Estrangeiros tiram lugar dos locais nas ligas europeias?

O Hemisfério Sul venceu. Os quatro times classificados para as semifinais da Copa do Mundo são do Rugby Championship e, pela primeira vez na história, nenhum europeu está entre os quatro melhores do mundo. Por quê? Essa pergunta está na boca de todo rugbier e muitas hipóteses vem sendo levantadas.

 

Um dos argumentos que ganharam força para explicar a supremacia das seleções do Hemisfério Sul é o fato de as grandes ligas do Hemisfério Norte, em especial o Top 14 francês e, em menor lembrança dos críticos, a Premiership inglesa têm estrangeiros demais em seus elencos. Antes da Copa do Mundo começar, o Portal do Rugby publicou uma matéria mostrando quais as seleções que mais naturalizaram atletas e algumas ideias foram colocadas em dúvida, pois os quatro países que mais contaram com jogadores nascidos no exterior foram, por ordem, Samoa, Gales, Escócia e Tonga, na frente dos sempre criticados Japão e Itália. Gales e Escócia, que raramente são lembrados quando o assunto são as naturalização, enquanto fala-se sempre muito mais nos atletas de Samoa e Tonga naturalizados para jogarem por outras seleções, em especial Austrália e Nova Zelândia, e normalmente se esquece do fato dessas seleções usarem muitos atletas que nasceram e cresceram em solo australiano ou neozelandês e optarem por defender Samoa e Tonga por conta de suas origens familiares.

 

Desta vez, nosso alvo está no número de atletas locais que cada uma das quatro grandes ligas profissionais têm. De acordo com nosso levantamento:

 

301 ingleses atuam pelos 12 clubes da Premiership inglesa (média de 25,1 ingleses por clube) na temporada 2015-16;

299 franceses atuam pelos 14 clubes do Top 14 francês (média de 21,35 franceses por clube) na temporada 2015-16;

214 sul-africanos atuam pelos 5 times sul-africanos do Super Rugby (média de 42,8 sul-africanos por time) na temporada 2015;

190 neozelandeses atuam pelos 5 times neozelandeses do Super Rugby (média de 38 neozelandeses por time) na temporada 2015;

172 galeses atuam pelos 4 times galeses do PRO12 (média de 43 galeses por time) na temporada 2015-16;

161 australianos atuam pelos 5 times australianos do Super Rugby (média de 32,2 australianos por time) na temporada 2015;

153 irlandeses atuam pelos 4 times irlandeses do PRO12 (média de 38,2 irlandeses por time) na temporada 2015-16;

74 escoceses atuam pelos 2 times escoceses do PRO12 (média de 37 escoceses por time) na temporada 2015-16;

69 italianos atuam pelos 2 times italianos do PRO12 (média de 34,5 italianos por time) na temporada 2015-16;

 

Tais números incluem os estrangeiros naturalizados como sendo “locais”. O número de atletas de cada um desses nove países atuando em uma das quatro grandes ligas do mundo é muito maior, pois sobretudo as ligas europeias vem investindo nas importações. Nesse caso, Super Rugby e PRO12, as duas ligas com menos dinheiro, vem sendo exportadoras de atletas para o Top 14 e a Premiership, enquanto a própria Premership exportou alguns grandes nomes para o Top 14 mais rico. Nesse sentido, o número de jogadores escoceses, irlandeses, galeses, italianos, neozelandeses, sul-africanos e australianos é muito maior do que o levantamento sugere, sendo que apenas ingleses, neozelandeses e australianos (parcialmente) optam por não usarem os atletas que se transferiram para o exterior em suas seleções.

 

Outra ponderação necessária é o fato dos elencos europeus serem mais numerosos, por conta das temporadas mais longas. Em geral, os clubes do Top 14 chegam ou excedem os 50 contratados, enquanto os ingleses ficam normalmente acima dos 45 jogadores. Um clube inglês que chegue a todas as finais dos torneios que disputará teria jogado 39 partidas oficiais no ano, algumas em datas que as seleções atuam. Um atleta da Premiership que não seja poupado por seu treinador, não se lesione e siga jogando pela seleção pode acabar jogando cerca de 30 jogos por seu clube. Na França a média é quase a mesma, com 38 partidas oficiais pelo entre Top 14 e copas europeias (mas com cerca de quinze a vinte dias a mais de temporada, pois o Top 14 se inicia em agosto, ao passo que a Premiership começa em setembro usualmente). No PRO12, o calendário para os galeses é o mesmo que o dos ingleses, com 39 datas, ao passo que irlandeses, escoceses e italianos jogam menos, 33.  Para o Super Rugby, a realidade é bem distinta. Apesar das viagens mais longas e dos jogos usualmente considerados mais duros fisicamente, os jogadores atuam muito menos, com 19 partidas até a final (18 no ano que vem). Terminado o Super Rugby, os atletas se dividem entre os campeonatos nacionais, com 12 datas (Currie Cup sul-africana e ITM neozelandesa, sendo que o NRC australiano tem apenas 10 jogos para o campeão), ou os compromissos pelas seleções (The Rugby Championship e amistosos de novembro ou Copa do Mundo).

 

Opinião:

Se os estrangeiros pesam tirando espaço dos jogadores franceses ou ingleses, é fato que eles geram mais competitividade pelas vagas nos XVs titulares, o que poderia ter um efeito positivo também. Apesar dos estrangeiros, tanto Inglaterra quanto França têm à disposição ao redor de 300 jogadores de elite, mais do que qualquer outro país. A França conta com 14 clubes na primeira divisão, enquanto a Inglaterra conta com 12, contra 5 de África do Sul, Austrália e Nova Zelândia, 4 de Irlanda e Gales, e apenas 2 de Escócia e Itália. O número de atletas estrangeiros pode ser elevado, mas o número de vagas também é. Se um clube como o Toulon tem menos espaço para os franceses despontarem, clubes como Castres, Bordeaux, La Rochelle, Oyonnax, Agen ou Grenoble têm espaço para os talentos e contam com estruturas de treinamento elevadas da mesma maneira.

 

A questão maior talvez esteja antes no tamanho das temporadas – muito maiores para os europeus e, portanto, mais desgastantes – e no incentivo que os clubes maiores têm em investir em suas categorias de base a longo prazo.

 

Os resultados na base também deixam o assunto em aberto, pois a Inglaterra foi campeã mundial em 2013 e 2014 e vice em 2015, ao passo que a França, apesar de ter chegado apenas a duas semifinais nos últimos oito Mundiais juvenis (o que é um argumento a favor dos críticos), levantou a taça do Six Nations M20 em 2009 e em 2014, mais vezes do que irlandeses e galeses.

 

A chave da questão do sucesso das seleções do Hemisfério Sul talvez passe antes pelo seu sistema piramidal, baseado nas seleções provinciais e franquias regionais profissionais (munidos de academias de alto rendimento para jovens atletas) acima de clubes amadores (que garantem um universo largo de atletas à disposição para serem promovidos para a esfera profissional superior). Com variações de país a país, tal modelo ainda prevê investimentos diretos das federações e das franquias de Super Rugby no rugby amador de clubes.

 

Esse modelo também é adotado parcialmente por irlandeses, galeses e escoceses, mas com temporadas muito mais longas. Tal modelo é orientado de forma a alimentar as seleções nacionais, mantendo algum controle (variando de caso a caso) das federações sobre as equipes profissionais, em oposição ao modelo inglês e francês de clubes, que é orientados pelos próprios clubes. Como modelo de negócios, o modelo dos clubes franceses e ingleses vem se provando superior, criando equipes com poder econômico muito maior que seus concorrentes do Super Rugby ou PRO12, mas criando atritos com as seleções nacionais como efeito colateral, pois clubes e seleções passam a ser concorrentes.

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