) é extremamente positivo para o desenvolvimento e pode ser colocado como requisito do nível pleno de filiação;
  • Por tais razões, por requererem estudo e debate, o problema de “em quantas e quais federações estaduais/regionais o Brasil será dividido?” precisa fazer parte de uma ampla proposta vinda da própria CBRu;
  • Esperar que cada região se junte aleatoriamente e peça filiação, claramente, vem se provando sem resultado. O processo, sem coordenação, se perde, pois cada clube tende a ficar preso em problemas cotidianos, à inexistência de lideranças e à falta de conhecimento (know-how) de como alcançar objetivos que parecem abstratos, distantes e incertos – agravados pela falta de exemplos a serem seguidos, pois nenhum novo estado conseguiu admissão desde a fundação da CBRu e mesmo algumas das 6 federações filiadas têm dificuldades primárias que já colocaram dúvidas sobre se elas estariam adequadas ao próprio estatuto. O cenário pede portas abertas com coordenação e liderança – e não portas fechadas com ideias superficiais de meritocracia;
  • “Então você está propondo um campeonato nacional com vagas para todos os estados?” NÃO. Essa confusão é feita no Brasil inteiro. Neste artigo NÃO estou discutindo campeonato nacional! Estou discutindo federações, um estágio ANTERIOR e MUITO MAIS IMPORTANTE. Não é hora de pensar num mega campeonato brasileiro. Um passo por vez;

E quais agrupamentos podem ser feitos?

Hoje, olhando a situação do rugby no Brasil, eu imagino algo semelhante a:

  • 16 federações/associações;
    • Paulista
    • Fluminense
    • Mineira
    • Paranaense
    • Catarinense
    • Gaúcha
    • Baiana*
    • Costa Nordeste* (Pernambuco, Paraíba e Rio Grande do Norte)
    • Costa do Sol (Ceará e Piauí)
    • Costa Norte (Maranhão, Pará e Amapá)
    • Amazônia (Amazonas e Roraima)
    • Noroeste (Acre e Rondônia)
    • Mato Grosso
    • Mato Grosso do Sul
    • Cerrado (Goiás, Distrito Federal e Tocantins)
    • Espírito Santo

*Sergipe e Alagoas hoje estão alinhadas com a Bahia, mas caberiam na Costa Nordeste igualmente.

Evidentemente, tais regiões são hipotéticas, algumas das quais hoje mal conseguiriam se adequar a um nível elementar de filiação. Da mesma forma, 16 poderiam virar 14, 18, 20. Não importa. O primeiro desenho de um mapa já ajudaria a nortear como se daria um processo de inclusão do país todo dentro de um sistema. Sem mais buracos no mapa.

Se a minha solução não for boa, o espaço está aberta para outras soluções. De novo: quem oferece uma?

4 COMENTÁRIOS

  1. Não só o rugby o esporte brasileiro é centrado em praticamente um estado São Paulo. O CBRU a meu ver deveria ela tomar frente cadastrando equipes, jogadores, clubes, e com esses, formar competições regionais pelo Brasil. Competições com 4, 5, 6 clubes com quantidade mínima de jogos e máxima proximidade entre eles, e os campeões irem para mata-mata regional e depois nacional. e as federações braços da CBRU organizando e apoiando esses clubes e competições. Uma coisa é fato pro esporte existir ele tem que ser praticado.

  2. Vitor tenho a linha de pesamento muito próxima a você, lembro no mesa oval que um dirigente da Bahia já havia levantado o que você escreve nesse artigo. Essa falta de apoio aos outros Estados brasileiro me assusta, pois parece proposital. Um dia que alguém levantar os clubes do nordeste brasileiro e eles montarem uma liga independente (Podendo se voltar mesmo para a outra modalidade o League) a Cbru vai tomar iniciativa de procurar eles. Acho um falta de respeito aos praticantes do esporte fora de eixo tradicional e eles devem ter voz ativa no conselho.

  3. Artigo altamente válido. Geralmente quando alguém coloca esse assunto na pauta, o povo da “seita”, aqquela dos valores de Facebook, começa a dizer que é “mimimi” e “vai pintar cal e colocar H”, mas não é isso. É o básico para o crescimento de uma cultura esportiva e não o da proliferação de clubinhos de amigos que jogam nos fins de semana (que é o que parece muitas vezes). Tem que torneios regionalizados, sim. E se não for de XV, que seja de 10’a side, de 7’s, que sejam os festivais, com vários jogos curtos por dia. Que sejam em locais de fácil acesso e que tragam famílias, gente comum, curiosos, que estes se envolvam na cultura e não só em meia dúzia de ogros beberrões quebrando bares e praticando UFC de playboy. Não é dizer que vai “ficar chato”. É querer que cresça como comunidade, coletividade e inclusão. É mais difícil? É. Mas ninguém disse que seria fácil. Fácil é escolher os mais fortes e o resto que se foda.

  4. Excelente proposta. A recente recusa à filiação da Bahia é sintomática e reflete todos os problemas que você aponta. Outra coisa que merecia um texto de opinião é esse esquema de ranking entre equipes nacionais… parece que o Farrapos já é o maior campeão recente do país(?) ou o Campeonato gaucho o mais difícil.. Eu sei que o ranking não funciona assim, mas seu um resultado é distorcido… ou não?