ARTIGO OPINATIVO – Domingo teremos eleições no país. Não pretendo repetir aqui as centenas de análises que você já deve ter lido nos mais variados sites, mesmo porque somos um site sobre rugby. Mas a polarização que o país vive tem gerado uma tensão nunca antes vista na era democrática, com infindáveis especulações sobre os rumos de nosso país.

Com isso, o que um jornalista de rugby pode ajudar nesse assunto? Vou deixar minha opinião pessoal (não escrevo em nome do Portal pois ele é feito de muitas pessoas).

Primeiramente, é essencial deixar claro que a crença que muitas pessoas têm de que esporte e política não se misturam é falsa. Tudo na vida de qualquer ser humano gira ao redor de sua visão de mundo. Todo mundo tem uma – uns são coerentes sobre ela em tudo ou quase tudo (naquilo que se dão conta), mas outros não são. Tudo o que pensamos sobre qualquer coisa e tudo o que fazemos na vida é pautado por nossos valores, por nossa visão de mundo (pode chamar de ideologia, não é palavrão). Ela se expressa em nossas visões políticas – seja na política nacional, isto é, em quem votamos (ou não votamos), seja na micropolítica das nossas áreas de interesse, isto é, por exemplo nossa visão sobre a gestão do rugby mundial, nacional, estadual ou clubístico.

Ao longo de seus 10 anos de existência, o Portal do Rugby sempre deixou claro seu apreço por valores que são inegociáveis: o respeito à democracia, à liberdade de expressão e à diversidade. Como um dos criadores dele faço questão de incorporar isso.

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Por mais simples que pareçam tais valores, eles são comumente alvo de incoerência e falta de senso crítico. Para este autor:

  • Toda liberdade tem um limite. Não existe nenhuma liberdade absoluta em nada na vida. Qual o limite da liberdade de expressão? O limite que não põe em risco a própria liberdade de expressão. Em outras palavras, na minha opinião, defender o fim da liberdade de expressão não é exercer sua liberdade de expressão: é hipocrisia, falta de coerência. Não pretendo criminalizar ninguém, apenas alertar sobre a hipocrisia;
  • A democracia, portanto, não tem um dispositivo de autodestruição. Nela sempre se manifestam falhas, problemas que precisam ser debatidos sempre. Mas nunca sua essência – sua existência – deve ser posta em risco. O funcionamento das instituições democráticas precisa ser garantido sempre;
  • Diversidade é a defesa da liberdade de se expressar de cada um – é o respeito às suas escolhas ou às suas características pessoais (as que não controlamos). Respeito a quem somos. É essencial para a democracia;

Todo esporte pode ser usado por qualquer ideologia. Ele pode servir a democracia e a ditaduras. O rugby não é diferente. Mas a bola oval tem algo de especial. O rugby prega seus valores ativamente, os “DRIPS”, em português: disciplina, respeito, integridade, paixão e solidariedade.

Não vou analisar um a um. Mas vou deliberadamente destacar um, que me parece o mais útil à sociedade atual (porque é de mais rápida e fácil aplicação): respeito. Respeito ao adversário, respeito ao mediador (o árbitro, as instituições), respeito ao jogo (no caso, à democracia). Respeito à diversidade. Respeito não incorpora ódio. Não incorpora a ânsia de aniquilar o outro.

Nessas eleições, seja coerente com os valores do rugby. Não coloque em risco a democracia. Nada justifica. Nada. Vote em quem tem compromisso com o respeito ao outro. Discordar é parte do jogo. Mesmo veementemente. Ser adversário é parte do jogo. Isso é válido para presidente, governador, senador, deputado federal e deputado estadual.

Porém, é preciso coerência e autocrítica. Não é todo mundo igual não. Há quem tenha na essência de seu discurso o desprezo pelo respeito, o desprezo pela diversidade, o desprezo pela democracia, a admiração pela ditadura. E há quem deposite todas as suas forças em se opor a quem despreza a democracia. E essas duas coisas são imensamente diferentes.

A política é um jogo. É preciso querer jogá-lo de acordo com suas regras. É assim que jogamos rugby. A política não é diferente.

Vote hoje pela democracia de amanhã.

1 COMENTÁRIO

  1. Um post desses não pode passar em branco. Parabéns pelo posicionamento, Victor! Que possamos discordar polidamente em relação ao que é felicidade na nossa sociedade, e que possamos defender aguerridamente esses valores: democracia, liberdade e solidariedade!

    PS: pessoal, não se esqueçam de que são dois votos para senador nesta eleição (6 números na cola no total)