Prévia da Copa: África do Sul, o verde em busca do ouro

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Apelido: Springboks

População: 54.000.000

Capital: Pretória (administrativa), Cidade do Cabo (legislativa) e Bloemfontein (judiciária)

Continente: África

Principais títulos: Copa do Mundo (1995 e 2007) e Tri-Nations/The Rugby Championship (3 vezes)

Mundiais disputados: 5 (1995, 1999, 2003, 2007 e 2011)

Melhor campanha em Mundiais: Campeã (1995 e 2007)

Copa do Mundo de 2011: Quartas de final

Caminho para o Mundial 2015: Classificada antecipadamente como uma das 12 melhores da Copa do Mundo de 2011

Técnico de 2015: Heyneke Meyer

2015: Grupo B

19/09 – x Japão – Histórico: nunca se enfrentaram;

26/09 – x Samoa – Histórico: 8 jogos, 8 vitórias. Último jogo: África do Sul 56 x 23 Samoa, em 2013 (amistoso);

03/10 – x Escócia – Histórico: 25 jogos, 20 vitórias e 5 derrotas. Último jogo: África do Sul 55 x 6 Escócia, em 2014 (amistoso);

07/10 – x Estados Unidos – Histórico: 3 jogos, 3 vitórias. Último jogo: África do Sul 64 x 15 Estados Unidos, em 2007 (Copa do Mundo);

 

Ah, camisa pesa. E poucas pesam tanto quanto o manto verde e ouro sul-africano. Os Springboks vão à Copa do Mundo, como sempre, entre os favoritos, mas desta vez com muitas dúvidas sobre suas cabeças. Tida como equipe mais cotada para desbancar os All Blacks um ano atrás, a África do Sul vai à Inglaterra sob o peso da desconfiança após derrotas para Nova Zelândia, Austrália e, sobretudo, Argentina pelo Rugby Championship. Logo à vésperas do Mundial, os Boks fizeram seu pior jogo em muito tempo e perderam pela primeira vez em casa para os Pumas, mostrando mais problemas que soluções. É verdade que a recuperação veio no último fim de semana, vencendo a mesma Argentina em Buenos Aires, mas a equipe do contestado Heyneke Meyer tem que provar muito ainda à sua exigente torcida. Afinal, os Boks têm ainda hoje a melhor média de títulos por Copa do Mundo disputada. Banida de torneios internacionais durante os Mundiais de 1987 e 1991, a África do Sul jogou dois torneios a menos que seus rivais, mas conta com os mesmos dois títulos de All Blacks e Wallabies. E com o recorde e nunca ter perdido uma final disputada.

 

A história do rugby sul-africano é orgulhosa e por muito tempo os Springboks se consideraram os melhores do mundo. Afinal, a África do Sul teve até o começo dos anos 1990 mais vitórias do que derrotas contra os All Blacks. Ninguém mais pode se orgulhar de tal condição. E o rugby é muito mais que um mero esporte por lá.

 

Levado pelos ingleses no século XIX, o rugby foi fervorosamente incorporado por outra comunidade: a dos africânderes. E a história deles é complexa. Hoje cerca de 5% da população do país (cerca de 3 milhões de pessoas), os africânderes são descendentes dos imigrantes calvinistas holandeses, alemães e franceses que se estabeleceram na África do Sul entre os séculos XVII e XVIII, abandonando a Europa por conta das perseguições religiosas. Com a Inglaterra estabelecendo seu domínio sobre a região no século XIX, os conflitos entre boers (como eram chamados os africânderes), britânicos e as nações africanas resultaram em uma sucessão de guerras que terminaram apenas no início do século XX, com a Inglaterra unificando o território sul-africano como colônia. E o rugby se tornou para os africânderes sua forma de vencer os ingleses em seu próprio jogo e o principal esporte para a população branca do país, seja ela africânder ou britânica, mas se manteve distante dos negros, entre os quais o rugby demorou a se difundir, em geral pela violenta separação entre brancos e negros no país, que se aprofundará a partir dos anos 1930, com a independência, e anos 1940, com a ascensão ao poder do Partido Nacional, que estabeleceu o regime racista do apartheid, segregando brancos e negros em todas as esferas da vida. O rugby, como todos os esportes, foi dividido entre federações de cunho racial, com uma federação para os brancos, outra para os coloureds (populações mestiças), outra para os negros.

 

Os Springboks eram justamente a seleção branca. E seu sucesso foi rápido, com vitórias sobre Lions, All Blacks e Wallabies logo nos primeiros anos. Em 1906, os sul-africanos foram à Europa pela primeira vez, venceram Irlanda e Gales, empataram com a Inglaterra e ganharam o apelido de Springboks. A fama escalou com as visitas dos Lions, derrotados nas séries de 1903, 1924 e 1938. Em 1921, os sul-africanos foram à Nova Zelândia, vencendo um jogo, perdendo outro e empatando o terceiro, naquele que foi conhecido popular como o primeiro mundial, pela fama dos dois times, vitoriosos em suas visitas à Europa, incluindo o Grand Slam em 1933, vencendo ingleses, escoceses, irlandeses, galeses e franceses em sequência. No pós-Segunda Guerra Mundial, já sob o comando do lendário técnico Danie Craven, os Springboks ficaram invictos de 1949 a 1953, acumulando vitórias sobre todos os grandes do mundo, voltando a conquistar o Grand Slam em 1951-52, liderados pelo capitão Hannie Muller o inventor da função de oitavo. A supremacia mundial dos Boks foi abalada apenas em 1956, com derrotas para os All Blacks, em série que ficou conhecida como uma das maiores de todos os tempos.

 

Porém, supremacia sobre os Lions continuou, com uma série empatada em 1955, mas novas séries vitoriosas para os Boks em 1962 e 1968, e novo Grand Slam em 1961. Nesse período, a situação política do país se deteriorou com o massacre de Sharpeville e o aumento da pressão internacional pelo fim do regime de segregação racial. Protestos ganharam as arquibancadas dos jogos da África do Sul no exterior e, em 1967, a gira dos All Blacks pela África do Sul foi cancelada, pela recusa do governo sul-africano em dar vistos aos atletas maoris. Os neozelandeses voltaram somente em 1971, com os maoris sendo aceitos, e os Springboks voltaram a prevalecer vencendo a série. A força sul-africana passava pelos braços dos brilhantes Frik du Preez e Morné Du Plessis, dois dos mais aclamados forwards de todos os tempos e líderes de uma geração vitoriosa, apesar das derrotas para os Lions em 1974, em série marcada pela violência sul-africana.

 

Contudo, a pressão contra o regime do apartheid conduziu ao isolamento progressivo dos sul-africanos, com a diminuição das partidas internacionais, com os Springboks sofrendo boicote entre 1976 e 1980, quando os Lions realizaram polêmica gira pelo país. Em 1981, os Springboks visitaram a Nova Zelândia, sofrendo com sistemáticos protestos contra o regime racista. Naquele tour, no entanto, os Boks tiveram pela primeira vez um atleta não branco: o famoso Errol Tobias, coloured. O boicote se tornou mais severo e os Boks não fizeram nenhuma partida contra seleções nacionais oficiais entre 1985 e 1991, com o polêmico tour do New Zealand Cavaliers – uma seleção neozelandesa sem maoris – em 1985. O período de isolamento não impediu os Boks de produziram dois dos maiores jogadores de todos os tempos, Naas Botha e Danie Gerber.

 

Sem poder participar dos Mundiais de 1987 e 1991, a África do Sul retornou aos holofotes apenas em 1992, com o fim do apartheid e o retorno dos Springboks aos gramados internacionais. E a honra de receber a Copa do Mundo em 1995 foi dada aos sul-africanos. Mas, o isolamento teve seu preço e os outrora poderosos Springboks acumulavam mais derrotas que vitórias. A reviravolta veio justamente durante o Mundial, e a famosa história de Nelson Mandela apoiando os Boks e unindo a nação através do rugby foi vivida. A seleção capitaneada por François Pienaar, abrilhantada pelo carismático Chester Williams e pela dupla Jaco van der Westhuizen e Joel Stransky superou as dificuldades e venceu os favoritos All Blacks na prorrogação na grande final. A geração campeã entrou na era profissional restaurando a forma da seleção sul-africana e, sob o comando do técnico Nick Mallett, os Boks bateram o recorde mundial de jogos invictos em 1997, caindo apenas contra os Lions. Em 1998, o time se reergueu e venceu o Tri Nations, mas caiu na prorrogação das semifinais do Mundial de 1999 diante da Austrália, após Janie de Beer anotar famosos 5 drop goals contra a Inglaterra.

 

Em 2003, os Boks chegaram no ponto mais baixo, caindo nas quartas de final do Mundial. Mas, souberam dar a volta por cima vencendo os Tri Nations de 2004  e 2006, formando a geração que seria campeã mundial em 2007, com um pack formidável de John Smit, Juan Smith, Bakkies Botha, Oz du Randt e Victor Matfield, e uma linha eficiente, de Percy Montgomery e Bryan Habana. Os Boks estavam de volta ao topo, sob o comando de Jake White. Em 2011, no entanto, nova eliminação nas quartas de final, em jogo duro contra a Austrália. No período, o símbolo dos Springboks também foi alvo de polêmica, com movimentos sociais pedindo que o símbolo, tido por muitos como um ícone do apartheid, fosse substituído. Na camisa dos Boks, o símbolo tradicional foi sendo colocado em posição periférica.

 

Desde então, a África do Sul seguiu regular no topo, incorporando atletas que atuam no exterior, mas oscilando, com Heyneke Meyer tendo dificuldades para encontrar seu time ideal. Em 2014, os Boks não engrenaram, venceram Gales em casa, a Inglaterra fora de casa, mas perderam de forma contundente para a Irlanda em novembro passado, assim como para Gales. Em 2015, a formação encontrada por Meyer parecia agradar, mas três derrotas seguidas contra Wallabies (após liderarem o placar durante o jogo todo, caindo de rendimento no fim), All Blacks (novamente com queda de rendimento na segunda parte) e Pumas (em casa, desastrosa) colocaram em dúvida a força do time.

 

O aspecto físico se mostrou o mais preocupante, sobretudo pela tradição da equipe, sempre forte no jogo de contato. Os Boks tiveram quedas preocupantes de rendimento no fim dos jogos e foram dominados em muitos momentos no scrum, que deveria ser seu grande argumento. Mesmo o lateral, antes irretocável, mostrou alguns problemas, e Matfield não é mais o mesmo, pela idade. Lood de Jager, contudo, mostrou qualidade e foi um dos destaques do torneio na segunda linha, mas as lesões preocupam tanto na primeira como na segunda linha, com os irmãos Du Plessis, Mtawarira, Maftield e Etzebeth indo ao Mundial ainda não 100%. Em forma, os Boks têm uma das melhores formações de 1 a 5 do mundo, mas o presente não anima.

 

Na terceira linha, os Boks também têm muita força, sobretudo com o monumental e ex melhor do mundo Schalk Burger ao lado de Marcell Coetzee, François Louw e Henrich Brüssow. Problema, entretanto, está na dupla de 9 e 10, com Ruan Pienaar e Handré Pollard não convencendo no Rugby Championship. A camisa 9 é preocupante e muito se fala numa volta de Fourie Du Preez, que não joga partidas de alto nível há muito tempo, ao passo que Patrick Lambie pode aparecer como opção à falta de inspiração do jovem Pollard com a 10, com os Boks contando ainda com o confiável Morné Steyn, que jogou bem no Top 14 francês e pode reaparecer no XV de Meyer. Atrás os Boks empolgam, com Bryan Habana, Damien de Allende, Jesse Kriel e Willie Le Roux formando um dos mais temidos conjuntos de backline, que poderão ser um dos grandes destaques do Mundial e verdadeira arma. O desafio está em construir uma articulação melhor para que sua linha funcione. As armas são da melhor qualidade.

 

A África do Sul teve o sorteio mais favorável possível, e vitórias contra Escócia, Samoa, Japão e Estados Unidos, de preferência por largas margens, devem restaurar a confiança do time e dar mais conjunto, essencial para o mata-mata. Os Boka são favoritos plenos de seu grupo, mas têm que tomar cuidado para não relaxarem demais. Afinal, o cruzamento na sequência será contra Inglaterra, Austrália ou Gales, provavelmente, que estarão desgastadas pelo grupo da morte, mas talhadas aos desafios. Hora dos Boks encontrarem seu caminho. Camisa e material humano há para ser campeão. Falta o elenco virar um time e a condição física evoluir.

 

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