Nesse sábado, Brasil e Espanha duelarão pela primeira vez na história, com o jogo marcado para a cidade de Villajoyosa, na região de Alicante. A Espanha tem uma longa história jogando o “Six Nations B” e já disputou inclusive uma Copa do Mundo de Rugby, no agora distante ano de 1999 – a sua única participação até o momento. O rugby espanhol vem crescendo e dois brasileiros já atuam na liga do país, a División de Honor: o scrum-half Leandro Castiglioni, o Leco, ex Tupis e SPAC, que atua no Barcelona (é, o Barça tem rugby!), e o segunda linha Flávio da Costa, do Alcobendas, crescido no rugby ibérico.

Leco falou com o Portal do Rugby fazendo um raio-X do rugby espanhol e de sua experiência por lá. Está imperdível!

 

– O Brasil chegará à Espanha após duas batalhas duras. Como estará o clima na Espanha para o jogo? A comunidade do rugby espanhol costuma encher o estádio? Deverá haver imprensa? Qual a repercussão que têm os Leões?

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Rapaziada do Portal, é um prazer poder ajudar vocês e também relembrar um pouco daquela primeira entrevista que fizemos quando eu vim para Barcelona, há pouco mais de 3 anos atrás.. o tempo voa!

Em todo este tempo que estou por aqui, deu para perceber que o espanhol gosta do rugby e conhece o esporte, por isso é bem comum ver um bom público nos locais de competição e divulgação dos jogos, tanto do campeonato nacional quanto de amistosos internacionais, em toda Espanha – basta lembrar que a final do Top 14 do ano passado encheu o Camp Nou (com recorde de público em um jogo de rugby) e a última final da Copa do Rei também encheu o estádio por aqui.

O Brasil joga contra Espanha perto de Alicante, na cidade de Villajoyosa, uma cidade pequena mas com um time na primeira divisão nacional, o La Vila, que subiu este ano e, segundo alguns companheiros de time, eles tem uma boa estrutura e um campo bem bonito – ainda não fui jogar lá, nosso jogo na División de Honor contra eles está marcado para o dia 07/01/2018.

A liga espanhola não para nesse final de semana, porém a maioria dos jogos serão no domingo, então tudo indica um bom espetáculo e uma boa audiência para o jogo do Brasil e Espanha no sábado.

No último final de semana a Espanha jogou contra o Canadá, em Madrid, e perdeu de 37 a 27 em um jogo muito duro, transmitido pela TV e se via um bom público, já que a UCM respira rugby. O Brasil por sua vez ganhou por primeira vez em solo Europeu, também no último final de semana, subindo para 27ª posição no ranking do World Rugby, assim que a expectativa do jogo é das melhores.

 

– Como você compara o nível da Seleção Espanhola com o Brasil? Qual a sua expectativa para o jogo conhecendo o time espanhol? Em que aspecto do jogo devemos nos preocupar mais? E qual o ponto fraco deles?

Difícil dizer que conheço a seleção espanhola, porque nessa convocação de novembro, apenas 10 jogadores atuam no rugby espanhol, todos os outros atuam no rugby francês e um no rugby neozeolanêes. – a curiosidade fica para as primeiras convocações do capitão do Barça, meu companheiro de time e amigo, o olímpico Joan Losada. Parabéns para ele!

Em relação a seleção espanhola, o que eu sei é o que foi mostrado e falado nestas últimas semanas: a comissão técnica é nova e esta com a ideia de reestruturar o time e se fortalecer dentro do rugby europeu depois de um bom 2016 e assim mostrar sua cara para o rugby mundial, por isso chamaram o time mais forte que podiam. – alguns dizem que tem muito dinheiro e pouco trabalho, mas sinceramente não saberia dizer.

Ainda assim, como eu comentei antes, eles perderam diante de um bom time do Canadá (mas não o melhor possível), o que deixa o jogo contra o Brasil ainda com mais fogo, já que eles vão vir babando depois de perder em casa. E a gente já ganhou do Canadá, então tudo pode acontecer.

Ainda não se sabe como será o XV dos Leones, mas a Espanha tem um bom time, equilibrado e bem forte, um pack de forwards mais pesados que o nosso (e também mais pesado que do Canadá) que montam muito bem as formações fixas e uma linha rápida que lança bem o jogo aberto e que quase toda joga a proD2.

Os torcedores e os jogadores brasileiros podem esperar um jogo muito mais duro e mais rápido que o jogo oferecido pela Bélgica, isso não tenho a mínima dúvida.

Ainda com tudo isso, acredito que podemos ter opções e podemos ter algumas surpresas com nosso tipo de jogo, porém teríamos que conseguir emplacar diversas fases para poder encontrar espaço na defesa espanhola e criar as oportunidades sem dar tempo para que eles se recuperem.

Jogar sem a bola será muito importante se o Brasil quer fazer um bom jogo e sem dúvida teremos que ter muito cuidado e ser muito contundentes em defesa para poder jogar contra eles, com apoios próximos e quando tivermos a posse de bola, e quando for possível criar velocidade depois da zona de contato ao relançar e imprimir um ritmo controlado que nos permita jogar o jogo inteiro.

Só de pensar e escrever isso tudo a vontade de estar em campo sobe a mil!

 

– Você está atuando na liga espanhola. Como você compara o rugby de clubes espanhol com o brasileiro em termos de nível de jogo e de organização?

A 1ª divisão da liga espanhola, a División de Honor, é uma liga de alto nível e pouco se compara com a brasileira.

Ela é jogada em um formato regular de todos contra todos, turno e returno, o que propõe mais jogos dentro da temporada que os jogados do campeonato brasileiro, na primeira fase alguns jogos são validos pela liga e pela Copa do Rei simultaneamente.

Dos 12 times que formam parte da liga, existem times 100% profissionais, porém a maioria dos times se encaixa em um perfil semiprofissional, com alguns atletas pagos, o que estruturalmente faz com que (quase sempre) os times com menos incentivo financeiro terminem na parte de baixo da tabela e os times profissionais disputando o título (caso dos dois times de Valladolid, que dominam as competições nos últimos 7/10 anos).

De todas maneiras, tudo isso aumenta bastante a qualidade e o nível de jogo, já que na liga existem jogadores internacionais das seleções do Chile, Fiji, Samoa, Argentina e Espanha, também muitos franceses, ingleses sul-africanos e italianos que vem jogar por aqui, até ex-Pumas, ex-Boks e ex-All Blacks estão jogando nessa temporada de 2017/18.

Isso permite que alguns clubes cobrem ingresso nos jogos e arrecadem com bilheteria e sócios, o que obriga uma boa estrutura de campo e imagem, já que todos os jogos são transmitidos ao vivo por livestream e um jogo por rodada é transmitido pela televisão, o que expõe bastante o próprio campeonato, as marcas anunciadoras e os atletas.

Resumidamente, é uma competição de mais alto nível e com maior estrutura financeira e de atletas que a realidade brasileira.

– Você é um dos dois atletas brasileiros hoje na División de Honor. Quanto você considera que você cresceu como jogador treinando e atuando pelo Barça? O Leco de hoje evoluiu quanto com relação ao Leco do SPAC e dos Tupis?

“Massa” perguntar, porque conheci esse ano o Flávio (o outro brasileiro) que joga por aqui, no Alcobendas (time de Madrid, bom time de Madrid por sinal) e somos os únicos dois brasileiros que atuam na liga espanhola.

Nessa minha quarta temporada jogando fora, posso dizer que a adaptação ao jogo foi bem difícil nos primeiros anos – mais do que eu esperava para ser sincero. A velocidade e a qualidade dos jogos da liga estão bem acima dos jogos que eu pude participar no Brasil, o sistema que exige nosso treinador esse ano também requer muito trabalho, e o ritmo necessário para poder competir nessa divisão é bem elevado.

Acho que uma dificuldade que todos atletas que tentam jogar fora passam, é que quando você chega em um país e liga diferentes do que você estava acostumado, ninguém te conhece, você não fala bem o idioma, ninguém sabe quem você foi ou o que fez no rugby, a nível nacional ou internacional, já que somos brasileiros, e o Brasil ainda é visto como país do futebol. Nesse momento surgem muitas dúvidas e para mim foi igual, por sorte sou muito cabeção e tinha a companhia de um outro amigo meu de clube por aqui (o Cleaver) e nos ajudávamos mutuamente a não abaixar a cabeça; você precisa mostrar seu valor e acreditar que pode competir.

No final você aprende que o que você fez já ficou para trás, você é o que você faz, o esforço que você aplica em cada treino, em cada momento e as ações que você realiza dentro do coletivo e sua capacidade e vontade de competir.

Tive bastante azar com lesões e cirurgias em duas das quatro temporadas o que me fez não conseguir competir como eu gostaria e nem jogar meu jogo como eu sentia, mas também me fez ser mais calmo e trabalhar mais e me preparando melhor para poder estar onde estou agora. Felizmente conquistei meu lugar dentro da equipe e este ano joguei todos os jogos da División de Honor até agora, em um dos melhores Barças dos últimos 30 anos. – já estamos classificados para a semifinal da Copa do Rei, o que não acontecia há 32 anos! (Fruto de um bom trabalho da nova comissão técnica liderada pelo Tommy Garcia, um dos melhores técnicos espanhóis na minha opinião).

Mas como eu disse, não foi fácil e não é fácil, trabalhar e ainda se dedicar a fazer os 6 treinos semanais que exige o clube é duro. Estar comprometido para competir e disputar vaga é duro. Jogar contra jogadores que vivem apenas para isso é muito duro. Os resultados compensam e quando você se vê jogando (de “igual para igual”) com jogadores que atuaram no Super Rugby, Springboks 7s, Pampas XV isso te dá mais vontade para seguir trabalhando duro e crescer.

Refletindo um pouco para poder responder a pergunta, acredito que o que mais mudou do Leco de 4 anos atrás foi minha capacidade de aceitar, quem já jogou comigo ou os treinadores que eu tive sabem que sou muito cabeça dura e não podia com erros, era muito rígido, e aprender a aceitar foi algo que tive que aprender na marra por aqui, e se não fosse, não jogava..

Acredito também que hoje em dia, além de estar melhor preparado fisicamente, tenho maior capacidade de competir, de entrar em campo com a estratégia da competição, da batalha 15 contra 15 e maior facilidade de entender essas situações dentro de um jogo, imprimindo o ritmo e a velocidade necessários para fazer dano ao adversário (começando um jogo ou sendo reserva). Claro que ainda existem mil coisas que quero melhorar como atleta, mas como comentei a vinda de jogadores experientes e de distintas escolas rugbísticas, exige que o aprendizado e treinos sejam constantes e se não for, você vai ficando para trás, literalmente..

 

– Para vocês que atuam no exterior, como vocês enxergam as poucas oportunidades para atuarem pelos Tupis? Você acha necessário estar no Brasil?

Esse tema é interessante e muito polêmico. Já conversei em off com muita gente sobre isso, e hoje em dia não concordo com esse tipo de trabalho, ao menos não no nosso nível internacional – já que não somos comparáveis a Argentina ou Nova Zelândia para usarmos somente os jogadores que atuam dentro ou para a própria Confederação.

Entendo também os lados positivos de montar um grupo homogêneo e unido, e que isso traz benefícios para nosso nível de jogo, porém acredito que em alguns momentos do ano e dependendo da competição se poderia usar/experimentar jogadores que atuam fora, se estes se adaptam ao sistema, para somar ao grupo ideias, ritmo e capacidades distintas ao que já existem. (sem comentar se são brasileiros ou naturalizados brasileiros aqui, que já entraríamos em outra questão).

Um bom exemplo foi o Chile, nosso vizinho e rival direto, que chamou dois jogadores que dividem a camisa do Barça comigo nesta temporada para irem disputar a Cup of Nations em Hong Kong, nessa janela de novembro. Além deles, outros chilenos que atuam aqui e na França também foram chamados, apresentando o melhor time possível do Chile na competição (onde infelizmente não tiveram um bom desempenho, ganhando apenas do Quênia, vamos esperar o jogo deles contra a Alemanha para ter uma melhor base de comparação com o Brasil).

Mas enfim, não acredito que seja necessário o jogador estar no país, ainda mais se este jogador esta jogando e atuando em uma categoria mais alta de jogo quando comparada com a nacional, mas acredito que sim, ele deve se adaptar às necessidades do time, apresentar um bom rendimento, e trazer boas energias ao grupo. – afinal não somos tantos os brasileiros que estão atuando fora do Brasil e sabemos o baixo nível que o campeonato nacional se encontra.

A frase que falei anteriormente, de que já não somos o que fizemos e sim o que estamos fazendo, chegou a minha mente – muito – por esse tema também, no começo me sentia triste e até com raiva de não ter oportunidades de defender o Brasil depois de vestir a camisa de 2008 a 2014 e haver sido capitão de todas as seleções nacionais, disputando diversos campeonatos internacionais nesses anos. No inicio a revolta e o sentimento de haver sido “esquecido” foi grande, não vou mentir. E meus amigos próximos de clube sabem, pois sempre foi motivo de conversas, longas conversas.

Hoje em dia o que prevalece é uma leve indignação para uma organização, a qual eu já deixei claro que tenho interesse de defender, e que mostra pouquíssimo (para não dizer nulo) interesse na sua capacidade atual como jogador, mesmo quando eles podem ter acesso a informação e aos jogos, ainda mais quando você já defendeu e suou essa camisa tantas e tantas vezes.

O Flávio, por exemplo, joga no time que se esta atualmente na 3ª  posição da liga, formado quase que 100% de profissionais, e ele conseguiu o espaço dele como segunda linha mostrando um bom jogo – e depois de o ver jogar, acredito que ele poderia agregar à nossa seleção. – fica a dúvida de se os jogadores se adaptariam ou não ao sistema e se existiria uma parcela de dinheiro da CBRu destinada a trazer estes jogadores.

De todas as maneiras é um tema que poderia estar sendo discutido por muito tempo, mas como eu disse, você precisa olhar para frente e querer competir, jogar o seu jogo, respirar fundo e querer melhorar e viver isso uma outra vez. Sempre uma outra vez.

Obrigado pelo espaço e pela confiança, vamos torcer para nossa seleção contra os espanhóis! Que esse lindo esporte seja cada vez mais valorizado no nosso país! Um forte abraço.

Obrigado, Leco!