ARTIGO OPINATIVO – A eleição para a presidência do World Rugby, a federação internacional, será neste domingo, online, com o inglês Bill Beaumont (atual presidente) e o argentino Agustín Pichot (atual vice presidente, mas agora na oposição) concorrendo para liderarem o rugby mundial de 2020 a 2024.

Os dois lados prometem mudanças, mas Pichot vem propondo transformações mais profundas nas estruturas do rugby que permitam maior participação dos países do chamado “Tier 2” (o segundo escalão mundial, isto é, as nações que não jogam o Six Nations e o Rugby Championship), seja na estrutura administrativa/decisória da entidade, seja na reformatação do calendário mundial de seleções. Pichot ainda aborda o uso da tecnologia (e a entrada de vez do rugby no mundo dos e-sports), algo que não é abordado por Beaumont – e que é crucial para o rugby disputar espaço no mundo atual tão competitivo do entretenimento.


Pichot quer competições mais acessíveis aos países emergentes (e, com ele, a pauta da “Liga Mundial” voltará), assim como mais votos para o “Tier 2” no Conselho do World Rugby (hoje, dos 51 votos do Conselho, 30 estão nas mãos dos 10 países do “Tier 1”). O argentino fala em Copa do Mundo com 24 times, algo que segue silencioso do lado inglês. O rugby feminino é pauta para os dois candidatos igualmente, com Pichot precisando provar mais do que Beaumont nesse aspecto – ainda que, vale lembrar, seu projeto de “Liga Mundial” contemplava uma estrutura feminino correspondente. E Pichot ainda trabalha mais a questão do sevens. Já no aspecto do bem estar do atleta e das mudanças nas Leis, ambos os candidatos parecem alinhados – portanto, espere uma continuidade nessa história da busca por um rugby mais seguro.

 

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Quem ganhará?

A disputa será certamente acirrada, com o Six Nations apoiando Beaumont e o Rugby Championship apoiando Pichot. A batalha pelos votos está entre as federações continentais e as nações do “Tier 2”, mas, independente de quem vencer, o que está claro é que o lado vitorioso terá que negociar e fazer concessões ao lado derrotado. Pela primeira vez, a eleição do rugby está de fato dividida ao meio, disputada por dois projetos que convergem em alguns aspectos, mas divergem em pontos cruciais. É difícil enxergar que haverá prontamente uma revolução caso Pichot vença, pois ele não terá quase metade do Conselho a seu favor. Por outro lado, Beaumont, se vencer, não poderá “sentar” em uma pauta tão conservadora e precisará dialogar com o lado que apoiou Pichot. A pressão por mudanças no rugby está mais forte do que nunca.

 

Como comparar o World Rugby de 2020 com a FIFA de 1974?

Em 1974, o brasileiro João Havelange assumiu a presidência da FIFA e iniciou um projeto que mudou o futebol mundial. É verdade que Havelange trouxe consigo esquemas de corrupção, mas isso não significa que ele não tenha trazido mudanças positivas à estrutura do esporte, que se tornou mais aberto aos países emergente com sua gestão – transformando a Copa do Mundo em um evento absolutamente global, e o futebol no imperador de todos os esportes.

O rugby pode tirar muitas lições positivas daquela história – bem como aprender as lições para poder lidar com interesses escusos que fatalmente aparecerão com o crescimento do esporte. Afinal, a eventual corrupção não seria evitada impedindo o rugby de ser mais democrático, mais aberto – ela precisará ser combatida com transparência, caso ameace nosso esporte. Para os que repetem que o rugby é o “segundo esporte mais praticado do mundo”, lá vai um alerta: é “papo furado”. Nosso esporte ainda está longe de ser global como necessita e é justamente isso que está em disputa nesta eleição. Assim como a mesma questão esteve presente na história da FIFA há 50 anos.

A história da Copa do Mundo da FIFA começou em 1930 com o francês Jules Rimet, herdeiro da política francesa de fomentar o esporte internacionalmente (como fora Pierre de Coubertin com os Jogos Olímpicos). Naquele momento, o futebol tinha popularidade e força em duas regiões: Europa e América do Sul, onde ele estava se profissionalizando.Os dois continentes dominaram o futebol política e economicamente desde cedo – e a ascensão sul-americana se deu antes da criação da Copa do Mundo, com o Uruguai vencendo a medalha de ouro do futebol nos Jogos Olímpicos de 1924 (em Paris) e de 1928 (em Amsterdã), considerados como o principal evento internacional para o futebol na época. Aliás, a final de 1928, opusera Uruguai e Argentina. Rimet, com isso, concedera a sede da primeira Copa do Mundo aos uruguaios – em um mundo eurocêntrico, tal movimento precisa ser ressaltado.

Nas edições da Copa do Mundo anteriores à Segunda Guerra Mundial, no entanto, países de fora desses dois continentes chegaram a jogar o Mundial. Além da América do Norte, que sempre teve ao menos uma vaga direta na Copa do Mundo (em todas as suas edições), a África esteve presente no Mundial de 1934 com o Egito, ao passo que a Indonésia representou a Ásia em 1938 (quando ainda se chamava Índias Holandesas). O mundo desses primeiros Mundiais era um mundo de viagens de navio longas e desgastantes – e um mundo no qual Ásia e a África quase inteiras eram ainda colônias europeias. Na bola, os britânicos seguiam de costas para a Copa do Mundo, não tendo participado de nenhuma das edições anteriores à Segunda Guerra Mundial (que durou de 1939 a 1945).

Rimet presidiu a FIFA até o Mundial de 1954. Em 1950, a Índia garantiu a vaga asiática, mas desistiu sem tempo para ser substituída, ao passo que em 1954 a Coreia do Sul participou pela Ásia – mas a África seguia de fora, com a maioria dos países lutando por independência ou sem recursos para competirem internacionalmente. Vale lembrar que até 1978 a Copa do Mundo contava com apenas 16 participantes.

Depois do francês, no entanto, os britânicos voltaram a ter preponderância na política do futebol, com dois presidentes ingleses se destacando entre os anos 50 e 70: Arthur Drewry (1955 a 1961) e Stanley Rous (1961 a 1974). Neste período, a participação de asiáticos e africanos minguou. A FIFA sob Drewry passou a não conceder mais vagas diretas na Copa do Mundo a países de fora da Europa e Américas.

Para o Mundial de 1958, Ásia e África realizaram uma eliminatória conjunta e seu vencedor, Israel (na época ainda jogando futebol na Ásia), teve que enfrentar um time europeu, Gales, em repescagem, sendo derrotado. Ou seja, a Copa do Mundo voltava a ser uma competição apenas de Europa e Américas.

Para 1962, Ásia e África tiveram eliminatórias separadas, mas seus campeões precisaram jogar repescagens contra europeus, com Marrocos (vencedor africano) perdendo para a Espanha e a Coreia do Sul (vencedora asiática) caindo contra a Iugoslávia. Mais uma vez, a Copa do Mundo fora jogada sem africanos ou asiáticos.

A pressão africana e asiática ocorreu, mas a FIFA de Stanley Rous concedeu apenas 1 vaga a ser dividida entre os dois continentes para o Mundial de 1966. Os africanos reagiram, boicotaram as eliminatórias, e a Coreia do Norte se classificou ao Mundial – assombrando a Itália ao produzir uma das maiores zebras da história.

O sucesso daquela seleção da Coreia do Norte e o boicote africano levaram a FIFA a conceder e se abrir em 1970, dando uma vaga para cada continente (Israel se garantiu pela Ásia e Marrocos pela África). Porém, o estrago estava feito. Com os países africanos e asiáticos tendo poucas condições de participarem dos processos decisórios da FIFA e com poucos recursos para viajarem, ganhou força a candidatura de Havelange – um brasileiro, isto é, um homem vindo da “periferia” do mundo, em um momento que a Guerra Fria era realidade e o “movimento não alinhado” de países do “terceiro mundo” ganhava protagonismo. Havelange prometia mudanças concretas e por isso pôs fim à FIFA “dos britânicos”. Havelange soube ler o momento do mundo, que acabava de vivenciar a independência de dezenas de países na África, Ásia, Oceania e Caribe, deixando para trás o colonialismo europeu.

Havelange prometeu expandir a Copa do Mundo. Ao ganhar a eleição de 1974, o brasileiro não tinha mais como mudar a Copa do Mundo de 1978, a última com 16 times. Porém, prometeu um Mundial com 24 times para 1982 e o entregou, dando mais vagas a africanos e asiáticos. A FIFA de Havelange passou a investir dinheiro no mundo emergente e conseguiu o retorno, na forma de um futebol com cada vez mais países envolvidos nas eliminatórias, com africanos e asiáticos se tornando progressivamente mais competitivos. De 63 países envolvidos nas eliminatórias para o Mundial de 1970, a FIFA ganhou 103 participantes em 1982. Havelange encerrou seu ciclo em 1998, expandindo a Copa do Mundo para 32 times e contando com 174 países nas eliminatórias – e elegendo Japão e Coreia do Sul como sedes da primeira Copa do Mundo na Ásia, em 2002. Mais do que isso, a FIFA criou novos torneios, como os mundiais juvenis, e a confederações continentais ampliaram suas competições. Quando deixou a FIFA, já havia confirmado a criação do Mundial de Clubes (de 2000), expandindo a atuação da entidade para o mundo dos clubes inclusive.

A era da televisão ao vivo contribuiu imensamente para o sucesso do futebol da FIFA, criando um grande mercado de patrocínios. Entre o fim dos anos 60 e o início dos 70, transmissões ao vivo de televisão a cores eram novidade para a maior parte do mundo. Havelange entendeu a nova tecnologia, as mudanças e as oportunidades abertas e fez a FIFA fazer bom uso disso. Infelizmente, enquanto transformava a FIFA em um sucesso comercial e em uma entidade realmente global, com participação igual de todos os países, criava uma máquina de corrupção.

Curiosamente, a demanda por um rugby mais aberto está ocorrendo logo após o Japão receber o Mundial. Japão que nunca foi comparável com nenhuma outra nação do “Tier 2”, pois o rugby é grande por lá há décadas. Porém, o Mundial 2019 fez explodir um mercado latente. Do mesmo jeito, Havelange ganhou força após 1970, quando era o México que recebia a primeira Copa do Mundo da FIFA fora da Europa e da América do Sul (equivalentes a “Six Nations” e “Rugby Championship” do rugby). O futebol também já era importante no México, que jogara todos os Mundiais desde 1950, sempre sem brilho (como os japoneses no rugby). O Mundial de 1970, no entanto, fez o futebol ganhar outro espaço no México – semelhante ao Mundial de 2019 do rugby no Japão. Contudo, em 1970, Stanley Rous concedera à América do Norte/Central uma segunda vaga no Mundial (conquistada por uma fraca seleção de El Salvador), enquanto o rugby não ofereceu à Ásia uma segunda vaga em 2019. El Salvador, depois, criaria o caos para os mexicanos roubando-lhe a vaga na Copa do Mundo de 1982. Ironia ou prova de que o investimento na expansão compensava para o cenário global?

Pichot oferece vários pontos positivos de comparação com Havelange. Ao falar em tecnologias e e-sports, Pichot mostra que entende o mundo atual e suas oportunidades – como Havelange enxergando as oportunidades imensas que uma crescente televisão ao vivo e global oferecia. O argentino claramente enxerga que apoiar os países emergentes do rugby, o chamado “Tier 2”, é um investimento, e não um gasto. É um investimento no futuro do esporte. O mesmo que via Havelange com relação a africanos e asiáticos. O rugby precisa investir em seus países – e não manter uma estrutura fechada que favoreça sempre os mesmos. É óbvio que o rugby não terá condições de seguir o caminho do futebol e se tornar tão popular quanto ele. Mas o rugby pode mais, bem mais, do que o cenário atual. Parece que é isto que está em jogo.