A série “O rugby pelo Brasil” não parou nem com o fim de ano não! Entre o natal e o ano novo, resolvemos ir para um estado onde o rugby é muito antigo, o Amazonas, onde se joga a bola oval desde 1995! Mas, pelas distâncias, muita gente dos demais estados brasileiros não faz nem ideia de como é o rugby amazonense. Spoiler alert: ele é promissor! O GRUA, apoiado pela Universidade Federal do Amazonas e verdadeiro “bicho-papão” da Região Norte, lidera um projeto que tem levado rugby às escolas manauaras, o Ajuri, e o rugby estadual vai se desenvolvendo.

Para saber mais sobre o Amazonas, conversamos com Benedito Neto, técnico da categoria juvenil e do time feminino do GRUA (antes chamado de Dessana), e com Marcelo Gordo (foto), o ícone do rugby amazonense, que fundou o esporte no estado em 1995 e só se aposentou dos gramados em 2017, deixando um grande legado em campo – e se focando agora na coordenação do desenvolvimento do rugby na região.

Vale lembrar que na nossa série a lista de clubes usada é a do CNRU da CBRu. Para uma lista completa confira o Mapa do Rugby Brasileiro no Portal do Rugby.

 

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Número de clubes no CNRU: 3 – GRUA, Guerreiros Korubo e Arawak

Número de jogadores no CNRU: incompleto

Federação: Liga Norte (regional)

Campeonatos Estaduais: Campeonato Amazonense de Sevens

Participações nos Nacionais: Super Sevens Masculino 2014 (GRUA)

Participações nos Regionais: Liga Norte de Rugby XV e Circuito Norte de Sevens

Títulos fora do estado: 6 títulos da Liga Norte (2012, 2013, 2014, 2015, 2016, 2017)

 

Como você enxerga o rugby no estado nos últimos 5 anos?

Marcelo: Tivemos pontos positivos e pontos negativos. Como pontos positivos vejo a melhora do nível técnico, principalmente pelo empenho de Cayo Nicolau como jogador e treinador do GRUA, mas que sempre esteve disposto em ajudar outras equipes, não só de Manaus, mas de toda a Região Norte. Outro ponto positivo foi uma melhor estruturação e aumento dos eventos de Rugby em Manaus, onde a participação da Liga Norte teve uma forte contribuição, bem como a atuação de alguns membros de equipes como Arawak e Korubo. Também vejo de forma positiva um sutil aumento do apoio e visibilidade por parte dos governos estadual e municipal. Em parte porque hoje temos muitos ex atletas e conhecidos de nossa batalha em cargos decisivos nesses órgãos. O surgimento da Liga Norte de Rugby foi um ponto muito importante e positivo para tentarmos melhorar a estrutura do esporte em toda a Região e tentar unificar esforços para objetivos comuns dos clubes praticamente isolados geograficamente. Mas o ponto mais positivo nos últimos anos eu atribuo à adesão de alguns dos atletas ao Projeto Ajuri, onde trabalhamos as categorias de base. Eu coloco essa adesão dos atletas como ponto mais importante até mesmo do que o próprio projeto, pois enquanto atletas ou ex atletas não absorverem a relevância de um trabalho de base persistente e que aborde todos os valores do Rugby amador, estaremos sempre no limiar do fracasso. É um trabalho duro e de longo prazo, mas que não pode ser executado por uma pessoa só. A incorporação do Projeto Ajuri pela Liga Norte nos abre horizontes na busca de recursos e de ampliação do Rugby no Norte.

Quanto aos pontos negativos, temos a falta de estruturação dos demais clubes em Manaus e mesmo em outras localidades do Norte. Na verdade, mesmo o GRUA, sendo o mais antigo, ainda carece de estrutura, recursos, organização e mais empenho por boa parte de seus membros. Outro ponto negativo continua sendo o isolamento geográfico e altos custos para qualquer viagem. Isso torna o nosso calendário de jogos bastante precário.

Um fato inédito para o Rugby no Amazonas e para o GRUA, foi a visita da equipe Tatuapé, de São Paulo, para um jogo amistoso. E acreditamos que será a porta de entrada para um intercâmbio com eles e outras equipes do Sul Sudeste, uma vez que tenho certeza que valeu cada centavo gasto com passagens, tanto pelo alto nível apresentado durante o jogo e toda a recepção e terceiro tempo, mantendo as tradições do Rugby (65 x 10 para o GRUA e o melhor terceiro tempo do mundo!!!!!!! Rsrsrsrs)

 

Benedito: De 2013 pra cá o Rugby na região norte saltou em termos de número de praticantes e projetos que envolve categorias de base. O surgimento de novos clubes em Roraima, Pará e Acre trouxe a oportunidade do crescimento técnico do esporte, que foi notório em 2013 e 2014, porém houve uma estagnação nesse quesito nos últimos principalmente pelos intervalos longos entre as competições, afinal temos desafios geográficos que inviabiliza o deslocamentos das equipes.

A estrutura dos clubes também é um ponto positivo. Com a criação da Liga Norte de Rugby, atual instituição apoiadora dos eventos, os clubes podem ter mais visibilidade dentro dos seus estados, bem como gerar diálogos e planejamentos conjuntos.

 

Quais vem sendo as maiores dificuldades na região?

Marcelo: Como citado na questão anterior, a falta de estruturação de outras equipes, vem retardando o processo de criação de uma federação e torna o esporte menos influente junto às secretarias de esporte. O isolamento geográfico e a falta de clubes dificulta a estruturação de calendários de jogos e campeonatos para aumentar o intercâmbio e experiência. Para se ter idéia, apenas o GRUA tem equipe de XV atualmente no Amazonas e nosso vizinho mais próximo é Makuxi, em Boa Vista, a 750 km de distância.

A Venezuela sempre foi nossa alternativa de intercâmbio com equipes diversificadas e em diferentes níveis técnicos, mas a atual situação política desse país tornou inviável essa interação. Hoje estamos tentando uma aproximação com a Guiana Inglesa.

Se por um lado estamos tendo abertura por parte do Estado e Município para a prática do Rugby em escolas e Centros Sociais, temos uma carência de profissionais habilitados e disponíveis para atender a demanda.

Obviamente os custos altíssimos para podermos viajar e realizar jogos sempre foi um grande entrave. Mas isso nunca deixará de ser, mesmo que a CBRu nos dê todo o apoio possível. Dentro de uma realidade onde todo o Brasil tem dificuldades semelhantes, a CBRu nunca poderia atender de forma a resolver isso. O Estado ou o Município também tem limitações orçamentárias para atender as mais diferentes modalidades. Portanto, temos que focar em elevar o nível de nossos instrutores e criar em médio prazo um pool de clubes que nos torne autossuficiente em número e qualidade de jogos/campeonatos. A interação com outras localidades deverá ser eventual e restrita.

 

Benedito: Dentro das capitais, a falta de apoio do poder público ainda é o maior desafio e acaba atrasando a difusão do esporte. Estádios não cedidos, falta de apoio nos festivais, e em jogos fora de casa etc… Também a ausência de uma federação nos estados acaba interferindo na captação de incentivos das instituições públicas e privadas.

Outro problema é a limitação na locomoção dos times para as competições regionais. O isolamento das cidades no norte acaba elevando as despesas de viagens, poucos times dispõe de organização e recursos financeiros para custear seu transporte.

 

Como está a situação de setores chave como rugby infantil e juvenil, arbitragem e evolução dos treinadores?

Marcelo: Vamos por partes. O Rugby infantil e juvenil vem tendo atenção especial. Há uns quatro anos iniciamos a escolinha do GRUA junto ao time adulto. Mas há dois anos iniciamos o Projeto Ajuri. Ajuri, em Tupi, significa mutirão, união, junção. Esse projeto teve início dentro da Universidade Federal do Amazonas e GRUA, com apoio da CBRu, onde focamos a preparação de professores e voluntários interessados em iniciar crianças e jovens no Rugby. A nossa estratégia tem sido divulgar e implementar o Rugby em escolas, mas concentrando as atividades continuamente em alguns pólos espalhados pela cidade. Os seis pólos existentes até o momento estão se fortalecendo e já temos demanda para abertura de mais alguns. Enxergando o avanço que tivemos no Ajuri e o potencial  apelo para recrutar atletas e recursos de financiadores, a Liga Norte entrou como parceira e coordenadora ao final de 2017, o que nos possibilitará maiores chances de entrada de recursos. A própria CBRu tem nos estimulado e vem procurando colaborar para montarmos novos cursos de iniciação e outros temas, como cursos para treinadores e arbitragem.

A arbitragem tem sido um gargalo para toda a Região Norte, não só para Manaus. Temos que trazer cursos que formem árbitros e temos que dar a eles a oportunidade de praticarem. O mesmo temos que fazer com os treinadores, mas bem ou mal, temos a atuação de Cayo Nicolau, que tem ajudado bastante nesse sentido. Mesmo assim iniciamos contatos com CBRu e equipes na Argentina, para ver se conseguimos concretizar alguns cursos e alguns intercâmbios com equipes mais tradicionais. Essa é uma preocupação real e imediata principalmente para os treinadores das categorias de base, pois eu assumo a postura de que não podemos cometer erros grosseiros na formação da garotada, seja como atletas, seja como cidadãos.

E nesse último ponto é que temos uma preocupação pertinente, sincera e muitas vezes esquecida: a perpetuação dos valore e tradições do Rugby. Tenho notado que no Brasil, provavelmente em detrimento do grande crescimento numérico e técnico, os valores como disciplina, respeito e lealdade, bem como a tradição do bom terceiro tempo, têm sido deixados de lado. É durante o terceiro tempo que fiz grandes amizades que já duram mais de 30 anos!!! São os valores do Rugby e a amizade do terceiro tempo que nos torna melhores, que torna o Rugby um esporte diferenciado. Sem essas coisas o Rugby não é a ferramenta que sempre acreditei ser adequada para termos um mundo melhor! Por que você acha que em qualquer lugar do mundo quando um jogador de Rugby vê uma pessoa com uma camisa de Rugby, logo se aproxima querendo conversar, tomar uma cerveja e convidando para um treino??? Isso não existe em nenhum outro esporte! E posso lhe assegurar que isso é fruto dos valores e do terceiro tempo. Portanto, no GRUA, fazemos questão de transmitir isso aos nossos adversários e principalmente aos nossos pequenos iniciantes.

 

Benedito: Os primeiros times de categoria de base foram formados em 2013 no GRUA e Porto Velho Rugby, e Macuxi em 2015, com ênfase no juvenil, mas pouco se mantiveram todo esse tempo com poucas renovações. Em 2017 temos a criação de um projeto de iniciação e desenvolvimento de categorias de base em regiões estratégicas na cidade de Manaus, projeto Ajuri, que vem com a proposta de realizar atividades recreativas, calendário de competições entre os pólos com crianças e adolescentes. Até o momento esse projeto reuniu quase 300 crianças no primeiro festival e promete expandir treinos para crianças de escolas públicas de Manaus.

A arbitragem e treinadores disponíveis na região não supre a demanda de times e competições internas. E ainda há a necessidade de aperfeiçoamento desses profissionais para transmitir o conhecimento a professores de educação física de escolas públicas e privadas que desejam ministrar aulas de Rugby.

 

Quais os planos da região para 2018 e para o futuro?

Marcelo: Em 2018 esperamos ter a Federação estadual criada, o que nos dará algumas possibilidades a mais dentro do Amazonas, mas independente disso, estamos nos unindo ao pessoal do Futebol Americano para reivindicar um estádio exclusivo para os esportes de bola oval entre outros apoios.

Esperamos fortemente a incorporação de mais adeptos aos Projeto Ajuri, especialmente por parte das demais equipes, para que possamos fortalecer a base de todos.

Teremos um calendário de competições envolvendo as categorias de base, para oferecer uma dinâmica que é inviável no momento para as equipes adultas, por falta de equipes.

Esperamos fortalecer o intercâmbio com equipes de São Paulo (iniciando com Tatuapé) e Guiana Inglesa, além de participar das competições da Liga Norte.

Pensando num futuro mais amplo, estamos trabalhando junto a Liga Norte para melhorar as estratégias didáticas do Projeto Ajuri, ampliar o número e a qualidade dos pólos, inclusive levando a franquia para os demais estados do Norte. Além de fortalecer as parcerias com o Estado e com o Município.

Também estamos tentando fortalecer a parceria com a Universidade Federal do Amazonas, para melhorarmos as atuações em diferentes frentes, como a criação de disciplinas de Rugby na Faculdade de Educação Física, e desenvolvimento de projetos de extensão e pesquisa.

Junto a Liga Norte, estamos na expectativa de aprovação de projetos no Ministério dos Esportes que vão fortalecer todas as equipes do Norte. Entretanto é preciso que todas as equipes do Norte abracem a causa e se unam aos objetivos da Liga, o que ainda está longe de ser uma realidade.

 

Benedito: Investimento pesado na base. O crescimento do esporte na região depende do quantitativos de praticantes, quanto a isso não há dúvidas. O projeto Ajuri demostrou sucesso em apenas um ano de existência somente com a mobilização de pessoas que acreditam no esporte, trazendo novas perspectivas e entusiasmo a região. Espero que outros times sintam-se empolgados para reproduzir projetos similares na suas cidades expandindo a pratica de Rugby a nível regional.

 

Liga Norte 2017

ClubeCidadePJVED4+7-PPPCSP
GRUA Manaus (AM)1944003013632104
Porto VelhoPorto Velho (RO)54103108798-11
Makuxi Boa Vista (RR)541031063156-93
DiaHoraLocalCasa vs AdversárioFase
20/05/2017Manaus, AMGRUA39X07Makuxi1ª fase
01/07/2017Porto Velho, ROPorto Velho03X16GRUA1ª fase
15/07/2017Boa Vista, RRMakuxi36X12Porto Velho1ª fase
12/08/2017Boa Vista, RRMakuxi07X48GRUA1ª fase
30/09/2017Porto Velho, ROPorto Velho57X13Makuxi1ª fase
21/10/2017Manaus, AMGRUA33X15Porto Velho1ª fase

 

Vídeo do amistoso entre GRUA e Tatuapé (SP) de 2017: