A tela mais irritante do final de semana.

ARTIGO OPINATIVO – Foi uma vergonha a forma com que a Sudamérica Rugby (confederação sul-americana) lidou com a comunicação e transmissão do torneio Pré Olímpico Feminino neste ano. O que não é nada surpreendente pelo histórico dos nossos países vizinhos de relegar o feminino à última prioridade.

A divulgação do Pré Olímpico foi medíocre para a importância do torneio, que exigia maior diligência. Primeiramente, a tabela de jogos da competição sequer foi publicada oficialmente pela Sudamérica Rugby e, ao longo do torneio, ela foi modificada ao menos 3 vezes, com a informação nunca sendo transmitida de maneira oficial ao público – e à imprensa.

A própria Sudamérica Rugby não se preocupou em divulgar os resultados em tempo real (apenas no final, o que, desculpe, é muito pobre) e, o pior de tudo, sua transmissão online, deixada a cargo da Federação Peruana, foi horrível, com o sinal caindo incontáveis vezes (para além do fato de não possuir narração). Na semifinal, veio a pérola, com a transmissão passando do YouTube para o Facebook, sem aviso prévio da forma com que deveria, impedindo que boa parte dos fãs assistissem à vitória do Brasil sobre a Argentina. A falta de uma gestão coerente é tão gritante que, enquanto informações básicas são deixadas de lado, a entidade publica fotos e entrevistas com as jogadoras. Ou seja, sendo justo, há alguma vontade de fazer algo bom, misturada com total incapacidade de olhar para o processo de gestão do torneio como um todo.

O desrespeito ao rugby feminino, aos fãs e à imprensa que não estavam em Lima (não sei como foi para quem esteva no estádio) é o que fica do torneio. Não estamos falando em uma competição qualquer. Era o torneio mais importante no ano para o rugby feminino sul-americano e era também o teste para os Jogos Pan-Americanos. Ah, “mas a culpa não é da Federação Peruana?”. “No, señores”, não é lógico largar na mão de uma entidade de um país ainda em estágio muito embrionário de rugby o sucesso da mais importante competição do continente no ano.

- Continua depois da publicidade -

Mas o desrespeito com o rugby feminino é ainda muito maior e evidente por conta de outro fato. Neste ano, a Sudamérica Rugby teve a capacidade de sequer saber o que estava fazendo com o Campeonato Sul-Americano Feminino. Ao estabelecer 3 competições no ano, a entidade não deu qualquer clareza sobre qual competição seria o Sul-Americano propriamente, mostrando absoluto despeito com relação à história do torneio, que ridiculamente terá 3 campeões no mesmo ano, lembrando alguns dos piores momentos já vistos no futebol de nossa região.

Tudo isso ironicamente no ano que a própria Sudamérica Rugby realiza um magnífico passo com a organização do Fórum Sul-Americano Feminino e anuncia a criação do Sul-Americano Feminino de XV. É claro que a pressão e incentivo vindos do World Rugby para a evolução do rugby feminino na região tem importante papel nisso, mas neste mesmo momento a Sudamérica Rugby olha com muito mais atenção para o rugby masculino, pois estava envolvida na criação de uma liga profissional. E não sejamos tolos: o Sul-Americano de XV Feminino é obrigação, não mérito. A América do Sul era o único continente que não tinha XV feminino, o que apenas mostrava o atraso da região. Não nos esqueçamos disso, pois corrigir a situação era dever.

Portanto, se a entidade avançou em alguns aspectos importantes para o rugby feminino e, ao mesmo tempo, cometeu gafes inaceitáveis, o que podemos concluir? O que aparenta é haver um absoluto descompasso interno na entidade entre frentes que trabalham pela evolução do rugby feminino e frentes que seguem na “Idade da Pedra” e produzem um trabalho lamentável como o visto no Pré Olímpico.

Se a Sudamérica Rugby não consegue ser organizada o bastante com relação ao calendário feminino hoje, fica a dúvida sobre sua capacidade de gerir um calendário ainda mais complexo que se avizinha em 2020, com XV feminino e liga profissional masculina.

A pergunta que fica agora é: qual pressão virá das federações, patrocinadores, imprensa, atletas e fãs para que a entidade máxima do rugby sul-americano dê um tratamento digno ao rugby feminino daqui em diante?