Prévia da Copa: França, do céu ao inferno no canto do galo

França vermelho frança

Apelido: Les Bleus (Os Azuis)

População: 66.600.000

Capital: Paris

Continente: Europa

Principais títulos: Six Nations (17 vezes)

Mundiais disputados: Todos

Melhor campanha em Mundiais: Vice-campeã (1987, 1999 e 2011)

Copa do Mundo de 2011: Vice-campeã

Caminho para o Mundial 2015: Classificada antecipadamente como uma das 12 melhores da Copa do Mundo de 2011

Técnico de 2015: Philippe Saint-André

2015: Grupo D

19/09 – x Itália – Histórico: 37 jogos, 34 vitórias e 3 derrotas. Último jogo: Itália 0 x 29 França, em 2015 (Six Nations);

23/09 – x Romênia – Histórico: 51 jogos, 41 vitórias, 8 derrotas e 2 empates. Último jogo: Romênia 14 x 62 França, em 2006 (amistoso);

01/10 – x Canadá – Histórico: 8 jogos, 7 vitórias e 1 derrota. Último jogo: França 46 x 19 Canadá, em 2011 (Copa do Mundo);

11/10 – x Irlanda – Histórico: 93 jogos, 55 vitórias, 31 derrotas e 7 empates. Último jogo: Irlanda 18 x 11 França, em 2015 (Six Nations);

 

Quando o assunto é a França no rugby inúmeros clichês costumam aflorar, sobretudo o célebre “tudo é possível”. E, é inegável que ele seja real ao longo da história da Copa do Mundo, mas o desfecho foi sempre com os franceses entre os melhores do planeta. O retrospecto da França é impressionante, tendo alcançado as semifinais do Mundial em seis das sete edições já disputadas, ficando de fora somente em 1991, feito equiparado apenas pela Nova Zelândia, que também ficou fora dos quatro primeiros lugares somente uma vez. Ninguém chegou a mais finais de Mundial que a França, com três decisões de título, o mesmo número que Nova Zelândia, Austrália e Inglaterra. Entretanto, ao contrário dos três citados, a França jamais levantou a taça, sendo a única seleção que já disputou a final da Copa do Mundo mas que jamais a conquistou. Trata-se de uma potência, uma seleção de chegada, mas que ainda tem um tabu a quebrar. E de tabu os franceses entendem.

 

A história do rugby na França se confunde com a história da educação física europeia e do esporte moderno. O rugby foi introduzido na França no fim do século XIX por ingleses no norte do país, e logo se desenvolveu em Paris com grande entusiasmo por parte de setores reformadores da elite local, que, após a derrota francesa na Guerra Franco-Prussiana (1870-71), buscavam reformar a educação do país e incentivar a prática esportiva, a qual, na visão deles, seria crucial para a formação dos cidadãos franceses em um momento de expansão imperial europeia. A opção na França era pela ginástica, esporte já desenvolvido na Alemanha como prática de culto ao corpo, mas na visão de homens como o barão Pierre de Coubertin – fundador do movimento olímpico e árbitro de rugby – a opção inglesa pelos jogos com bola seria mais completa, pedagógica e formadora de caráter. Foi assim que nasceram os dois primeiros clubes de Paris, o Racing e o Stade Français, praticando o rugby e o futebol e fortemente ligados à USFSA (Union des Sociétés Françaises de Sports Athlétiques), entidade fundada em 1885 para fomentar a prática esportiva pelo país, tendo no rugby um de seus pilares e Coubertin um de seus líderes.

 

Pela ação da USFSA, entidade laica e nacionalista, o rugby cresceu e se disseminou, sendo apaixonadamente abraçado pelas cidades do sudoeste do país, ao passo que o norte se voltou mais fortemente ao futebol. O Campeonato Francês largou em 1892 e, após domínio inicial dos parisienses, os clubes do sul tomaram a frente e se tornaram as grandes potências francesas, começando com o sucesso inicial do Stade Bordelais (atual Bordeaux) e do Stade Toulousain (o Toulouse). O rugby sofreu uma metamorfose, passando de esporte da elite parisiense a esporte do povo no sudoeste. Muito na frente dos restantes países da Europa Continental, a França foi convidada a se juntar a Inglaterra, Gales, Escócia e Irlanda em 1910 no novo Cinco Nações, e o esporte decolou, apesar do inicial insucesso francês. Sem a mesma experiência internacional de seus rivais, a França conheceu seguidas colheres-de-pau nos primeiros anos e apenas em 1927 derrotou a Inglaterra. Entusiasta do rugby nos Jogos Olímpicos, a França conquistou a medalha de ouro em 1900, mas se viu derrotada pelo misterioso time dos Estados Unidos em 1920 e 1924 (em casa), ficando apenas com a prata.

 

A popularidade do esporte na França contrastava com o desempenho ainda fraco da seleção e a pressão em favor do profissionalismo ganhava força nos anos 1920, com os clubes franceses sendo acusados pelos britânicos de profissionalismo ilegal, além de violência em campo. O resultado foi a expulsão da França do Cinco Nações em 1932 e a fundação da FIRA, a Federação Internacional de Rugby Amador, em 1933, a versão francesa do IRB, que fomentou o rugby no continente e criou o Troféu da FIRA – na prática, o campeonato europeu – envolvendo países como Itália, Romênia e Alemanha, sendo decisivo para a propagação do rugby pela Europa para além das Ilhas Britânicas – que à época pouco se importavam com a prática do esporte fora de seu império.

 

Em paralelo, o avanço do rugby league no país nos anos 30, que, no auge antes da Segunda Guerra Mundial, havia convertido mais de um terço dos clubes de rugby union em rugby league na França, fragilizou a seleção. A Segunda Guerra e o governo pró-nazista de Vichy, entretanto, colocaram um ponto final na expansão do league, em uma verdadeira guerra esportiva dentro de uma guerra real, que levou à proibição do esporte e forçou muitos clubes a retornarem ao union.

 

Com a página virada, a França voltou da Guerra fortalecida, reintegrada ao Cinco Nações e liderando a FIRA e sua competição pan-europeia. Ao longo das primeira décadas, os franceses estimularam um estilo distinto do inglês, baseado no jogo de mãos e na velocidade, desenvolvido nas pequenas cidades do interior do sul do país. A escola francesa de rugby se tornou uma marca e o tabu foi, enfim, quebrado nos anos 50, com a França levantando seu primeiro título do Cinco Nações em 1954, mas dividindo-o com ingleses e galeses, no mesmo ano em que pela primeira vez derrotou os All Blacks, guiada por seu capitão venerado Jean Prat. Em 1958, os franceses viajaram pela primeira vez à África do Sul e derrotaram os Springboks e, em 1959, o primeiro título do Cinco Nações veio, sob a capitania do lendário Lucian Mias, inventor da linha de vantagem após as formações fixas, uma inovação francesa. Nos anos 1960, foram mais quatro títulos europeus, com a linha dos brilhantes Guy Camberabero, Jo Maso e os irmãos André e Guy Boniface fazendo a fama do rugby aberto e plástico francês. Desde então, Les Bleus sempre estiveram no hall dos grandes do mundo, atingindo feitos imensos nos anos seguintes, como a célebre primeira vitória em solo neozelandês sobre os All Blacks, em 1979, sob o comando do irretocável terceira linha e capitão Jean-Pierre Rives.

 

A chance de repetir o feito veio com a primeira Copa do Mundo, em 1987, com a França alcançando a grande final após vitória épica sobre a Austrália na semifinal. A Nova Zelândia acabou se impondo na final, mas o rugby francês manteve sua tradição, com homens de linha como Phillippe Sella e Serge Blanco tirando aplausos até do mais exigente kiwi. Com a exceção do Mundial seguinte, quando os azuis perderam para a Inglaterra nas quartas de final, a França criou uma tradição que lhe confere força sempre, em qualquer circunstância: a marca de infalivelmente estar nas semifinais. Em 1995, os Bleus caíram apenas em jogo polêmico sobre os Springboks e, em 1999, os franceses protagonizaram talvez o maior jogos da história da Copa do Mundo, quando venceram os All Blacks de Jonah Lomu de virada, com show que imortalizou a geração de Lamaison, Dominici, Bernat-Sallet, Garbajosa, Galthié, Magne, Berbizier, Pelous, Ibañez & cia. Mas, na final, a França não foi sombra do time das semifinais e caiu diante dos Wallabies.

 

Em 2003, nova semifinal e derrota para a Inglaterra, enquanto em 2007, jogando em casa, os Bleus começaram decepcionando, caindo diante dos Pumas na abertura, mas cresceram nas quartas de final e bateram novamente os All Blacks, afrontando o haka, com Chabal fazendo cara feia e Michalak dando passe para frente para o try de Jauzion. Na semifinais, no entanto, outra vez a Inglaterra sepultou os Bleus. A revanche contra os ingleses viria em 2011, mas não sem antes muito sofrimento. A França, do polêmico técnico Marc Lièvremont, chegou em crise ao Mundial, com sérios problemas disciplinares e de relacionamento interno, afundou com uma derrota constrangedora diante de Tonga, mas, quando tudo parecia perdido para a equipe, a França se reergueu nas quartas de final, liderada pelo inspirador capitão Thierry Dusautoir, e venceu a Inglaterra, alcançando a semifinal contra Gales, para obter nova e dramática vitória, graças ao cartão vermelho de Sam Warburton em tackle perigoso sobre Vincent Clerc. Na final, os franceses fizeram seu melhor jogo, Dusautoir deixou seu try, mas no detalhe a França viu seu último tabu a quebrar permanecer, com vitória dos All Blacks por 8 x 7.

 

Desde então, o rugby francês viveu altos e baixos. Dona do mais rico campeonato de clubes do mundo, a França lida com sua seleção estrangulada pela liga, com pouco tempo para treinamentos e atletas mais focados no Top 14 do que em seus compromissos com a camisa do XV de France. Sem ganharem o Six Nations desde 2010, os tricolores desfrutaram de alguns momentos recentes de evolução, mas ainda sem conseguirem recuperar o velho brilho. O técnico Phillippe Saint-André vai ao Mundial pressionado e com a missão de encontrar um XV ideal, o que não conseguiu ao longo de quatro anos no comando da equipe. Com trocas constantes, problemas no setor criativo e praticando um rugby mais competente na base de forwards do que no jogo aberto, ao contrário do que manda a tradição e o estereótipo do rugby francês, a França de Saint-André não tem ainda um time propriamente, apenas um catado de bons jogadores.

 

No Six Natons, a França teve alguns lampejos promissores, como um jogo empolgante contra a Inglaterra, apesar da derrota, contrastando com atuações nada inspiradas, como a vitória suada contra a Escócia e um jogo nivelado por baixo com a Itália. O jogo com os italianos é significativo pois a Itália é um dos oponentes da França na Copa do Mundo, e já derrotou os franceses duas vezes nesta década, ambas em Roma. A França será claramente favorita contra os italianos, que têm poucos argumentos além do pack, onde a França vai bem. O problema é que os Bleus tendem a baixar a guarda contra adversários mais fracos, como o jogo contra Tonga em 2011 provou, e se a Itália dominar a posse de bola diante de uma França apática a situação poderá se complicar, como já ocorreu antes.

 

Enquanto Canadá e Romênia, que compõem o Grupo D, não deverão impor problemas aos franceses, o jogo chave será contra a Irlanda, que potencialmente valerá o primeiro lugar do grupo – essencial, pois a tendência é que o segundo colocado enfrente os All Blacks nas quartas de final. No Six Nations, as duas equipes fizeram uma partida de extremo equilíbrio, com a França canalizando com sucesso a disputa para a base de forwards, mas cometendo muitos penais para Sexton dar a vitória sem tries aos verdes. A Irlanda será a favorita por tudo o que tem apresentado – e pelo título do Six Nations – mas neste ano os Bleus já provaram que não temem a força do Trevo.

 

A grande dúvida de Saint-André está na dupla de 9 e 10. Para scrum-half, a opção favorita é Morgan Parra que, entretanto, vem sofrendo com lesões e ainda precisa voltar ao seu melhor. A seu lado, a posição de abertura ainda não tem dono, com muitos testes e poucas certezas. Camille Lopez foi ejetado do elenco após más atuações no Six Nations, enquanto Jules Plisson não se mostrou opção melhor. Saint-André apostou na pré-temporada em atletas nada unânimes, mas já de valor comprovado: Michalak e Trinh-Duc. Resta que eles provem nos amistosos que são solução para os tricolores.

 

No pack, Guirado na primeira linha ao lado de Ben Arous e Slimani ou Mas se provou uma formação muito interessante, que deu trabalho a Irlanda e Itália no Six Nations, tendo ainda o moderno Debaty, ágil e forte. Porém, o lateral ainda não convence, com nenhum dos segundas linhas em alta, enquanto dúvidas também existem na terceira linha. Dusautoir é unanimidade, mas seus parceiros ainda precisam ser definidos. Picamoles é o grande nome para a camisa 8, caso reencontre sua melhor forma física, e a outra vaga de asa fica entre Le Roux, que também não convenceu, Nyanga, experiente, e Ouedraogo. Na linha, os centros também são motivo de debate, com o forte – e acima do peso – Bastareaud oferecendo um conjunto de características, de um lado, e Fofana e Fickou, mais velozes, mas com problemas defensivos, de outro lado. Contudo, é Dumoulin, forte e rápido nos offloads, que aparece como a opção mais comentada do momento, podendo ganhar a vaga. Nas pontas, Huget e Nakaitaci, inegavelmente, se bem munidos, são máquinas de tries, enquanto a camisa 15 ainda gera dúvidas, entre Spedding e Dulin, após o corte de Médard.

 

Para os Bleus, a tradição está a seu lado para avançarem de fase, e o material humano existe para inclusive voltarem a uma final. Em meio ao caos, a França costuma se superar e, em 2015, o caos não é tão grande como foi em outros momentos. O terreno existe e não se pode duvidar que os azuis cheguem ao Mundial como competidores reais. Acertos aqui e acolá, uma dose de sorte e de imponderável e lá vai o XV de France em busca do caneco.

 

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