O Portal do Rugby criou um novo espaço: a coluna “Voz do Rugby”, para a qual convidamos leitores e colaboradores a produzirem artigo opinativos analisando temas de nosso esporte. O artigo de estreia é de uma figura ativa dentro do Portal do Rugby e do Mesa Oval: Diego Gutierrez. Mestre em Sociologia do Esporte pela USP, que trouxe um outro lado para a discussão sobre os investimentos da CBRu no alto rendimento.

E você, quer enviar seu artigo? Mande por email para victor@portaldorugby.com.br. O artigo precisa estar escrito de forma coerente (atentaremos à forma e ao português), manter o decoro (o que não impede de ser crítico… queremos artigos que se posicionem sim) e ter respeito pela diversidade do nosso público e de opiniões (mas ataques pessoais de qualquer natureza, machismo, racismo ou homofobia não serão tolerados).

Os temas são livres! Educação física e treinamento, análise tática ou técnica, saúde, arbitragem e leis do rugby, gestão esportiva, economia do esporte, política esportiva, valores do rugby, memória do rugby, comentários sobre as notícias do rugby nacional ou internacional. Queremos estimular o debate!

 

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Fazer rugby profissional custa caro – por Diego Gutierrez

Nos últimos dias uma reportagem do site Uol sobre as dívidas contraídas pela CBRu gerou polêmica no rugby brasileiro. Trazendo a tona novamente a eterna discussão entre o fomento das categorias de base e dos clubes contra o investimento na seleção masculina. Nos comentários duas frases são usadas constantemente pelos críticos, “não existe almoço grátis” em relação às dívidas e “hipotecamos o futuro” em relação à falta de investimento nas categorias de base.

Nessa coluna gostaria de adicionar mais um conceito econômico, o de “Trade Off”, em um mundo com recursos finitos não existem decisões completamente certas ou erradas, o que há é o investimento em uma área em detrimento das outras. A CBRu fez sua escolha, quer ver a seleção masculina adulta jogando a Copa do Mundo, e considera que este é o caminho mais saudável para o rugby brasileiro. Poderia haver uma mudança de rumo e o dinheiro seria  realocado para os clubes, nesse sentido o investimento na seleção masculina adulta diminuiria o que invariavelmente se refletiria no campo. A pergunta que essa coluna quer deixar para o leitor é, queremos, nas próximas décadas pelo menos, voltar a disputar com Chile e Paraguai as últimas posições no sul-americano?

A qualidade dos clubes e o tamanho das categorias de base não são garantia de vitórias no alto rendimento. Países muito diferentes entre si como Paraguai, Bélgica e Holanda, possuem um rugby bem organizado, apesar de pequeno, com clubes estruturados e uma base muito maior que a brasileira, mas não vão ganhar da nossa seleção porque no esporte profissional o que manda é o dinheiro.

O esporte de alto rendimento é insanamente caro e especializado. Os campeões são selecionados, às vezes com exames invasivos, a partir de seu perfil físico, densidade óssea, fibra muscular entre outros, após isso são enviados para centro de treinamentos onde são acompanhados pelos melhores profissionais do ramo. As imagens de criancinhas jogando rugby com cocos nas praias de Fiji ou correndo descalças nas favelas da Jamaica, onde a vontade e a dedicação superam barreiras, existem mais nas propagandas da Nike do que na realidade.

O rugby, é verdade, é uma modalidade onde dedicação e vontade podem superar qualquer barreira, mas essas histórias são exceções, muitas vezes vendidas como regras. Todos os neozelandeses amam rugby e sonham em ser All Black, mas a verdade é que apenas 10 escolas da Nova Zelândia contribuiriam com 25% dos atletas que vestiram a camiseta negra[1],  o mesmo se repete na África do Sul onde o Paul Roos Gymnasium em Stellenbosch formou 51 Springbooks desde 1906[2].

A seleção fez uma excelente gira pela Europa, o que alegrou muita gente, mas jogar de igual para igual nesse ambiente custa caro. O orçamento anual do Racing é de 24 milhões de euros[3], e para se ter uma ideia do tamanho disso, na Fédérale 1, terceira divisão francesa semiprofissional, os orçamentos variam entre 600 000 e 3 milhões de euros por ano[4] .

O ponto final dessa coluna é que no médio, até mesmo longo prazo, não haverá dinheiro para fomentar a seleção e os clubes ao mesmo tempo e teremos de decidir, mais de uma vez, se queremos ver os Tupis vencerem ou a CBRu ajudando os clubes, e tenhamos um ambiente interno competitivo, mas internacionalmente menos expressivo.

 

[1] https://www.newstalkzb.co.nz/photos/sport/producers-schools-with-great-all-black-pedigrees/

[2] http://www.rugby15.co.za/schools-that-has-produced-the-most-springboks-rugby-players/

[3] http://www.parlonsrugby.com/budget-top14-rugby/

[4] http://www.rugbyfederal.com/forum/viewtopic.php?id=24691