Estádio Charrua, casa do rugby uruguaio.

ARTIGO OPINATIVO – Este assunto já foi várias vezes tratado, mas faltava colocá-lo de forma mais direta neste momento, que é o mais apropriado para o assunto. A CBRu precisa de uma casa, isto é, de um campo com arquibancadas ou um estádio propriamente que possa receber seus eventos.

A criação do Americas Rugby Championship em 2016 já sugeria isso, mas a chegada da Superliga profissional está escancarando o problema. Um estádio talvez seja hoje o melhor investimento – o de efeitos positivos mais duradouros – que o rugby brasileiro poderia fazer.

Primeiramente, é importante deixar claro para o leitor que alugar estádios no Brasil não é nada simples. Toda hora que há jogos dos Tupis centenas de pessoas comentam sobre os locais onde o Brasil joga. Uns pedem que suas cidades recebam jogos, outros reclamam do estádio escolhido em São Paulo e sugerem alternativas. Porém, quando se pega o assunto para compreendê-lo a fundo, a maior parte das sugestões são simplesmente irreais. Alguns pontos para se entender:

  • 1 – O rugby é minúsculo no Brasil e ainda anônimo. Qualquer evento custa (entre aluguel, taxas, deslocamentos, promoção, etc) algumas dezenas de milhares de reais. Muita gente não tem consciência disso porque o mundo do esporte profissional em geral é feito de equipes que já têm uma casa fixa. Quando falamos de uma dezena de jogos por ano, não se trata dinheiro de cafezinho para um esporte onde cada centavo conta;
  • 2 – A CBRu está baseada em São Paulo, que concentra um percentual elevadíssimo do público do rugby no Brasil. Jogos fora de São Paulo exigem deslocamento de sua equipe operacional, ou seja, custos;
  • 3 – Portanto, o rugby não está em posição de apostar no incerto. Para desembolsar dinheiro em um evento, é preciso haver um público garantido. Cidades com poucos clubes são obviamente arriscadas. Não é porque tem um evento na cidade que o público leigo aparecerá;
  • 4 – Para fazer um jogo longe de São Paulo é preciso que alguém queira pagar por isso: patrocinador ou governo. Sem isso, é inviável;
  • 5 – Estádios no Brasil, via de regra, têm como foco o futebol (ou são propriedades de clubes ou, no caso dos estádios públicos, o interesse político e econômico está do lado do futebol). Não adianta querer usar um estádio se o calendário do futebol conflitar com o do rugby. Pior que isso: para se planejar com antecedência, não basta esperar o calendário do rugby sair, pois ainda há o calendário do futebol para se levar em conta;

A todas estas questões soma-se mais uma: o bem-estar do atleta, preocupação central no rugby profissional – e a Superliga sul-americana e os Tupis operam dentro da lógica do rugby profissional. Metade do calendário da seleção de XV é jogado fora de casa e metade em casa. Os jogos em casa são um alívio para os atletas, que precisam descansar das viagens. É por isso que no esporte profissional um estádio “casa” é crucial. Não apenas porque ele cria um cultura de estádio – pois cria um público cativo – mas porque oferece comodidade e familiaridade aos atletas.

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Além disso, na América do Sul mesmo, vemos exemplos extremamente positivos dos benefícios de se ter uma sede. O Uruguai e o Paraguai contam com estádios geridos por suas federações de rugby. O caso uruguaio é incrível. Todo ano os uruguaios recebem torneios sul-americanos juvenis e femininos. A federação uruguaia ainda promove em seu estádios as finais de clubes e jogos de sua seleção de desenvolvimento. É um calendário impressionante, muito maior que o brasileiro. Vamos a uma lista de ausência?

  • A Seleção Brasileira Feminina adulta (as Yaras) não joga no Brasil desde 2016;
  • A Seleção Brasileira Masculina de Sevens não joga no Brasil desde 2016 (Jogos Olímpicos). Excluindo o Rio 2016, os Tupis não jogam sevens no Brasil desde 2013;
  • O último Sul-Americano Juvenil Masculino que ocorreu no Brasil foi em 2013;

O maior problema desses eventos é que patrocínios e ingressos não costumam pagar os custos deles e, se não houver apoio de poder público, sediá-los significam custos à CBRu.

Custos que eu pessoalmente entendo como investimentos, mas se quem paga as contas está no aperto, não há margem de manobra. A viabilidade de tais eventos só é concreta se o custo de estádio fosse baixo. Oras, não é acaso que todo ano a esmagadora maioria dos eventos sul-americanos vai para o Uruguai, pois o rugby uruguaio tem seu estádio. Para TODAS as nossas seleções jogarem com frequência em solo brasileiro, ter um estádio controlado pelo rugby é essencial (ao menos controlado parcialmente).

Entretanto, ter uma sede fixa para uma seleção nacional é ruim do ponto de vista da promoção do esporte. Quem não está em São Paulo tem todo direito e razão de reclamar que só São Paulo recebe eventos. Todos são apaixonados e querem ver Tupis, Yaras, Curumins.

É por isso que o melhor modelo, na minha visão, é ter um estádio que receba a grande maioria dos eventos da CBRu. Isto é, uma casa em São Paulo (que tem muito mais clubes de rugby do que qualquer outra região) que receba a maioria dos eventos, mas todo ano ter alguns eventos designados como jogos a serem feitos em outros estados. Havendo já uma casa garantida, é possível com mais prudência e planejamento pensar nos eventos que poderão sair dela – viabilizá-los financeiramente.

Evidentemente, a “pergunta de um milhão de reais” é uma só: como conseguir uma casa? São Paulo é uma cidade com pouquíssimas alternativas. Comprar um terreno e construir algo do zero é praticamente inviável. Portanto, o mais acessível é firmar uma parceria com contrato de longa duração com algum clube que seja dono de um estádio ou pleitear uma parceria com o poder público. Esta última alternativa é praticamente impossível na conjuntura atual, com a prefeitura já tendo privatizado o Pacaembu (o que implicará em custos possivelmente até maiores de aluguel e em aproximação com o Santos) e o governo estadual querendo demolir o Estádio do Ibirapuera. As arquibancadas do CEPEUSP não podem ser usadas por motivos de segurança e há ainda um estádio dentro do CERET, mas que requereria, além de investimento, de um plano de como geri-lo sem interferir na vida – e com as regras de uso – do parque. As outras opções são os estádios das prefeituras vizinhas, mas o público do rugby nunca deu resposta positiva a ir para a periferia.

Já entre os estádios privados, o do Juventus não pode receber rugby (por um muro que oferece risco aos atletas), ao passo que o do Nacional hoje não tem iluminação para jogos noturnos. Há ainda o da Portuguesa (em risco de penhora), ao passo que os estádios dos clubes grandes são caríssimos para jogos com públicos baixos. Por fim, o Parque São Jorge, do Corinthians, é alternativa, mas o clube precisa querer liberá-lo para o rugby, pois já tem uma agenda cheia de futebol juvenil e feminino.

No rugby, a única equipe que é proprietária de um campo é o SPAC e, por isso, uma parceria para transformá-lo em estádio poderia ser costurada, o que não é tão simples também.

Portanto, estamos diante de um problema que a cada ano parece mais incontornável: o investimento mais importante no momento para o rugby é um estádio. Estádios custam muito caro, mas só existem três caminhos:

  • Construir um do zero: quase inviável;
  • Ser parceiro (investidor) na reforma e manutenção posterior de um estádio de futebol (por exemplo, Nacional ou Portuguesa);
  • Ser parceiro (investidor) na transformação de um campo de rugby em estádio e sua posterior manutenção (sendo o SPAC o mais lógico);

Nos dois últimos casos, seria preciso um contrato garantindo uso que valha a pena por um número grande (ou suficiente) de anos (para fazer valer o investimento).

Fazer esporte profissional sem teto não é viável. Uma dessas opções precisa ser escolhida para haver uma estratégia e um planejamento de como viabilizá-la o mais rápido possível. E o “mais rápido possível” vai demorar. Esse planejamento claramente era “para ontem”. Agora, é necessário correr atrás do prejuízo para o martírio não seguir para sempre.