A Lei 6 do Rugby é a lei que autoriza e regula o uso do TMO – Television Match Official, o Árbitro de Vídeo, usado na bola oval desde 2001. O futebol, agora na sua Copa do Mundo, tem o VAR – Video Assistant Referee, o TMO da bola redonda. No clima da Copa do Mundo de Futebol, trago algumas reflexões sobre a arbitragem por vídeo nos dois esportes.

Ambos, rugby e futebol, têm situações de uso do vídeo bem delineadas no papel:

  • No rugby, o TMO pode ser usado quando:
    • Há dúvidas sobre a marcação de um try – desde a jogada que original o try até sua finalização;
    • Há dúvidas sobre se um chute aos postes entrou ou não;
    • Há dúvidas sobre uma bola apoiada dentro do in-goal pela defesa;
    • Há dúvidas sobre o merecimento de um cartão amarelo ou vermelho a um atleta;
  • No futebol, o VAR ode ser usado quando:
    • Há dúvidas sobre a marcação de um gol (por conta de infração, uma vez que existe já outra tecnologia usada para determinar se a bola entrou no gol);
    • Há dúvidas sobre a marcação de penalidades máximas;
    • Há dúvidas sobre o merecimento de um cartão vermelho a um atleta;
    • Há dúvidas sobre a identidade de um jogador a respeito de algum lance passível de punição;

 

O rugby já é bastante experiente no uso do vídeo e ainda assim o debate não acaba – as decisões baseadas no vídeo na bola oval não são 100% unânimes, muito menos imunes a críticas, uma vez que o aspecto essencial da interpretação do árbitro permanece. Basta mencionar o caso da semana passada de Benjamin Fall da França contra os All Blacks. Porém, o grau de acerto é elevado, sem dúvida.

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Esse aspecto é essencial para o futebol compreender, uma vez que o uso da tecnologia de forma alguma oferece decisões indiscutíveis – o debate vai sempre seguir quando a interpretação do árbitro for central para a decisão de um lance. Sem dúvida alguma, o rugby ensina ao futebol que é preciso ter a consciência de que o vídeo é essencial para reduzir decisões ruins dos árbitros, mas não resolve todos os problemas.

É preciso paciência e aperfeiçoamento constante. E o rugby oferece essa lição ao futebol: a bola oval revê constantemente suas leis e seus protocolos, para aperfeiçoar as marcações e torná-las menos demoradas. O futebol erra ao introduzir uma tecnologia que muda o esporte tão dramaticamente em sua Copa do Mundo antes de ter todos os seus árbitros de ponta largamente acostumados e testados no uso da tecnologia em suas competições locais. No rugby, os testes são feitos em etapas e quando ampliados eles atingem a todos os principais campeonatos profissionais (salvo alguns equívocos, como a ausência do TMO no Americas Rugby Championship, que gerou tanta reclamação, mas trata-se de uma exceção).

O rugby também ensina outra coisa essencial: para o árbitro tomar decisões é preciso que ele tenha o ambiente de calma necessária. Isto é, o árbitro não pode tomar uma decisão sob pressão dos jogadores. O uso do VAR se apresenta como uma oportunidade de ouro – e que claramente será perdida – para o futebol disciplinar as reclamações dos atletas com os árbitros. Definitivamente seria preciso que apenas o capitão pudesse dialogar com o árbitro. A pressão – mesmo que a FIFA diga que os atletas estão sujeitos a punições ao demandarem o uso do VAR – só prejudica o processo de tomada de decisões.

Mais que isso, o rugby prima pela transparência no uso do vídeo. O diálogo entre árbitro de campo e árbitro de vídeo é aberto para a transmissão e mesmo para o estádio ouvir, o que significa que o raciocínio utilizado pelo árbitro para ter uma decisão é exposto ao julgamento público. Certamente isso deveria ocorrer no futebol, criando um maior senso de justiça. Porém, essa transparência é possível apenas quando há respeito dentro de campo às decisões do árbitro – e, nesse caso, volta-se à questão da conduta dos atletas com relação à arbitragem. E o respeito só acontecerá se houver transparência e diálogo dentro do campo, pois é preciso no futebol que o árbitro passe a ser entendido como o rugby entende o árbitro: ele é um “facilitador do jogo” e não um mero “punidor”.

Para o rugby, no entanto, um aspecto negativo importante sobre o TMO é sua injustiça com relação à velocidade das ações dos atletas. Ao passo que a câmera lenta oferece uma visão mais clara ao árbitro, ela também retira a perspectiva do lance. Em outras palavras, uma infração que pareça clara pela câmera lenta pode, na verdade, ter sido inevitável e de culpa reduzida para o atleta que a cometeu quando vista em velocidade normal.

A câmera lenta pode induzir o julgamento da culpa de um jogador a ser injusto por ignorar a velocidade de reação humana. E no caso do futebol isso pode ser ainda mais enganoso no caso da imagem que sugere que um atleta tenha sido impedido faltosamente, pois o contato físico pode até existir, mas a câmera lenta não evidencia se o contato foi determinante para impedir o jogador de completar sua ação.

Em outras palavras, as consequências de um contato físico podem ser enganosas na câmera lenta. E isso tanto o TMO do rugby como o VAR do futebol não tiram a responsabilidade do árbitro de julgar propriamente os lances a partir da sua experiência no jogo. Aqui, trata-se de um problema que os dois esportes devem debater.

Mas o TMO do rugby não pode ajudar em tudo para o aperfeiçoamento do VAR. No caso do futebol, o VAR só pode ser usado após o árbitro tomar uma decisão sobre o lance (o que incluiu deixar o jogo seguir) ou se algum incidente tenha ocorrido sem que o árbitro tenho percebido. No rugby, por outro lado, o TMO é pedido o quanto antes pelo árbitro quando a dúvida surge.

Essa diferença existe pelo fato dos lances do rugby de uso mais frequente do TMO – o try ou o chute de penalidade – não terem normalmente sequência. A grande maioria dos lances de tries são finalizações das jogadas, portanto, sendo ou não try o jogo não teria continuidade. No futebol, no entanto, isso não é sempre verdade, sobretudo no caso da penalidade máxima. Nesse caso, a prática do rugby da decisão do árbitro central ser prontamente a solicitação do árbitro de vídeo teria como desdobramento a interrupção da jogada que teria continuidade.

Caberia ao futebol debater esse aspecto central do uso do VAR, na minha opinião, que é o aspecto mais propenso a produzir confusões e polêmicas. Em resumo, aqui o problema é o futebol optar por mudar a sua própria dinâmica para reduzir as possibilidades dos árbitros efetuarem marcações e voltarem atrás nelas – expondo menos os árbitros às polêmicas e à pressão, ao custo de se quebrar o ritmo das situações de ataque.

Acrescente-se ainda algo essencial: o TMO pode informar o árbitro do rugby a qualquer momento para ser acionado, mas essa articulação de como ele entra em ação no rugby está bem delineada, com comunicação constante, ao passo que o VAR do futebol ainda está expondo alguma incerteza. Isso pode estar causando um conflito de autoridade, pois do jeito que está ocorrendo no futebol o árbitro se coloca em posição de insegurança sobre suas próprias decisões. Essa situação seria resolvida com o árbitro podendo parar o jogo para solicitar o VAR – com o custo de quebrar sim a dinâmica do jogo. Nesse aspecto, o rugby oferece menos lições ao futebol, pois caberia aos especialistas da bola redonda debaterem se vale a pena essa quebra no jogo. Para mim, o aviso externo só poderia vir em caso de lances (agressões, por exemplo) fora do lance de momento.

E você, o que pensa do uso do vídeo nos dois esportes?

 

Artigo de Victor Ramalho e Luís Kolle

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