Parisse em seu último jogo pela Itália, atuando contra a África do Sul no Mundial 2019. Foto: Bruno Ruas @ruasmidia

ARTIGO OPINATIVO – A coluna “Voz do Rugby” é aberta a colaboradores e ao público em geral para mandar seus textos. Hoje, com a palavra, nosso colaborador e comentarista do Ovalcast, Djalma “Acerola” Assunção. Um artigo original do FairPlay.pt

Dia 31 de outubro de 2015. Quase todos os olhos do planeta estavam ligados na televisão, além dos milhares de privilegiados que estavam nas arquibancadas, testemunhando o triunfo de uma geração considerada uma das melhores equipes da história do rugby.

Após 80 minutos de mais um embate de proporções gigantescas entre All Blacks e Wallabies, no sagrado templo de Twickenhan,  Ritchie Mccaw, capitão e lenda viva dos homens de preto, ergue pela segunda vez a taça Webb Ellis e a Nova Zelândia torna-se tricampeã mundial de rugby. Tal qual alguns de seus fiéis companheiros como Conrad Smith, Dan Carter, Ma’Nonu, ele diz adeus à seleção de forma gloriosa. E também uma despedida definitiva do esporte no caso do camisa 7, após 148 jogos internacionais e inúmeros títulos.

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Pulemos para abril de 2020. O planeta inteiro em choque por causa de um novo vírus que ceifa vidas e altera drasticamente a rotina de todas as pessoas, alterando planos e trazendo incertezas.

Entre tantas notícias tristes e a expectativa de que novos tratamentos possam trazer mais esperança e promessas de uma volta ao normal em breve, deparo-me com a notícia de que o ex-wallabie Matt Giteau, que também estava presente naquele jogo de 2015, não sabe se conseguirá fazer um último jogo na sua vitoriosa carreira. Um dos maiores centros/aberturas australianos, com mais de 100 partidas pela seleção, pode deixar os campos sem um merecido reconhecimento do público. A federação japonesa, seguindo o exemplo de tantas outras pelo mundo,  anunciou a suspensão da temporada 2019/20 da Top League, campeonato onde Giteau tem desfilado todo seu talento nos últimos anos.

Para entender a importância deste jogador: em 2015 a Federação Australiana de Rugby criou uma lei, conhecida informalmente como Lei de Giteau, que permitia aos jogadores que estivessem no estrangeiro, mas cumprissem certos requisitos, pudessem jogar na seleção, para poder contar com ele e Drew Mitchel na Copa do Mundo.

Mas, agora aos 37 anos de idade, talvez não haja mais fôlego e disposição para encarar mais um ano neste esporte que exige tanto fisicamente. Ainda mais depois de tempos tão melancólicos.

Imediatamente lembro que o (quase) interminável Sergio Parisse também espera que a sua querida Itália consiga vencer esta terrível pandemia e que em um futuro próximo ele consiga fazer a sua tão sonhada despedida da seleção italiana, de preferência, em casa, diante dos seus, trazendo um pouco de alegria a um país tão afetado por este vírus. O experiente terceira linha de 36 anos – um dos melhores oitavos do mundo – esperava ter alguns minutos no jogo que os Azzurri fariam em Roma pelo Six Nations contra a Inglaterra. Mas, por enquanto, o rugby não é a prioridade.

Uma das últimas imagens da atual edição do Six Nations, inclusive, foi a confusão envolvendo os jogadores ingleses e galeses e  o polêmico “carinho” feito pelo sempre irreverente primeira linha Joe Marler no discreto e reservado Allun Wyn Jones. Durante a partida não houve sanção, mas a Federação Internacional analisou as imagens e impôs uma sanção de dez semanas a Marler. Tal pena, aliada a repercussão negativa nas redes sociais, levaram-no a pensar seriamente em encerrar a carreira, mesmo ainda tendo alguns bons anos de rugby pela frente.

Bom lembrar que em setembro de 2018 ele já havia anunciado sua aposentadoria, mas o técnico Eddie Jones convenceu-o a voltar aos gramados, ao seus queridos Harlequins e à seleção. Decisão acertada, visto que ele foi peça importante na grande campanha que os vice-campeões fizeram na última Copa do Mundo. Mas, qual será o desfecho agora? Pendurar as chuteiras tendo como última imagem tão bizarro ato?

Durante as próximas semanas, talvez meses, muitos jogadores repensarão o que será de suas carreiras, assim como todos nós reles mortais. Mas, após nos presentear com tantos belos momentos de puro escapismo, alguns destes craques bem que mereciam receber uma última vez os aplausos daqueles que os acompanharam por todo este tempo, mesmo que não seja em uma partida tão espetacular como aquela de outubro de 2015.

Texto por: Djalma Das