Ele voltou! Lucas “Bagé” Vieira reaqueceu sua coluna “Rugby na Estrada” falando sobre a aventura brasileira no Rugby League! Bagé defendeu o Brasil no Campeonato Latino-Americano no Chile em novembro e contou como foi!

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No mês passado rolou uma oportunidade bem diferente, eu estava no computador quando meu amigo mandou uma mensagem “Quer ir jogar no Chile?”, aceitei na hora e só depois fui ficar sabendo do que se tratava, era o campeonato Latino Americano de rugby LEAGUE, isso mesmo, League. Um grupo chamado Latin Heat, comandado pelo queridíssimo Robert Burgin, um Australiano casado com uma brasileira, tem o intuito de instalar o league na América do Sul, o convite assim de última hora se deveu a desistência do México uma semana e meia antes do campeonato, fazendo com que o Brasil fizesse um “catado” nesse período, com jogadores de Minas, Rio e PR, então foi tudo muito rápido mesmo e quase ninguém ficou sabendo.

 

Aceitei e nos organizamos para viajar, alguns sairiam do Rio, outros de SP e outros de Curitiba (meu caso), chegamos em Santiago no Chile na sexta feira dia 27 e de lá pegamos um ônibus para uma cidade a 7 horas de viagem, Los Angeles, no sul do Chile, não contávamos com a falta de organização dos chilenos, que foram péssimos anfitriões por sinal, nos deixando dormir na rodoviária e consumindo toda nossa energia que precisaríamos para o jogo no dia seguinte, mas isso fica para outra hora, vamos focar no jogo. Sábado de manhã nos reunimos no campo que ficava no alojamento para treinarmos juntos e acertar os pormenores, visto que quase ninguém se conhecia, e, pasmem, aprender as regras do league ahahaha, não foi muito difícil organizar o time visto que no rugby league o time é muito mais homogêneo do que no union, apenas deixamos os mais inexperientes no scrum, já que não é disputado no league, para deixar os mais experientes com espaço para correr, o entrosamento do time foi muito mais fácil já que todo mundo ficou amigo quase que instantaneamente, o clima foi muito bom entre todos os jogadores. São muitas coisas diferentes, regras que deixam o jogo mais dinâmico e com menos paralisações, um ritmo muito intenso mesmo, imaginem um touch com as regras corretas e bem jogado cheio de contato físico, cheio mesmo.

 

A tarde fomos para o local do jogo, o ônibus da Argentina nos deu uma bela de uma carona, inclusive os argentinos foram nossos irmãos no campeonato ajudando com tudo que conseguiram, fica aqui nosso obrigado aos hermanos. Nosso primeiro desafio era contra os anfitriões, Chile, um time experiente com 5 australianos, um inclusive jogava a 3a divisão da NRL na Austrália, um time super pesado, quase inacreditável o que aqueles 13 forwards gigantes conseguiam correr e jogar de mão, contra o nosso time, um catado com a maioria dos jogadores jovens promissores de São Lourenço, equipe do encarregado de organizar a seleção, o Hugo Fróes, mas ainda com pouquíssima experiência, alguns inclusive fazendo seu primeiro jogo, aí completava o time BH, Niterói,Cachoeiras, Curitiba, Urutau, Maringá (Pé Vermelho) e Guanabara, e mesmo com a falta de experiência conseguimos fazer frente ao Chile no primeiro tempo, acabando com o placar de 10×04 (4 pontos o try, 2 pontos a conversão), mas o cansaço bateu no segundo tempo, as lesões apareceram e faltaram os reservas, tínhamos apenas 2 em condições de jogo, e o Chile começou a trocar, no rugby league você pode sair e voltar, apenas uma vez, porém pode fazer isso, eles usaram e abusaram das substituições para encerrar o jogo em sonoros 51×10.
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Um detalhe engraçado é que, devido a falta de tempo hábil  tanto para nós, quanto a organização se organizar, não tinhamos uniforme, então a organização nos cedeu o uniforme dos árbitros, que era amarelo com preto, no segundo dia jogávamos contra a Colômbia, que tinha o uniforme muito parecido, então tivemos que jogar com o jogo de camisas dos Rabbitohs, tradicional equipe da Austrália, todos os uniformes ficaram de presente graças ao querido Robert.

 

Seria até difícil mensurar o quão cansativo foi o jogo, fisicamente o League exige muito mais do que o Union, o jogo quase nunca para, você está sempre correndo, os tackles são fortíssimos e constantes, tanto defendendo quanto atacando, as dores não mentem, elas tomaram conta do corpo inteiro, porém no dia seguinte ainda teríamos o jogo contra a Colômbia que havia perdido da Argentina no sábado, novamente tivemos problemas de logística e fomos conseguir chegar em casa lá penas 22:30 do sábado, minando mais ainda as poucas energias que ainda tínhamos. Domingo repetimos a dose, treinamos de manhã e fomos para o jogo contra a Colômbia, que também contava com um australiano no time, jogo começou com o domínio dos colombianos marcando 14×0 no primeiro tempo, demorou para o Brasil acordar porém acordamos, aos 74 minutos viramos para 18×14, mas ao apagar das luzes a Colômbia conseguiu a virada para 20×18, encerrando assim a primeira e histórica participação da seleção brasileira de rugby league num campeonato oficial, entrando para o ranking da RLIF.

 

No domingo era difícil andar, não dava pra tirar a camiseta pois a dor era insuportável, não tinha uma articulação no corpo que não doía, o cansaço era intenso, os movimentos lentos porém todo mundo feliz pela experiência. O league, embora marginalizado no Brasil, tem muito a ensinar para o Union, principalmente para o union nacional onde, segundo estudos, a grande maioria dos tries são marcados antes mesmo da segunda fase, mostrando a falta de trabalho coletivo e a individualidade para chegar ao try, no league as 6 fases que temos para chegar ao try nos ensina a sermos mais calmos, trabalhar melhor a bola, ser mais consciente do que fazer em cada parte do campo até chegar ao in goal, também ajuda na questão do contato físico, se algum atleta não se sai muito bem no contato, põe ele para jogar league e em 10 minutos de jogo estará tackleando e tentando furar a defesa, melhora também a questão do jogo de mão e corrida de linhas, sem contar no preparo físico, a defesa tem que voltar 10 metros após cada tackle, pelo fato de não ter ruck essa corrida deve ser feita rápida e de costas, o que torna muito mais cansativo para defender nas fases subsequentes, definitivamente o league é muito divertido e uma opção de rugby que pode e deve ser aproveitada e explorada, abre o olho CBRu.

 

Após o sucesso com os atletas que participaram, o Robert quer investir no Brasil, talvez o primeiro campeonato de clubes esteja chegando ai, vamos torcer que dê certo.

 

Fica aqui os nossos agradecimentos ao Robert, uma excelente pessoa que fez de tudo para nos ajudar lá no Chile e compensar a falta de responsabilidade dos chilenos, à organização Latin Heat e  parabéns a toda delegação que deu a cara a tapa mesmo sem nem saber onde estávamos nos metendo, especialmente ao Liniker Faria, que ganhou como melhor jogador do Brasil e deixou seu try nas duas partidas e ao Earle (Tio San) que foi lá cuidar de nós, obrigado e até a próxima!