Foto: Bruno Ruas

ARTIGO OPINATIVO – O futuro do Super Rugby está sendo discutido intensamente agora por conta tanto da candidatura de Agustín Pichot à presidência do World Rugby, com suposto apoio da SANZAAR, como também pela crise financeira do rugby australiano, que vive uma batalha de posicionamentos, com a CEO Raele Castle recebendo apoio de um lado e críticas de outro.

Na Austrália, o debate sobre as solução para a crise financeira do esporte vem abrindo espaço a sugestões de que o país deveria ter uma competição focada no Pacífico e dar as costas à África do Sul e à Argentina. Do lado sul-africano, as possibilidades sobre um alinhamento maior com a Europa vem aumentando, em especial pelos boatos de uma negociação com o Six Nations. Tal assunto é uma continuidade dos argumentos que defendem a ida de Bulls, Lions, Sharks e Stormers para o PRO14, juntando-se a Cheetahs e Kings na liga europeia no futuro.

 

Qual a situação do Super Rugby?

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Como já argumentei antes, considero o Super Rugby a melhor liga do mundo, mas, paradoxalmente, uma insustentável dentro de uma economia inflacionada do rugby. Por quê? Os mercados que alimentam o Super Rugby não são os melhores para a manutenção de uma liga de ponta que concorra com os clubes europeus economicamente. África do Sul e Argentina são economias instáveis – e o rugby sul-africano ainda tem a barreira de uma população em geral pobre (dividida ou dando preferência ao futebol). A Nova Zelândia é pequena demais e, na Austrália, o Super Rugby não consegue competir em popularidade com a NRL (Rugby League) e a AFL (futebol australiano), em um país que também não é grande em termos de população (25 milhões de habitantes, isto é, menos de metade da França, por exemplo).

Porém, o maior problema com o Super Rugby mora nos custos da operação, com viagens muito longas (são 16h de voo entre África do Sul e Nova Zelândia e quase o mesmo tempo de viagem da Argentina para a África do Sul, pois não há voos diretos entre os dois países) e, sobretudo, as diferenças grandes de fuso horário. Os grandes jogos dos times sul-africanos contra os neozelandeses na Nova Zelândia, por exemplo, têm pontapé inicial entre 6 da manhã e 9h30 da manhã na África do Sul. Não é horário bom para a TV, tendo seu impacto comercial e no trabalho de popularização. Para piorar, viagens com trocas brutais de fuso horário são ruins para o bem-estar dos atletas.

O maior argumento favorável para a permanência dos sul-africanos no Super Rugby é a qualidade dos jogos contra os neozelandeses, que são importante para a força dos Springboks (ainda que o número de Springboks baseados no rugby europeu já esteja aumentando todo ano).

Além disso, teme-se que um racha no Super Rugby mine o futuro do Rugby Championship. Tal situação não é tão simples, uma vez que uma eventual vitória de Pichot mude os rumos do rugby de seleções, com a criação de uma liga mundial. De todo modo, a participação dos Boks no Championship independe da presença de times sul-africanos no Super Rugby. E é fato que tal distinção dependeria de mudanças na organização e nos contratos da SANZAAR.

Para a África do Sul, o aumento de sua participação no PRO14 (a liga que conta com times de Irlanda, Gales, Escócia e Itália) tem algumas vantagens:

  • O fuso horário é o mesmo, ou seja, o desgaste das viagens é menor (mesmo que o tempo de voo seja na casa das 10-12 horas) e os horários das transmissões são melhores;
  • Os contratos em moedas europeias (libra, euro) tendem a ser melhores;
  • O PRO14 ainda oferece um calendário mais longo, com mais oportunidades de bilheteria e transmissões;
    • Este ponto é uma meia verdade. O PRO14 poderia oferecer facilmente 22 jogos, além do mata-mata, ao passo que o Super Rugby só oferece 16 jogos, além do mata-mata. Porém, o Super Rugby é seguido da Currie Cup, que oferece ao menos 6 jogos hoje. A questão maior é a tentativa de acesso sul-africano à Champions Cup, o que, consequentemente, faz com que cada jogo do PRO14 valha mais, pela briga pelas vagas na competição mais importante;

A Currie Cup, o campeonato sul-africano, que ainda tem times que não jogam PRO14 ou Super Rugby, não precisaria morrer. Ela poderia ser um mata-mata, com os 6 times maiores e vaga para outras 2 equipes vindas de um campeonato sul-africano qualificatório, para não matar as demais equipes do país. Aliás, a Currie Cup tem potencial para receber equipes de outros países africanos e desenvolver a região.

Na minha visão, os benefícios do PRO14, pragmaticamente, são maiores e, com isso, a ida de Bulls, Lions, Sharks e Stormers para a competição, abandonando o Super Rugby, faria sentido. No entanto, ele só faria realmente sentido se houvesse a chance de tais equipes seguirem com alguns jogos anuais contra os neozelandeses e australianos.

É neste cenário que o projeto de Bernard Laporte, candidato  a vice presidente do World Rugby na chapa de Bill Beaumont (isto é, contrários a Pichot), ganha força. Laporte propôs a criação de uma Mundial de Clubes que, no cenário de uma migração sul-africana para o PRO14, permitiria que Bulls, Lions, Sharks e Stormers ainda pudessem fazer alguns jogos anuais contra neozelandeses e australianos, ainda que talvez em campo neutro (pois a proposta do Mundial de Clubes anual é de jogos em uma sede predeterminada, para evitar viagens).

O único problema maior com o PRO14, na minha visão, é a presença italiana, que não vem fazendo bem ao próprio rugby italiano. Recentemente, a criação de uma liga continental europeia, envolvendo potencialmente italianos, russos, romenos, georgianos, espanhois, portugueses, alemães, chegou a ser cogitada. Talvez seja um caminho melhor para o rugby continental europeu, que opera com uma economia inferior a dos clubes ingleses e franceses e das franquias irlandesas. O torcedor na Itália valoriza seus clubes e não quer passar a vida toda perdendo. O problema, é lógico, é uma possível recessão pós COVID-19.

E do lado australiano e neozelandês? Honestamente, australianos e neozelandeses estão perdendo uma imensa oportunidade em não olharem seriamente ao Japão. O rugby japonês está imenso e tem um potencial econômico muito maior que o da Oceania. O fuso horário é quase o mesmo e a capacidade dos times japoneses de trazerem atletas que hoje estão na Europa é grande. Para mim, Austrália e Nova Zelândia ganham economicamente se transformarem o Super Rugby em uma liga da Ásia-Oceania, com os japoneses.

O problema foi a decisão equivocada (e, na verdade, fruto de pressão sul-africano) da exclusão dos Sunwolves do Super Rugby. O Japão está agora planejando uma nova liga sua e o tempo está se esgotando para australianos e neozelandeses somarem forças com os japoneses.

Mais que isso, a Austrália também ganharia se fundisse seu campeonato nacional atual, o NRC, com o Global Rapid Rugby, a liga criada pelo Force. Isso levaria times das Ilhas do Pacífico e mesmo de Hong Kong a um campeonato que também busca maior investimento. Eventualmente, Hong Kong poderia ser casa de um time de Super Rugby juntando o poderio econômico chinês com a força esportiva das Ilhas do Pacífico, representando a região.

Por fim, resta a Argentina. Talvez, o melhor caminho para os argentinos seja terem foco na SLAR e darem maior liberdade a seus atletas de buscarem mercados no exterior. Os Jaguares poderiam ser uma franquia de Buenos Aires na SLAR e a liga sul-americana se tornar um celeiro de atletas.  O argumento de que os Pumas precisem jogar o ano todo juntos (como Jaguares) é interessante conceitualmente, mas talvez não dialogue com a realidade do interesse do rugby e, sobretudo, da economia argentina. Porém, se o projeto argentino mudar e passar a permitir que mais Pumas joguem na Europa ou Japão, será preciso que esteja casado com garantias do World Rugby de que os atletas sempre serão liberados, para que o trabalho com os Pumas antes de seus jogos possa ter qualidade. Por fim, se o projeto de Mundial de Clubes sair do papel, será importante que a SLAR tenha vaga(s) nele.

 

Qual o meu cenário favorito?

Diante dos prós e contras, para mim, o modelo ideal de ligas é o seguinte:

  • Super Rugby com Austrália, Nova Zelândia, Japão e alguma outra representação da Ásia/Pacífico;
  • PRO 14 com toda a África do Sul, Irlanda, Gales e Escócia;
  • Top 14 francês;
  • Premiership inglesa;
  • MLR norte-ameriana;
  • SLAR sul-americana;
  • Uma liga/copa pan-europeia, com mais espaço para italianos e outros países;

Com tal cenário, um Mundial de Clubes, como o proposto por Laporte, poderia ser promissor, com 24 times:

  • 6 do Super Rugby;
  • 6 do PRO14;
  • 4 Top 14;
  • 4 Premiership;
  • 1 MLR;
  • 1 SLAR;
  • 1 Copa Europeia;
  • + Atual campeão;