Hoje reaquecemos nossas colunas opinativas, mas com novidade. A fim de dar um toque mais pessoal às nossas opiniões – e deixar claro que são opiniões pessoais de nossos colunistas – e estimular o debate aberto sobre aspectos importantes de nosso rugby, o Portal do Rugby optou por criar duas novas colunas de nossos dois editores. Victor Ramalho estreia hoje a sua coluna “TMO”, a fim de dar um olhar além sobre diversas temas e estimular a discussão. Daniel “HP” lançará em breve a sua “Tackle Alto” também. Outras colunas ainda virão por aí e nosso Blog da Redação também seguirá, mas de forma apenas esporádica e reservado apenas a questões editoriais.

 

Apresentando o “TMO”!

TMO de “Television Match Official”? Não, TMO de “Trazendo Minha Opinião”! Esta não será uma coluna de arbitragem, mesmo porque não sou árbitro. Meu intuito aqui será debater os temas mais variados do rugby de forma aberta e que propicie uma discussão além do óbvio. Vou falar de tudo com o que posso contribuir e sempre aberto a sugestões. Ironicamente, pelo nome da coluna, o primeiro artigo é sobre arbitragem, mas não só.

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O problema da indisciplina do Super 8

O título do artigo é obviamente um exagero, uma mera provocação ao questionamento, pois os números assustam. Até o momento, em 32 partidas disputadas, entre a primeira fase e as quartas de final, o Super 8, o Campeonato Brasileiro, registrou nada menos que 8 cartões vermelhos (mostrados para 7 clubes diferentes) e 70 cartões amarelos. Ironicamente, o único clube que não recebeu cartão vermelho na primeira fase é o que mais recebeu amarelos. Em 8 rodadas, nada menos que 5 clubes têm média superior a 1 cartão amarelo por jogo. Ou melhor, o campeonato tem uma média de 1 cartão vermelho por rodada e de aproximadamente 2,2 cartões amarelos por jogo. Isso porque a primeira fase não valia nem classificação ao mata-mata nem rebaixamento. Os cartões vermelhos foram mostrados por 4 árbitros diferentes, sendo que 1 mostrou 3 vermelhos (2 deles no mesmo jogo), 2 mostraram 2 cada, 1 mostrou apenas 1 e 7 não mostraram nenhum.

Esses números ganham uma proporção mais significativa ao serem comparados com outras competições. Na temporada 2016-17, a Premiership inglesa teve os mesmos 8 cartões vermelhos do Super 8, porém eles foram mostrados ao longo de 132 partidas! Isto é, 0,36 cartões vermelhos por rodada, todos mostrados na condição de segundo cartão amarelo. Ao todo, foram ainda 104 amarelos, isto é, ao longo de 132 partidas significa uma média inferior a 1 amarelo por jogo.

No Top 14 francês, que conta com 187 jogos em sua temporada regular, foram mostrados 293 cartões amarelos (1,5 por jogo) e 25 vermelhos (pouco menos de 1 por rodada). Já no PRO12, que tem os mesmo 132 jogos da Premiership, foram 126 amarelos (ainda abaixo da média de 1 por jogo) e 6 vermelhos.

É justo comparar com ligas profissionais? Evidentemente que não, já que a realidade dos jogos é outra, seja do preparo dos árbitros (apoiados pelo TMO nas liga profissionais) e dos atletas (que têm apoio da psicologia esportiva), seja do tamanho das competições. Ainda assim, como elas provém estatísticas mais acuradas e são referências importantes, os números ganham relevância quando expõem um padrão. Com menos de 1/4 do número de jogos dessas ligas mencionadas, o Super 8 até o momento ultrapassou em muito a média de cartões normal. Quando comparamos com os anos anterior do próprio Super 8, essa escalada fica mais clara. Em 2016, o Super 8 teve 99 jogos, com 13 vermelhos e 108 amarelos sendo mostrados, em uma média de 1,1 amarelo por jogo (metade de 2017), mas com os jogos da primeira fase valendo mais. Já em 2015, em 101 jogos, foram somente 5 vermelhos e 122 amarelos (isto é, 1,2 amarelos por jogo e 0,3 vermelhos por rodada). Os árbitros eram praticamente os mesmos.

Independente do julgamento se os cartões foram ou não merecidos jogo a jogo, esses não são números para passarem em branco. Os motivos possíveis para termos esses índices podem hipoteticamente variar: indisciplina excessiva dos atletas, somada a uma falta de cuidado dos clubes nesse processo educativo de seus jogadores? Culpas dos próprios árbitros na condução da disciplina ou mesmo excesso de rigor? Falta de punições condizentes do TJD? Ou será a falta de consciência de todos os lados de que temos um problema sim? Ou, na verdade, seria um pouco de cada coisa? Resposta não serei leviano de dar, mesmo porque não tenho, mas alguns pontos precisam ser levantados como parte de um trabalho para se reduzir as ocorrências.

Na semana passada, um dos casos de suspensão ganhou discussão nas redes sociais, e ele não envolveu apenas a decisão do árbitro em campo. Em questão também esteve o resultado do julgamento do TJD sobre o caso e as punições pós-jogo atribuídas aos envolvidos. Não pretendo julgar o lance especificamente da partida em questão, nem se as punições foram merecidas, mas alertar para que um campeonato curto como o nosso não pode ter os números que teve e que as punições dadas pelo TJD precisam oferecer um senso de justiça (isto é, que quem participou de um incidente, em especial quanto se tratam de agressões, seja punido de acordo com sua participação e com a natureza de suas ações) e com transparência para os dois times envolvidos e para o torcedor que vê de fora, do começo ao fim do campeonato, em todos os seus jogos. Caso contrário, não há efeito positivo a punição.

Para que um melhor diagnóstico do que ocorre seja dado, era necessário termos os jogos filmados e disponibilizados com prontidão. Desde que a CBRu deixou de custear as filmagens e sua disponibilização imediata no YouTube, o trabalho ficou a cargo dos clubes e, além de se pulverizar a disponibilidade dos vídeos pelos perfis dos clubes, perdeu-se um padrão quanto às filmagens e quanto ao momento em que essas filmagens são publicadas. Na prática, o campeonato está rolando mais “escondido”.

Para completar, as decisões do TJD não são de fácil acesso ao público – e deveriam ser. A Comissão Disciplinar não teve documentos subidos no site da CBRu neste ano, por exemplo. Com isso, perde-se o acompanhamento público de como a disciplina do campeonato está sendo conduzida, tanto dentro como fora de campo. As decisões do TJD precisam ser discutidas, já que, se forem brandas, podem alimentar a impunidade, jogando contra a disciplina. Por outro lado, se forem muito frequentemente dissonantes com as decisões dos árbitros em campo, poderão expor que a arbitragem não está conseguindo punir em campo na hora com o peso necessário. Em um esporte que preza tanto seus valores e os usa como marketing, a manutenção da disciplina deveria ser preocupação central.

No ano que vem, o Super 8 virará Super 16 e isso significa uma coisa: jogos desequilibrados com maior frequência. E quando há desnível, a disciplina se torna chave. A tendência de uma equipe inferior cometer penais em excesso ou de apresentar imperícia nas ações aumenta, da mesma forma que uma equipe superior pode oferecer riscos físicos a uma equipe mais fraca por ter atletas em um outro nível de preparo.

Além disso, com o número de jogos simultâneos aumentando, aumentará também a necessidade de árbitros em quantidade e em qualidade, o que reforçará a necessidade de formação, capacitação, acompanhamento e reciclagem dos quadros da arbitragem. E não apenas dos árbitros centrais, mas também dos auxiliares – que precisam estar devidamente capacitados, pois desempenham papel importante na manutenção da disciplina do jogo – e de quartos árbitros (sobretudo porque indisciplina pode acontecer também da parte de quem está do lado de fora do campo). A escolha dos auxiliares e quartos árbitros nas competições nacionais precisará receber sua atenção também.

E, é lógico, com mais jogos aumentará também o número de julgamentos do TJD. E a comunicação pública de suas decisões precisa melhorar, a fim de tornar o processo mais claro e sujeito ao julgamento público, já que o olhar de fora é uma forma de controle de qualidade do trabalho feito dentro do tribunal também.

Os campeonatos estaduais também precisam fazer a mesma reflexão. Evidentemente que, com menos recursos envolvidos, para os estados evoluir em tais aspectos é mais difícil, o que reforça a necessidade de se começar pela máxima competição nacional – a qual pode fazer com que os clubes de ponta e os árbitros levem a seus estados bons exemplos, criando uma cadeia virtuosa de boas práticas.

Vamos pensar desde já sobre tudo isso para 2018? Já é tempo de iniciar o planejamento do ano que vem.

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