O Blog do Rugby dá seu pontapé inicial em 2012 com entrevistas temáticas: Brasileiros que se arriscam no exterior. A ida de Lucas Duque (Tanque) e Moisés Duque à França em busca de um lugar no rugby profissional europeu fez necessária a retomada de outras histórias de brasileiros que se arriscam e se arriscaram no rugby europeu em busca de um lugar ao sol. Fernando Portugal, ex-jogador do São José, e atualmente no Bandeirantes, atuou de 2005 a 2007 no Segni Rugby Football Club, equipe que disputava a Serie A italiana (a segunda divisão da Itália). Foi atleta profissional na Bota, jogando ao lado de seu parceiro de seleção brasileira Erick Cogliandro, o Putim.

O Blog do Rugby agradece imensamente Fernando Portugal por lançar a ideia desta futura série de entrevistas e por nos fornecer tamanho acervo de fotos. E o Blog do Rugby também retifica a informação passada anteriormente, dizendo que os irmãos Duque seriam os primeiros brasileiros profissionais na Europa. Na verdade, a experiência de Portugal e Putim na Europa foi inquivocamente profissional, e essa é uma história que não pode ser esquecida. Valeu, Portuga!

 

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Portugal, como foi seu caminho do Brasil à Europa? Como você conseguiu materializar o sonho de jogar rugby na Europa? Quais foram seus maiores apoiadores nessa empreitada?

A decisão foi tomada junto com o Erick (Putim), parceiro de seleção e naquele momento de clube, o São José Rugby. Como eu não tinha dinheiro para comprar a passagem, os meninos da São Francisco, faculdade de Dierito da USP, time que eu dava treino, fizeram uma vaquinha e me pagaram a passagem pra Roma. Lá, eu e o Erick saímos em busca de clubes para fazer testes e, sem nenhum contato, procurávamos times na internet. Um tio do Erick, que morava na região de Roma, nos ajudou durante os dois primeiros meses, até conseguirmos um time.

Quando tomamos uma decisão como essa precisamos de apoio. Não é fácil. A opinião da família e namorada vale muito. Os amigos sempre me incentivaram, afinal, era um sonho comum a todos. A verdade é que quando decidi viver meu sonho, todos ao meu redor me apoiaram, inclusive financeiramente.

 

Por que escolheu a Itália? E como chegou ao Segni?

Gostaria de jogar rugby profissionalmente e procurei um país onde isso era possível. Não conhecia o nível de rugby do Campeonato Italiano, mas vendo a seleção da Itália jogar e comparando com seleções como França e Inglaterra, que também possuem campeonatos profissionais em seus países, imaginei que era um nível de rugby que eu pudesse conseguir. Depois, seria a porta de entrada na Europa.

Fizemos testes no Colleferro Rugby, mas, como era uma equipe de Série B, onde a lei não permitia que "extra-comunitários", estrangeiros sem nacionalidade dentro da Comunidade Européia, jogassem, procuramos naquela região outra equipe. O Segni Rugby, era o único time próximo de onde estávamos hospedados que jogava a Série A. Corremos pra lá pra fazer o teste, pois o campeonato começava em algumas semanas. Conseguimos. O Erick se machucou em uma partida amistosa antes de começar o campeonato e voltou para o Brasil. No ano seguinte ele voltou e jogou a temporada completa.

 

Como era a estrutura que você encontrou no Segni? Poderia traçar um paralelo com os clubes do Super 10 brasileiro?

A primeira vista era a estrutura física a grande diferença. Um campo próprio de rugby, com uma pequena arquibancada, que lotava em dias de jogos. Vestiários, sala de fisioterapia e uma pequena academia ao lado do campo. Tudo o que pouquíssimos times no Brasil possuem. O Segni era uma equipe considerada semi-profissional, pois nem todos os jogadores recebiam para jogar, apenas os estrangeiros. Por outro lado, nenhum jogador pagava absolutamente nada para jogar. Todos ganhavam os uniformes de passeio e de jogo no inicio da temporada. Quando jogávamos fora de casa e a cidade era há mais de 2 horas de viagem íamos um dia antes de ônibus, ou avião, e ficávamos hospedados em um hotel com todas as despesas pagas pelo clube. Mesmo para aqueles que não eram profissionais, a única preocupação era se preparar bem para jogar.

 

Como era o seu contrato com o clube? Quais as dificuldades que você passou na Europa para se manter?

Tive dois contratos diferentes durante os dois anos que lá estive. O primeiro ano foi dificílimo. Na minha ingenuidade e medo de negociar valores e não ser aceito, pedi apenas uma casa para morar e um emprego. E foi o que eles me deram. A dificuldade veio no fato de que o emprego era de "muratore", isto é, pedreiro. Tive que trabalhar todos os dias da semana como pedreiro e ainda ter que provar a cada treino e jogo que um brasileiro poderia jogar bem rugby. No final das contas foi bom. Carregava de energia durante o dia de trabalho e chegava no treino pensando que algum italiano iria pagar por aquilo. (risos). Também me motivavam os jogos contra equipes profissionais. Ficava o jogo todo pensando, que aquele jogador que estava na minha frente não poderia agüentar mais do que eu, que trabalhava a semana toda como pedreiro e ainda estava ali, no mesmo campo que ele. Me dava força.

O resultado de um ano inteiro de sacrifício e muita perseverança me renderam um contrato profissional na segunda temporada. O treinador e os diretores do clube gostaram muito da minha postura, afinal mesmo naquelas condições nunca reclamei, joguei todos os jogos, tive sorte de não me machucar e não ficar doente, e nunca faltei em um treino.

A segunda temporada ganhei uma casa muito melhor, um carro e um salário para jogar. Nada comparado a um contrato de futebol, mas pude viver um ano muito mais tranqüilo.

 

Qual o nível de jogo que você encontrou na Serie A? Como foi sua adaptação e sua evolução dentro do rugby italiano?

A velocidade, a intensidade dos contatos e a exigência aumentaram muito daquilo que estava acostumado no Brasil. Fisicamente é difícil no inicio. Após as primeiras partidas tinha febre muscular, devido às micro-lesões. Mas, em alguns meses, acabava a partida e nem parecia que tinha jogado.

Tecnicamente senti muita dificuldade no ataque. A defesa não te dá muito tempo pra pensar e agir e sempre tem alguém que te "tackleia". Dificilmente furam tackles. Se no Brasil é o atacante que procura o contato, em um campeonato de maior nível é a defesa que vem te buscar.

Porém, me destaquei muito no setor defensivo. Obtive a maior média de tackles por partida da equipe. Foi assim que consegui me manter na equipe titular nas duas temporadas.

 

Como era o dia-a-dia do clube? Qual a intensidade dos treinamentos? Como era a vivência entre os jogadores e a relação deles com o clube? E como era cultivado o espírito do rugby?

O clube não tinha uma atividade de categorias de base muito intensa. Por isso, a equipe adulta usava muito mais as instalações. Treinávamos em campo 3 vezes na semana – terça, quarta e sexta -, e nossos jogos eram aos domingos. Os outros dias eram treinos de academia, e cada um fazia seu horário. As sessões de fisioterapia deviam ser marcadas e feitas durante a tarde. Os treinos eram duríssimos. Sempre com muito contato. Era o estilo do treinador, Rodolfo Ambrósio, um argentino que jogou a primeira Copa do Mundo pela Itália.

O clube proporcionava, pelo menos uma vez na semana, encontros entre os dirigentes e os jogadores. Geralmente faziam um jantar após as partidas. Além disso, os próprios jogadores, que em sua maioria eram habitantes da cidade de Segni e, por isso, muito amigos uns dos outros, criavam encontros e festas, onde sempre éramos, os estrangeiros, convidados. Era um bom ambiente, amistoso e tranqüilo.

 

Como se deu a decisão de retornar ao Brasil?

Os dois anos que passei na Itália foram muito enriquecedores como uma experiência de vida, mas já não era mais um garoto e precisava começar a pensar no futuro, em construir algo de concreto. Tentei negociar com o Segni algum valor que pudesse me proporcionar isso e, como não foi possível, passei a procurar outros times. Como o limite de vagas para jogadores estrangeiros é muito baixo na Série A italiana, 2 por equipe, a concorrência é muito alta, e para um brasileiro as dificuldades são ainda maiores. Deixei todas as minhas coisas lá na Itália e vim de férias para o Brasil, para recarregar as energias e depois tentar um outro país, talvez mais forte como a França, ou mais fraco, como a Espanha. Durante as minhas férias aqui no Brasil as coisas aconteceram diferentes. A relação com a namorada, família e amigos começou a pesar na decisão e resolvi ficar e trabalhar com o rugby por aqui mesmo. A experiência que vive durante aqueles dois anos deveria servir para ajudar um pouco no crescimento do rugby em meu país.

 

O que você considera ter trazido de mais valioso de sua experiência na Itália?

Às vezes eu mesmo me admiro do que eu enfrentei para viver o meu sonho. Acho que essa foi a minha maior lição. Ir buscar aquilo que desejo e não me importar com os obstáculos. Tive dias muito difíceis, mas em nenhum momento me permiti pensar em desistir. Ainda não é uma certeza absoluta viver de rugby no Brasil, e às vezes fico angustiado com o futuro, mas essa experiência me ensinou a ser ainda mais perseverante.

 

Os irmãos Duque estão ganhando uma chance na França. Como você compara a sua ida em 2005 com a ida deles em 2011? Quais as diferenças entre os dois momentos?

Quando me inscrevi na FIR, Federação Italiana de Rugby, eles deram risadas e ficaram surpresos com o fato de eu ser brasileiro. Levei uma carta da ABR dizendo que eu estava liberado e eles disseram: "Nem sabia que no Brasil tinha rugby, quanto mais uma Associação." (risos)

Hoje a realidade é outra. O Brasil já existe no cenário internacional do rugby e, por isso, a recepção a eles será outra. Mas o fato mais relevante são as possibilidades técnicas que eles tem. Quando fui para a Itália já jogava pela seleção brasileira há alguns anos, mas naquela época jogávamos o Sul-Americano B de XV, e o seven jogava apenas um torneio por ano. Hoje, os irmãos Duques têm muito mais bagagem internacional e foram muito mais experimentados do que eu tinha sido quando fui me aventurar. Acredito que eles não só tem muitas chances, mas que irão conseguir chegar muito longe.


 

Por fim, como você enxerga a possibilidade de cada vez mais brasileiros jogarem no exterior? Quais os caminhos e qual a importância desse intercâmbio?

Apesar de nossas seleções jogarem cada vez mais com diferentes escolas do rugby mundial, esse intercâmbio ainda é muito baixo quando pensamos na formação de jogadores competitivos. Por isso, a idéia de termos jogadores nos principais campeonatos do mundo é essencial para a elevação do nível dos jogos das nossas seleções. O caminho ainda não é muito claro e os interessados ainda tem que se aventurar sem muita segurança do que vão encontrar. Talvez fuja um pouco da alçada da CBRu, mas acho que deveriam auxiliar os jogadores. O Brasil ganharia muito com isso.

A medida que mais jogadores tiverem sucesso nesta escolha de vida, mais crianças se espelharão e se dedicarão a essa carreira. A partir daí, o caminho está feito e teremos finalmente jogadores com nível de competir nos principais campeonatos do mundo e levar a nossa seleção para competir em um Mundial.

Fotos cedidas por Fernando Portugal

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