Brasil e Quênia duelando em 2016. Foto: Fotojump

ARTIGO OPINATIVOA proposta que o World Rugby publicou ontem de uma Liga Mundial com sistema de rebaixamento e promoção, sinceramente, dificilmente sairá do papel, uma vez que o grupo do Six Nations não aceita a possibilidade de rebaixamento – exceto os franceses, que apoiam a proposta. As nações do Hemisfério Sul parecem mais afeitas a ideia do sistema, mas não deverão aceitar um modelo que privilegie as nações do Six Nations.

Mesmo assim, o World Rugby (a federação internacional) quer ir adiante com a proposta, ou ao menos quer transparecer isso. O motivo da criação da Liga Mundial em primeiro lugar é a necessidade atual de se elevar as receitas das federações nacionais, que estão cada vez mais pressionadas pelos clubes ingleses e franceses. E com atualmente 56% do calendário internacional sendo composto por amistosos as oportunidades comerciais não estão sendo devidamente exploradas.

Se o World Rugby parece firme em sua posição de haver uma Liga Mundial e que ela ajudaria o calendário, é importante dizer que não é bem assim. O problema dos jogos em excesso na reta final da competição já causou revolta da parte dos atletas. Mas há mais por tás.

Em excelente artigo opinativo, o ex jogador irlandês Gordon D’Arcy comentou que o rugby internacional ainda não resolveu um problema evidente e primordial: o calendário de seleções não é unificado. O irlandês pontuou que todas as seleções deveriam jogar nas mesmas datas, mesmo porque as equipes do Norte enfrentam as do Sul em momentos diferentes de suas temporadas, o que se reflete no rendimento dos times. A Liga não toca no primeiro ponto que precisa de conserto: as datas do calendário. E, lógico, no impacto do calendário sobre atletas.

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Para D’Arcy, quem hoje precisa de uma solução urgente é o Rugby Championship, que vive em crise e cada vez menos interessante pela hegemonia avassaladora dos All Blacks. Portanto, a solução passaria antes pela remodelação do sistema de competições do Hemisfério Sul e seu calendário e não é por acaso que a Liga tenha partida de lá – e não do Six Nations, que está confortável em sua situação atual – para a infelicidade da Geórgia.

Fica fácil assim de ver como as soluções começaram a ser debatidas pelo caminho equivocado. E na próxima semana haverá nova reunião para se decidir o futuro da competição, que seria iniciada em 2022.

 

O que significa para o Brasil o modelo do World Rugby?

Vamos assumir que a discussão mais importante, que é a levantada por D’Arcy, não tenha espaço e que a Liga seja o destino. Qual seria a cara da Liga?

Primeiramente, a imagem publicada pelo World Rugby da distribuição de grupos é apenas um exemplo! Muita gente acreditou que ela seria a proposta real, mas não é. Os grupos só seriam definidos mais adiante, com base no Ranking, e por isso subir no Ranking é extremamente importante para o Brasil.

Vou usar o Ranking atual para sugerir como poderia ser a competição, baseado no modelo proposto. Porém, com alguns ajustes, como por exemplo a Itália na 1ª divisão, apesar de estar abaixo da Geórgia no Ranking, pois a competição começaria com o formato atual do Six Nations compondo a 1ª divisão.

No Ranking atual, o Brasil estaria 1 posição abaixo da necessária para entrar na 2ª divisão.

1ª divisão

  • Conferência Europeia (Six Nations): Irlanda, Gales, Inglaterra, Escócia, França e Itália
  • Conferência Resto do Mundo (Rugby Championship): Nova Zelândia, Austrália, África do Sul, Argentina, Fiji e Japão;

2ª divisão

  • Conferência Europeia: Geórgia, Rússia, Romênia, Espanha, Bélgica, Alemanha;
  • Conferência Resto do Mundo: Tonga, Samoa, Estados Unidos, Uruguai, Canadá e Namíbia;

3ª divisão

  • Conferência Europeia:
    • Grupo A: Portugal, Malta, Croácia e Bósnia;
    • Grupo B: Holanda, Suíça, Suécia e Luxemburgo;
    • Grupo C: Polônia, Tchéquia, Israel e Chipre;
    • Grupo D: Lituânia, Ucrânia, Moldávia e Hungria;
  • Conferência Resto do Mundo:
    • Grupo Sul-Americano: Brasil, Chile, Paraguai e Colômbia;
    • Grupo Norte-Americano: México, Ilhas Cayman, Guiana e Trinidad e Tobago;
    • Grupo Ásia/Oceania: Hong Kong, Coreia do Sul, Sri Lanka e Malásia;
    • Grupo África: Quênia, Uganda, Zimbábue e Tunísia;

Em um eventual mata-mata, poderíamos ter:

  • Promoção/Rebaixamento 1ª-2ª divisões: Itália x Geórgia, Japão x Tonga;
  • Playoffs 3ª divisão:
    • Europa: Portugal x Lituânia, Holanda x Polônia -> Portugal x Holanda;
    • Resto do Mundo: Brasil x México, Hong Kong x Quênia -> Brasil x Hong Kong;
  • Promoção/Rebaixamento 2ª-3ª divisões: Bélgica x Portugal, Namíbia x Brasil;

 

E o que mais significaria?

A resposta é simples. O Americas Rugby Championship provavelmente deixaria de ser disputado para ser substituído por esse novo modelo.

Estando na 3ª divisão, o Brasil teria um calendário menos interessante que o atual. Haveria uma perda na qualidade dos oponentes. Mas subindo para a 2ª divisão os Tupis teriam um calendário superior, que incluiria jogos regulares com seleções como Samoa e Tonga, além dos rivais fortes atuais como EUA, Canadá e Uruguai (porém todos compelidos a usarem força máxima sempre).

 

Há mais alternativas?

Como estou cético de que o World Rugby será capaz de quebrar a rejeição do Six Nations ao rebaixamento, não podemos ainda descartar o modelo vazado pela imprensa na semana passada: o modelo sem rebaixamento, com Japão e EUA entrando para o Rugby Championship.

Entre os maiores riscos que a Liga Mundial traz é a redução do valor e interesse pela Copa do Mundo. E isso combinado com um modelo fechado, sem rebaixamento, poderia ser desastroso para nações emergentes como o Brasil.

Uma alternativa caso o impasse persista seria, mas a pressão por uma Liga Mundial persista, o caminho que reduziria os prejuízos para o segunda escalão seria, na minha opinião:

  • Aceitar que o Rugby Championship incorpore EUA e Japão (afinal, tal proposta é boa demais economicamente para o Rugby Championship rejeitar);
  • E propor uma Liga Mundial com 16 times, divididos em 4 grupos e disputada somente em julho e novembro, separada do Six Nations e do Rugby Championship.
  • Tal modelo teria problemas de calendário, pois seria preciso que em cada grupo houvesse 2 europeus e 2 times de um mesmo outro continente/região para reduzir os problemas com viagens e poder dividir os jogos entre julho e novembro racionalmente. Por isso, eu enxergo algo assim:
    • Grupo A: 2 Six Nations e 2 Oceania/Ásia; Grupo B: 1 Six Nations, 1 Resto da Europa e 2 Oceania/Ásia; Grupo C: 1 Six Nations, 1 Resto da Europa e 2 África/Américas; Grupo D: 2 Six Nations e 2 África/Américas;

Sinceramente eu não creio que nenhum dos dois modelos hoje na mesa prevalecerá e que uma terceira via precisará ser proposta, isto é, um meio termo entre as necessidades de aumentar os lucros do 1º escalão (na batalha deles contra o poderio dos clubes) e de não fechar a porta para o 2º escalão.

 

Existem modelos mistos no mundo?

Para finalizar, gostaria de trazer à luz um outro modelo que existe no mundo que mistura a proposta de uma liga fechada, para não se perder mercados importante, com a proposta de uma liga aberta a novos participantes por mérito.

O modelo está na Euroliga de basquete (EuroLeague). Atualmente a competição máxima de clubes do basquete europeu conta com 16 times, sendo 11 fixos (11 clubes que compraram licenças para permanecerem na liga por um determinado número de anos) e 5 equipes classificadas por competições nacionais ou regionais, variando todo ano.

O modelo também ganhou críticas pelo privilégio concedido a um seleto grupo de clubes, mas buscou conciliar duas demandas aparentemente opostas. Em termos de encontrar uma saída para o dilema do “aberto vs fechado”, vejo o mundo do rugby de seleções exatamente no mesmo dilema do basquete europeu de clubes.

Pessoalmente, sou favorável a um sistema inteiramente aberto, mas tenho minhas dúvidas ainda sobre o benefício que uma liga anual de seleções traria, pensando no dano que poderia causar à Copa do Mundo. De qualquer modo, dialogando com a realidade, uma terceira que misture os dois interesses pode ser uma solução – longe do ideal, porém factível.

Ainda assim, nada faz sentido de ser realmente debatido antes que o tamanho e a distribuição do calendário sejam discutidos seriamente.

E aí, o que você acha?

2 COMENTÁRIOS

  1. Não acho uma boa ideia acabar com ARC, o campeonato agora esta criando rivalidades, o nível esta aumentando, esta ajudando principalmente o Brasil a chegar em outro patamar. Acho que sim de veria ter uma segunda divisão no ARC e o ultimo colocado jogar contra o campeão da segunda divisão para permanecer na primeira, este ano seria o Chile.
    As seleções do Six Nation não vão abrir mão de ser fechado o campeonato, infelizmente o Rugby é muito fechado em relação a mudança, vide a mudança do amadorismo para o profissional que demorou anos, e as seleções tradicionais não abrem espaços para as novas nações do Rugby.
    A entrada do Japão e EUA no Rugby Championship é quase certa, acho que abriria um mercado maior para a competição, sendo que vai esbarrar na mesma questão do Six Nation, vai continuar sendo um campeonato fechado. E não vai abrir chances para outras seleções entrarem.
    E a liga mundial vai ser uma grande furada, olhando para o Voley que trabalha com Liga mundial de seleção, são torneios que rola o ano todo, é confuso, as seleções viajam muito, e cansativo…. E a copa do mundo de Voley acaba se tornando em mais um torneio e que muita gente acha que é mais uma partida da Liga Mundial. Então fato que a Copa do Mundo de Rugby perderia sua importância. E as viagens que algumas seleções fariam são inviáveis, exemplo Uruguai que teria que dar uma volta ao mundo para jogar a liga. Mas fácil a World investir mais na promoção e crescimento do Rugby fora do eixo. Exemplo apoiar o crescimento do Paraguai e Colômbia que tem tudo para crescer e só precisa de um apoio para se tornar mais forte.

  2. Basicamente é tudo que o sanrj7 disse. Penso que essas ações seriam legais.
    1. Incluir EUA e Japão no rugby Championship.
    2. Promover a segunda divisão do ARC com Paraguai, Colômbia, Peru, Costa Rica e México com sistema de ascenso.
    3. Criar um novo torneio que misture Ásia e Pacífico: Hong Kong, Coréia do Sul, Fiji, Tonga, Samoa e Japão B/desenvolvimento.
    4. Forçar a entrada da Geórgia no Pro 14
    5. Agilizar a Liga das Américas de Franquias
    6. Para 2023 lançar o Mundial com 24 seleções