Foto: CRUSADERS

Um arranque de Aotearoa minimamente tremido para os Chiefs, já que pela 3ª semana consecutiva somaram mais uma derrota que foi cavada frente aos Crusaders num encontro polvilhado por uma intensa chuva, que complicou por completo as acções de ataque de ambas as franquias neozelandesas. Mas quais foram os problemas dos homens de Gatland nesta 3ª jornada? E terão os Blues sido melhores que os Highlanders?

A análise a mais um fim-de-semana do Super Rugby kiwi aqui chega!

Os “Ups” da semana: a astúcia (manha) dos Crusaders e a voracidade dos Blues

O 2º ensaio de Will Jordan aos 46 minutos de jogo são um perfeito exemplo do que colocámos no título: astúcia, manha, inteligência e oportunismo. Um passe mal esboçado por Brad Webber acabou fora das quatro-linhas e Sevu Reece apercebeu-se da oportunidade, resgatando imediatamente a oval e rapidamente notou que Will Jordan acelerava na sua direcção, metendo a bola nas mãos do defesa que saiu disparado até fazer o toque de meta. Choque, confusão e com os Chiefs a pedir uma revisão do ensaio, a verdade é que a jornada não tinha para se ver porque foi legítima… não há toque do apanha-bolas, nem outro objecto entrara em contacto com a oval. O alinhamento estava “desprotegido” e, dentro das leis, Reece fez uso do oportunismo para assistir ao defesa dos Crusaders.

Foi, por assim dizer, uma jogada de génio dos tricampeões em título do Super Rugby que fizeram uso  do contra-ataque para infligir dano aos seus rivais de Hamilton, somando os pontos suficientes para impor uma pressão de recuperação de resultado que nunca foi possível ao adversário, apesar dos últimos 15 minutos de quase total domínio da posse de bola dos jogadores comandados por Warren Gatland. O 1º ensaio foi uma outra demonstração de rápida reciclagem de bola, visão de jogo eficiente e rápido aproveitamento de oportunidade, fazendo uso de elementos como o apoio ao ruck imediato, o pontapé alto e caído para as costas de uma defesa que não estava recomposta e a sorte de quem quer marcar pontos.

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Se por terras de Christchurch o cinismo e o transformar da posse de bola em ensaios, já para Auckland a equipa que melhor se apresentou em campo mereceu ganhar e, mais uma vez, foram os Blues! A equipa de Bauden Barrett, Rieko Ioane, Hoskins Sotutu, entre outros, somou a sua 7ª vitória consecutiva na temporada (4 no Super Rugby “normal” e 3 no só circunscrito à Nova Zelândia) subindo o seu recorde de conquistas numa só temporada, apesar de terem termido na 2ª parte e que no final chegou-se a pensar o pior, não fosse a extraordinária capacidade defensiva evocada num maul dinâmico.

Os Blues foram capazes de chegar ao ensaio por quatro ocasiões, mas sem grandes rasgos ou jogadas brilhantes colectivas, notando-se novo jogo cinzento de Otere Black enquanto Beauden Barrett esteve demasiado longe da acção para dar outro ritmo ao ataque em equipa. Mas a forma voraz como os jogadores dos Blues lançavam-se quer com a bola nas mãos – Caleb Clarke foi exemplo disso mesmo com uma série de extraordinárias jogadas – ou sem ela – como aconteceu no ensaio de Dalton Papalii que carregou bem um mau pontapé de Scott Gregory – demonstra que são uma franquia completamente diferente do que eram em 2019 ou nos anos anteriores, apresentando uma capacidade mental dominadora e focada.

A visão de jogo de Reece e o oportunismo (3:38)

Os “downs” da semana: caos no handling do Chiefs e pé frio dos Highlanders

Passando por cima dos problemas dos Blues em conseguir desenhar um fio de jogo compacto a partir da ligação do nº10, vamos aos dois problemas que foram mais visíveis nos Chiefs e Highlanders: falta de aproveitamento as oportunidades nos Highlanders e os contínuos erros crassos na condução de bola nos Chiefs. Os landers voltaram a ser compactos na defesa durante a maior parte do encontro, mas faltou capacidade de rasgo para criar debilidades na defesa dos Blues de outra forma, tirando-se o chapéu Mitch Hunt pela forma como lutou e tentou desenhar continuamente boas jogadas para que a sua equipa aproveitasse.

Contudo, o três de trás raramente surgiu com espaço (ou nunca soube o criar) com a bola nas mãos, caçados constantemente por uma 3ª linha “agressiva” e altamente alerta da formação de Auckland, impondo esta sérias dificuldades aos Highlanders para inventar uma quebra-de-linha imparável, limitando o raio de acção e das escolhas para a estratégia de ataque. Não sendo possível ganhar consecutivos metros com fases, os homens de Aaron Mauger tentaram apostar no jogo ao pé, de forma a forçarem erros nos Blues… porém, esta “ideia” saiu gorada quando os perseguidores não foram capazes de caçar a bola ou de impor uma pressão de nível, como se pode ver no ensaio de Rieko Ioane na primeira metade do encontro. Foram 25 pontapés que na sua larga maioria foram incertos ou inconclusivos, ajudando os Blues a ter outra paz no controlo de jogo.

E os Chiefs? Foram vítimas, reféns e vilões do seu próprio destino, com excessivos erros quer no controlo de bola ou em ter calma para processar a estratégia de jogo. Nos últimos 10 minutos chegaram a estar 4 minutos dentro dos últimos 30 metros do terreno da formação da casa, tentando encontrar uma brecha numa defesa de categoria dos Crusaders que foi repelindo com excelência as entradas de Sowakula, Cane, Tupaea ou McKenzie, sem estes conseguirem desenhar o caminho para o empate (no mínimo), acabando por perder o controle da oval.

Os passes mal atirados, a pouca clareza na limpeza e garantia dos rucks ou a forma precária como a oval foi tratada foi uma constante, notando-se em certos momentos um certo pânico nas tentativas de saída com bola na mão, esfumando-se o trabalho colectivo geral. Conseguiram chegar aos últimos 20 metros, sem nunca realmente serem uma ameaça para os Crusaders que foram frios e focados na missão de aguentar com as entradas dos seus adversários.

O jogo ao pé mal esboçado dos Highlanders (ver a partir 2:08)


Os craques da rodada: Reece, Clarke, Tu’u e Cane!

Dois pontas e dois terceiras-linhas, não tem que enganar esta semana no nosso poker de Ases. Will Jordan foi o MOTM dos Crusaders-Chiefs, realizando uma série de excelentes acções especialmente no captar de bolas altas e no sair a jogar. Contudo, Sevu Reece foi fulcral nos dois ensaios dos Crusaders, com duas assistências para o seu defesa sem esquecer aquela capacidade agressiva na defesa ou com a bola em seu poder, impondo um total domínio no seu corredor.

Caleb Clarke foi o melhor jogador da semana, esboçando espectaculares arrancadas com um poder total que desarma qualquer placador, acelerando magicamente por entre os defesas. Tem características que encaixam naquilo que os seleccionadores All Blacks apreciam e pode mesmo vir a ser o caso mais sério da época (opinião inicialmente lançada pelo nosso leitor assíduo, Tomás Cardoso).

Micahel Tu’u combateu com todas as forças para garantir uma dimensão titânica dos Highlanders, especialmente no jogo contínuo onde foi chamado constante ao serviço, como revelam os 50 metros, 13 entradas no contacto e uma quebra-de-linha.

Já Sam Cane pode não ter realizado uma exibição espectacular ao jeito do Super Rugby, mas é extraordinário o trabalho invisível que o asa faz durante os 80 minutos, caçando adversários por 10 ocasiões (não falhou qualquer placagem) e forçou alguns erros no breakdown aos Crusaders.

Os números

Mais pontos marcados: Dalton Papalii (Blues) e Will Jordan (Crusaders) – 10 pontos
Mais ensaios marcados: Dalton Papalii (Blues) e Will Jordan (Crusaders) – 2
Mais quebras-de-linha: Will Jordan (Crusaders) e Caleb Clarke (Blues) – 2
Mais placagens: Cullen Grace (Crusaders) – 15 (19 no total, mas 4 falhadas)
Mais turnovers: Shannon Frizell – 3
Mais defesas batidos: Damian McKenzie (Chiefs) – 5
Melhor da Jornada: Caleb Clarke (Blues)