brasil chile 1977

Com 35 torneios em sua história, o Campeonato Sul-Americano de Rugby terá seu pontapé inicial nesse sábado, dia 26, com todo um legado em suas costas. Hora de conhecer um pouco mais do torneio que se avizinha.

Foto: Sul-Americano de 1977, Brasil x Chile. Arquivo pessoal de Leon William Rheims, cedida por Jean Rheims

 

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A inauguração em 1951

O Campeonato Sul-Americano de Rugby não nasceu com seu atual nome. Em 1951, a cidade argentina de Mar del Plata recebeu o direito de sediar os Jogos Pan-Americanos, e a organização decidiu introduzir uma competição de rugby XV extra-oficial, da qual participaram Argentina, Uruguai, Chile e Brasil. Equipe brasileira era chamada de Combinado Rio-São Paulo, pela ausência de uma entidade dirigente no país e pelo fato da maioria dos atletas serem nascidos no exterior. O torneio marcou também o nascimento da União Argentina de Rugby, substituindo a antiga União de Rugby do Rio da Prata, fundada em 1899.

Foi somente em 1958 que o nome “Campeonato Sul-Americano de Rugby” foi adotado, considerado na época a 1ª edição do torneio, o que foi modificado posteriormente com a oficialização do torneio de 1951 como o 1º. Ao longo de 35 edições, o Sul-Americano teve muitos formatos diferentes. Em 1958, foi decidido que o torneio seria realizado de 3 em 3 anos, com o país-sede sendo alternado. Em 1967, ao se completar um ciclo, com chilenos, uruguaios, brasileiros e argentinos recebendo a competição, a organização reduziu sua periodicidade, encontrando o formato bienal. Em 1972, a criação do Sul-Americano Juvenil, também bienal, garantiu que todo ano haveria um Campeonato Sul-Americano, com as categorias adulta e juvenil (M20) se alternando. Tal modelo permaneceu inalterado até 1989, com a modificação no consagrado sistema de disputas, com sede única, sendo feita em 1991. De 1991 e 1997, o Sul-Americano foi disputado sem sede fixa, ainda de dois em dois anos, com todos os países participantes recebendo jogos – modelo retomado em 2014. A periodicidade foi alterada em 1998, quando o torneio voltando a ser disputado apenas um ano após seu anterior. E a partir de 2000 foi estabelecido que o Sul-Americano passaria a ser anual. Entretanto, nos anos 2000, o problema da sede do torneio não seria resolvida, com torneios se alternando com formato de sede única e formato com jogos em mais de um país se alternando.

Em 2000, a CONSUR deu um passo adiante criando o Sul-Americano B, para comportar o crescimento do rugby pela América do Sul e incorporar seleções como Peru, Colômbia e Venezuela. O “Sula” B de 2000, realizado em São Paulo, marcou também o retorno do Brasil aos torneios continentais, afastado desde 1993. Em 2006, a CONSUR expandiu suas fronteiras para a America Central, incorporando a Costa Rica, mas, desde a criação do Sul-Americano B, a entidade não foi capaz de dar um padrão e uma sequência na disputa por vagas na primeira divisão. Uma nova expansão ocorreu em 2012, com a criação do Sul-Americano C, com o campeão da segunda edição, em 2013, o Equador, garantindo inédita vaga na segunda divisão. Dos países da América do Sul hispânica, apenas a Bolívia jamais participou do Sul-Americano de Rugby.

O retorno do modelo do Sul-Americano A com jogos em todos os países em 2014 foi uma reinvindicação dos países participantes, buscando criar eventos em todos os países todos os anos, para atender as expectativas comerciais de todos os países.

 

Hegemonia argentina

Ao longo de mais de meio século de disputas, a Argentina ainda não foi derrotada uma vez sequer. No passado, os argentinos entravam no Sul-Americano com força máxima, como em 1973, quando Hugo Porta esteve no torneio que foi o primeiro a ser realizado no Brasil. O profissionalismo implementado no mundo em 1995 pode não ter sido adotado na Argentina, mas seus principais nomes migraram para a Europa desde então, fazendo da seleção argentina do Sul-Americano, ainda que carregando o nome Pumas, na prática sua segunda ou terceira seleção, em geral composta apenas por atletas que atuam na Argentina e que buscam um lugar ao sol. Ainda assim, em nada a hegemonia dos Pumas foi alterada, com 34 títulos até o momento.

Mas, o torneio não chegará à sua 36ª edição em 2014? Sim, e os Pumas tem 34 títulos “apenas” porque não participaram do Sul-Americano de 1981, alegando prejuízo a seu calendário. Naquele ano, os Pumas teriam no mês de maio (mês do Sul-Americano) uma série de amistosos contra a Inglaterra – quando, liderados por Hugo Porta, empataram com os ingleses em 19 x 19 e perderam por somente 12 x 6 o segundo jogo. Entretanto, a recusa argentina em participar do torneio também foi motivada por tensões políticas dentro da organização sul-americana e pela política argentina naquele momento de enfatizar partidas contra seleções do Hemisfério Norte e fortalecer suas competições internas.

Sem os argentinos, coube aos uruguaios a vantagem, superando chilenos, brasileiros e paraguaios para conquistar seu único título. A curiosidade do torneio de 1981 ficou por conta das três partidas do Chile terem acabado com o mesmo placar: 33 x 3 (em derrota para Uruguai e vitórias sobre Brasil e Paraguai).

Os Teros chegaram em algumas oportunidades a quase frustrar os argentinos. Em 1979, o placar de apenas 19 x 16 para os argentinos em Santiago quase produziu a primeira zebra da história do Sul-Americano. Em 1993, foi um suado 19 x 10 em Montevidéu que deu a taça aos Pumas, ao passo que em 2001 apenas 35 x 21 foi a vantagem argentina.  Para os chilenos, o 11 x 3 de 1961 ainda representa o mais perto que chegaram dos Pumas.

 

Dos chilenos para os uruguaios

Os primeiros anos do Campeonato Sul-Americano apresentaram uma superioridade do Chile sobre o Uruguai na disputa pelo segundo lugar. De 1958 a 1975, os chilenos levaram a melhor sobre os uruguaios em 6 de 8 jogos pelo torneio. Em 1977, a vitória voltou a ser uruguaio, enquanto em 1979 houve o único empate entre os dois até hoje. A partir de 1981, no entanto, os Teros iniciaram uma longa hegemonia, que só seria quebrada quebrada em 2011, quando os Córdores venceram os Teros na Argentina por 21 x 18 – antes, apenas duas vitórias chilenas, em 2001, em amistoso, e em 2002, pelas Eliminatórias para a Copa do Mundo.

A pouca variação nos resultados do Campeonato Sul-Americano também aparece nas partidas entre uruguaios e chilenos contra brasileiros e uruguaios. Desde a vitória do Brasil sobre o Uruguai e o empate com o Chile em 1964, não houve nenhum outro placar no Sul-Americano que não fosse a derrota brasileiras contra seus dois rivais.

No caso do Paraguai, a situação não é muito diferente. Os Yacarés jamais derrotaram os Teros na história, mas tiveram o orgulho de um empate em 1985. Contra o Chile, o Paraguai mudou sua história em 1993, quando derrotou os Cóndores em Santiago do Chile por históricos 25 x 24, até hoje a maior vitória do rugby paraguaio.

Nos duelos entre brasileiros e paraguaios é onde mora realmente o equilíbrio na América do Sul. Em 17 duelos válidos por Sul-Americanos, o Paraguai venceu 9 partidas e o Brasil 8. Dos 5 primeiros duelos, entre 1971 e 1979, foram 4 vitórias brasileiras e 1 paraguaia. Porém, de 1981 e 2004, o Brasil não venceu nenhuma vez os Yacarés em jogos pelo torneio continental. O tabu caiu em 2008 pelas Eliminatórias para a Copa do Mundo de 2011, mas no Sul-Americano o jejum se encerrou apenas em 2009. Desde então, o Brasil venceu mais 3 partidas, ao passo que os Yacarés triunfaram somente no Cross-Border de 2010.

 

Brasil entre idas e vindas

Enquanto Uruguai e Chile disputaram todas as edições do Sul-Americano até hoje, Brasil e Paraguai tiveram idas e vindas. Os paraguaios têm uma história mais contínua no torneio. Depois de ingressarem no “Sula” em 1971, os Yacarés só deixaram de disputá-lo em 2000, por tensões internas. O Paraguai retornou às disputas em 2001 até ser rebaixado em 2004 ao Sul-Americano B. Pela distância técnica existente entre as seleções do Sul-Americano A e do Sul-Americano B, a promoção de seleções do B para o A só ocorreu em 2004, com a Venezuela ganhando um inédito lugar na elite do continente – após vencer o Brasil no Sul-Americano B de 2003 – para retornar à segunda divisão no ano seguinte. Apenas em 2009 a CONSUR optou por reconduzir Brasil e Paraguai – campeão e vice do Sul-Americano B – à primeira divisão, refazendo o torneio com 5 seleções. Em 2012, o Sul-Americano passou a ter 4 seleções, com o rebaixamento paraguaio, mas terá novamente 5 seleções em 2014.

Das principais seleções do continente, o Brasil é a de participação mais irregular no Sul-Americano. Depois da estreia em 1951, o Brasil se fez ausente em 1958 (substituído pelo incipiente Peru, que nunca mais jogou na elite), retornando em 1961 e 1964, para voltar a se ausentar por dois torneios seguidos, 1967 e 1969. De 1971 a 1981, o Brasil viveu seu mais longo momento na elite sul-americana, até voltar a se ausentar entre 1983 e 1989, por problemas financeiros. O breve retorno de 1989 a 1993 foi seguido do mais longo período de afastamento, de 1995 a 2000, encerrado apenas com a criação do Sul-Americano B.

O Brasil triunfou nas três primeiras edições da segunda divisão, superando colombianos, peruanos e venezuelanos. Apenas em 2003 o Brasil sofreu sua primeira derrota, em jogo polêmico contra a Venezuela em solo colombiano. Em 2004, o Brasil voltou a sediar a competição, no Estádio do Ibirapuera, em São Paulo, mas caiu diante do Paraguai, recém-rebaixado e estreando na “segundona”. Em 2005, o Brasil voltou a ficar atrás do Paraguai, mas deu a volta por cima conquistando o título de 2006, quando o Paraguai já não estava mais no Sul-Americano B. Vencendo novamente o torneio em 2007 e 2008, com uma histórica vitória sobre o Paraguai em Assunção, o Brasil retornou ao Sul-Americano A.

Em 2014, o Brasil igualará seu recorde de torneios seguidos na primeira divisão, chegando à sua sexta participação consecutiva na elite.