Foto: Welsh Rugby Union

Atualmente na gestão da Federação Gaúcha, educador World Rugby de arbitragem e leading rugby, Lucas Toniazzo colocou no papel uma ideia importantíssima para transmitir aos clubes brasileiro; a busca por Relevância Social. Artigo especial opinativo!

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Faço esse texto com base no que tenho vivido e observado, não somente no Rugby, mas de forma geral. Fazem pelo menos uns 4 anos que venho observando o que de fato faz a diferença para associações esportivas (amadoras) no que diz respeito a longevidade de suas atividades, porém, quero primeiro trazer a realidade que percebo e acompanho.

Inicia ano, finaliza ano e o que se percebe claramente nos Clubes de Rugby é uma corrida de sobrevivência durante os 365 dias do ano, lutando para manter os praticantes que permaneceram de um ano para o outro, o desespero por conseguir novos entrantes para compor elenco e cumprir com regulamentos, o falso positivo que um trabalho de base deve ser feito, a insatisfação por poucos jogos durante esses dias que compõem o ano, a reclamação quanto a arbitragem, escusas, escusas e mais escusas…

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Não sou um pessimista na essência, mas não dá mais para ficar no sonho otimista de que tudo vai mudar e no caso, sou por exagero otimista, o que tem me atrapalhado muito até hoje na área do esporte.
Bom, o ano começa com cobranças de calendários e regulamentos, quando apresentados e com propostas viáveis de competições não somente para adultos, mas também para base (aí um dos meus problemas por ser positivista) pois se sabe da necessidade de renovação e aumento do número de praticantes, junto vem uma assembleia onde o objetivo é equalizar a realidade geral e definir o que de fato pode ser feito, aí começa a evidência atual da nossa modalidade:
  • Baixa adesão por parte das pessoas decisórias de clubes presentes em assembleia;
  • Desconhecimento da realidade do Clube para poder tomar a decisão
  • Tomada de decisão baseada no “Se” (se começarmos agora, dá para participar)
  • Atitudes limitadoras ao invés de inclusivas com discussões sem fim de obrigatoriedades e multas para caso os “Se” ocorram
  • Valores que hoje se sobrepõem a capacidade de captação da grande maioria (é possível captar e existe recursos e meios diferenciados para isso)
Entre outros pontos que todos estamos cansados de viver ano após ano. “Bueno”, não vou me estender muito mais nessa introdução, até porque o objetivo não está no posicionamento negativo, como descrevi, não pessimista. O que pretendo com isso é mostrar que estamos míopes e esquecemos de algo fundamental: Relevância local, explico.
Reflita sobre as seguintes questões:
  • “Se hoje meu Clube viesse a deixar de existir, alguém da minha cidade iria notar?”
  • “Teríamos alguma manifestação local (pais, escolas, bairros, empresas, poder público) querendo ajudar para não deixar que o Clube acabe?”
  • “Nos auxiliariam com espaço aberto em tribuna municipal para clamar por ajuda/auxílio?“
  • “Seríamos dignos de nota em jornal municipal para solicitar apoio?”
  • “Federação/Confederação sentiria a ausência do Clube?”
Vivemos algo chamado tempo e nele podemos atuar de todas as formas. Olhando apenas o mundo intra, ou seja, apenas nossa modalidade onde nos preocupamos em competir e levantar uma taça, o que de fato entregamos para nossa comunidade? Que relevância há em erguer a taça? Quantos se beneficiam com essa taça levantada?, lembrem que viver em sociedade é uma troca, onde deveríamos ajudar um ao outro, porém, nessas questões temos claro quem de fato está se beneficiando.
Buscar Relevância Local é garantir que o apoio recebido na sociedade está de fato mudando a realidade e somando em: educação, saúde, segurança, economia, revitalização de área entre outros mais. Não quer dizer que tenha que impactar em tudo, mas em algo a existência e atuação do Clube deve estar impactando.
Um fato: todo Clube almeja em sua cidade um campo para treinamento/jogo ou mesmo ambulância em dias de jogos. Agora, pensemos: somos apenas mais um Clube de esporte dentro da cidade, porque motivo deve meu Clube ter esses benefícios? Outro fato, todo projeto de Lei ou simples projeto, deve apresentar número de beneficiados, esse já é um indicador que por padrão deveria ser levado em consideração. Não apenas para justificar investimento financeiro, mas para mostrar teu potencial de Relevância Local.
Fazer um trabalho de base não é somente para ter mais praticantes, mas sim para mostrar que somos capazes de fazer a diferença. Que somos capazes de educar pelo esporte, ou melhor, transformar pelo esporte. Uma equipe competitiva adulta e atuante não somente nas quatro linhas é referência para quem está nas categorias menores e também, para a sociedade que vê nesses adultos o interesse em ter pessoas diferentes vivendo dentro das suas relações.
Não te preocupes única e exclusivamente com as competições, pois elas ocorrem todos os anos, o potencial de justificativa de patrocínio por estar competindo ainda é baixo e se comparado com atuação de criação de escolinhas crianças e adolescentes, se justifica menos ainda.
Os negócios/empresas locais estão preocupados com seus próximos, com a oportunidade de ter pessoas tendo a atenção devida. Tenha por certo, a recorrência de patrocínio é muito maior quando aplicada em crianças e adolescentes do que em competições que ainda não proporcionam o devido retorno de mídia.
Busque garantir o “sim” para as questões do início do texto, aproveite o tempo e toda a sua energia para que nos próximos anos seja capaz de construir algo sólido e, daqui um tempo olhar para trás e sorrir, vendo que o que foi plantado germinou e irá crescer mais ainda.
Torne seu Clube relevante. Competir é bom, mas poder competir com constância no tempo é melhor ainda.
Isso é um pouco do que penso e do que tenho buscado fazer, gerar oportunidade para que todos busquem seus espaços locais e sejam Relevantes de fato.
Texto por: Lucas H. G. Toniazzo (54 99650 4253)

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