Mapa de praticantes divulgado pelo World Rugby para 2018.

ARTIGO OPINATIVO – Hoje o World Rugby publicou seu relatório anual de 2018 (clique aqui para acessá-lo) , apontando que há no mundo 9,6 milhões de praticantes de rugby. No mapa com praticantes por país, o Brasil aparece com 18.316 atletas registrados e 174.290 jogadores ao todo (mais do que a Argentina, que tem 161.265 atletas totais).

Evidentemente, os números causam estranhamento. A China aparece com mais jogadores do que a Itália, a Nova Zelândia ou a Austrália, enquanto os Estados Unidos teriam mais praticantes que África do Sul e França somadas.

É importante esclarecer o que isso significa. Apenas uma coisa: que não existe unificação de critérios para se calcular o número de jogadores pelo mundo. Isso parte da questão óbvia: o que é um praticante?

Certamente, em países onde o rugby é desenvolvido, como França, África do Sul ou Nova Zelândia, muitos jovens não entram para a conta, apesar de praticarem rugby (ou formas de rugby, como tag e touch) informalmente (ou mesmo dentro do ambiente escolar, onde o rugby está consolidado) não são contabilizados, da mesma maneira que não são contadas as pessoas que praticam touch entre amigos (que um dia jogaram rugby mais ativamente, mas hoje estão apenas jogando eventualmente) ou aquele jogo de fim de ano entre veteranos. Isso é fácil de entender: basta pensa no futebol, com a “pelada” informal que não conta para as estatísticas, ou aquele futsal da educação física escolar que não vira número. No entanto, em países que estão buscando seu espaço no rugby, como EUA, Brasil ou China (ainda que cada um num estágio distinto de desenvolvimento), todo praticante é importante de ser contabilizado.

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O World Rugby repassa às federações nacionais a missão de trazerem seus números e cada uma tem seus critérios, seus métodos de cálculo. No Brasil, o CNRU é a fonte dos números de atletas registrados. Nele, ocorrem três questões que tornam os dados complicados: atleta que param não são excluídos; alguns atletas aparecem duplicados, muitas vezes por errarem seus primeiros cadastros; e, por outro lado, há clubes e federações que não utilizam o CNRU corretamente. Já os números totais são fruto da conta de jovens introduzidos ao Tag nos muitos projetos pelo país, mas a frequência com que cada jovem joga Tag varia muito.

Tal situação nos leva a duas questões óbvias:

  • O CNRU precisa ser entendido como uma ferramenta verdadeiramente de censo, bem como de fornecedora de estatísticas sobre os nossos torneios;
  • O World Rugby precisa estabelecer critérios precisos quanto à contagem de praticantes, estabelecendo diversas categorias de prática (baseando esses números por modalidade e por frequência da prática);

 

A IMPORTÂNCIA DO CNRU

Muita gente não gosta dele. Muita gente acha ele “frescura”. Mas isso é porque os rugbiers pelo país raramente têm contato com produtos palpáveis do CNRU. O CNRU é um dos melhores desenvolvimentos da CBRu até hoje e ele é essencial para nosso rugby. Mas ele precisa de melhorias urgentes.

Como colocado acima, caso todos os clubes se engajassem no CNRU, ele nos ofereceria a cada minuto um censo completo de todos os praticantes do rugby de clubes do país. Ele não incluiria os jovens praticando tag, nem os veteranos jogando ocasionalmente, mas nos daria os números do rugby ativo de competição, isto é, dos clubes que jogam XV ou sevens.

O CNRU ainda permite esclarecer aos clubes e jogadores os placares, pontuadores, cartões de uma partida, pois a súmula é subida para um sistema que deveria ser de acesso público. O CNRU ainda permite um mínimo de disciplina nos movimentos de jogadores entre clubes, pois um atleta só passa a trocar de equipe a partir de um processo oficial de transferência. E a conferência de documentação oficial, como identidade e atestado médico.

Ele também nos oferece registros permanentes dos jogos. Como historiador, o passado do rugby brasileiro é desesperador, pois há anos que sequer os campeões de todos os torneios são identificáveis. Os placares de vários anos do rugby brasileiro se perderam, porque nunca houve o trabalho de se manter um arquivo, de se manter um registro oficial dos campeonatos. O CNRU oferece essa mudança.

Quem acredita que colocar num sistema todos os dados é “chatice”, é porque quer viver numa várzea completa para sempre e, por isso, não devia estar reclamando de nada sobre o rugby nacional. Querer jogar num nível absoluto de informalidade não é problema, sinceramente, mas as demandas têm que condizer com a seriedade escolhida.

 

COMO MELHORAR O CNRU?

Quando se pede que haja engajamento de jogadores e clubes, é preciso oferecer o retorno palpável, senão as pessoas não acreditam que o trabalho que estão tendo seja válido. Sem se ver o resultado, o trabalho parece inútil.

O CNRU necessita de curadoria, isto é, de alguém na CBRu que ofereça pronto atendimento sobre problemas eventuais. E é preciso que o CNRU tenha todos os dados que ele possa oferecer disponíveis ao público de maneira acessível, isto é:

  • Todos os campeonatos ganharem tabelas públicas. Todos, e isto inclui os estaduais, os torneios de sevens… O CNRU pode facilmente oferecer automaticamente classificação, placares, pontuadores, cartões e até minutos jogados por atletas. Esse dados provêm das súmulas e, portanto, não precisam de atualização manual;
  • Tabela pública com transferências de atletas, que deixe claro quem está já apto a ir a campo. Esse dado interessa não só ao clube do atleta, mas a todos os participantes do mesmo torneio;
  • Súmulas acessíveis – e editáveis. Temos no país uma “epidemia” de erros de súmulas, com pontuadores errados. Seria essencial que uma vez que a súmula esteja no ar ela tenha um prazo de determinado número de horas para ser corrigida caso algum clube informe haver pontuador errado, por exemplo. É óbvio que vai ter sempre o reclamão atrasado que vai reclamar após o prazo, mas o mínimo que se espera é que qualquer time sério confira a súmula após ela ser lançada. O correto era a correção acontecer na beira do campo após o apito final, mas sabemos que isso não ocorre por diversos fatores (da chuva ao terceiro tempo);

Para que esses benefícios do CNRU sejam desfrutados, a arbitragem precisa subir as súmulas com urgência. E isso precisa ocorrer no dia do jogo, logo após seu término, para ninguém levar trabalho pra casa e descobrir que tem mais tarefas na vida pra fazer. Para que a atualização seja eficiente, é preciso um sistema que colabore. Por isso:

  • O CNRU precisa ser plenamente acessível pelo celular. Sua atualização poderia ocorrer durante a partida inclusive, com as aprovações dos dois times também ocorrendo online. O papel é dispensável se o sistema é bom e um APP do CNRU para árbitros e clubes resolveria. É lógico que a internet no Brasil atrapalha, mas o app poderia funcionar offline também (até o usuário encontrar uma conexão). É resolvível;

Com isso tudo ajustado, deveria ser inegociável que todos os torneios de todas as federações fossem geridos pelo CNRU – o que hoje não ocorre. E para ocorrer é preciso que o não uso tenha consequências.

Entretanto, é preciso entender que cada estado tem suas necessidades próprias, suas características próprias. Os estados precisam de um sistema maleável que lhes permita criar competições com as características desejadas. Por isso, as federações precisam de mais ferramentas de controle sobre seu gerenciamento do CNRU.

Seria muito interessante um sistema que permitisse criar torneios designados como “flexíveis”, isto é, que possam sair do dueto 15-7 (ou seja, a possibilidade de se criar torneios de 10s, 12s…) e que possam haver variações no tempo de jogo (como o 15 em tempo reduzido). Da mesma maneira, para torneios desenhados para serem de desenvolvimento e que tenham o intuito de permitirem que jogadores não registrados ainda participem das atividades, o sistema poderia permitir que a federação autorizasse no sistema esse tipo de regulamento – e mesmo a não inclusão de atletas ou de súmula (com apenas o registro de placares finais), se essa for a filosofia do torneio. O importante, nesse caso, seria registrar que o torneio existiu – provando clubes como ativos e participativos.

Por fim, pensando no censo, é preciso que o sistema coloque automaticamente como inativos atletas e clubes que passem determinado tempo sem aparecerem nas súmulas. Da mesma maneira que campeonatos passados precisam ser arquivados, mas se manterem acessíveis. Inativos têm que virar histórico e ativos precisam estar em evidência.

Ou seja, o uso do CNRU não deveria ser apenas de gerar súmulas. Ele é censo para federações e fonte de informações jornalísticas sobre as competições. E todos os seus problemas são resolvíveis com uma melhor arquitetura do sistema.

 

Que tal um sistema global de atletas?

Ou seja, o sistema ideal é caro de ser criado. Sua manutenção tem os custos diminuídos se o sistema for bem planejado e automatizar a maioria dos processos. Mas é preciso sempre alguma pessoa responsável pela curadoria do sistema.

Sabendo que essas questões não são apenas do Brasil, mas do mundo todo, o sistema de gestão de atletas e campeonatos pelas federações nacionais (e pelas federações regionais e ligas a elas vinculadas) deveria ser um sistema unificado do próprio World Rugby.

Isso mesmo. Da mesma maneira que o World Rugby tem o Rugby Ready, o Laws e uma porção de ferramentas online de capacitação, era preciso ter o sistema ofertado para todas as federações nacionais. Tal sistema precisa oferecer larga autonomia para as federações adaptarem a ferramenta às suas necessidades, mas isso é possível com um sistema que permita habilitar, criar ou desativar recursos e campos do sistema. Ou seja, tudo o que eu falei sobre o CNRU se aplicaria a uma sistema do World Rugby.

É lógico que o World Rugby ofereceria a ferramenta em inglês, mas com a possibilidade de cada país traduzi-la ao seu idioma. A migração de dados de sistema hoje em uso seria, lógico, o maior problema, uma vez que há países já utilizando sistemas há muito tempo. Mas os casos do uso de atletas irregulares nas eliminatórias para a Copa do Mundo de 2019, por exemplo, que tornaram o rugby europeu uma zona, não teriam ocorrido se houvesse um sistema que comunicasse os dados de todos os países.

Uma vez que o sistema fosse lançado, os dados passados poderiam ser migrados ao longo de um tempo designado, com uma equipe de TI do World Rugby assessorando as federações nacionais. E é claro que ligas profissionais que têm seus sistemas próprios poderiam mantê-los – mas atualizando igualmente o sistema da federação nacional. Quando o assunto são ligas profissionais, há staff para gerenciar tal burocracia. Mas, em países de rugby amador, um sistema provido pelo World Rugby seria solução para muita coisa. Desoneraria o trabalho de países sem recursos para terem um sistema eficiente para suas competições, mas exigiria de todas as federações algum funcionário ou voluntário responsável pela curadoria.

Fato é. Um sistema global (do World Rugby) de gerenciamento de competições permitiria um censo preciso sobre o rugby competitivo (isto é, sobre praticantes envolvidos em competições, de todos os níveis). Já para tornar mais ordenado o censo sobre praticantes totais (isto é, de formas recreativas, não competitivas do rugby), era preciso detalhar e deixar publicamente claros os critérios usados – mas a contagem do rugby informal sempre seria uma estimativa de cada país.

Se o World Rugby criou o domínio .rugby na internet, seu uso final seria um sistema global de informações. E esse investimento deveria ser prioritário.