Brasil 1964

1964 foi o ano que não acabou. Se o Brasil ainda discute o Golpe Militar e seus desdobramentos, para o rugby brasileiro esse ano marca a maior vitória de sua história: o segundo lugar no Campeonato Sul-Americano de Rugby, disputado no campo do SPAC, em São Paulo, quando o Brasil empatou ineditamente com o Chile e superou pela última vez até hoje o Uruguai. O Campeonato Sul-Americano de Rugby só seria disputado novamente no Brasil em 1973, quando, a exemplo de 1964, foi realizado inteiramente no campo do SPAC, e em 1991 e 1993, quando a competição não teve sede fixa e o SPAC recebeu alguns dos duelos do Brasil. Tais torneios foram seguidos por uma longa espera, que só se encerrará quando os Tupis entrarem em campo na Arena Barueri para enfrentar o Chile, no dia 26 de abril de 2014, marcando o retorno do torneio continental adulto de Rugby XV ao território brasileiro.

O “Sula” de 1964 foi o terceiro evento do torneio. O primeiro foi disputado em 1951, como parte da 1º edição dos Jogos Pan-Americanos, em Buenos Aires, marcando também a fundação da atual UAR (União Argentina de Rugby). O Brasil jogou o torneio e saiu sem nenhuma vitória, caindo diante de argentinos, uruguaios e chilenos. A competição só voltaria a ser organizada em 1958, quando foi definitivamente chamada de Campeonato Sul-Americano de Rugby e estabelecida uma primeira periodicidade, a cada três anos. A sede foi Santiago, no Chile, e o Brasil não esteve representado. Em 1961, foi a vez de Montevidéu, que tornou a ver mais uma vez a seleção brasileira ocupar a lanterna, perdendo para os três rivais.

O Brasil seria a escolha mais lógica para próxima sede. A missão de organizar o campeonato ficou a cargo de Harry Donovan, veterano do rugby brasileiro, presidente da recém-fundada União de Rugby do Brasil (criada em 1963) e do SPAC, entre 64 e 65. Argentina, Uruguai e Chile atenderam ao chamado e confirmaram presença. Os jogos seriam disputados entre os dias 15 e 22 de agosto, na recém-inaugurada sede do SPAC, na Guarapiranga, que viria a se tornar o campo mais tradicional do rugby Brasileiro.

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A comissão técnica, formada por Bush, Robinson e Cowen, escolheu em uma seletiva realizada no dia 24 de julho, em São Paulo, os 20 guerreiros que iriam representar o país nos três jogos do campeonato. A Argentina, como já era claro naquela época, seria campeã. Vinha para o Brasil com o que tinha de melhor, incluindo Carlos Contepomi, pai dos futuros Pumas Manuel e Felipe Contepomi, além dos lendários Adolfo Etchegaray e Aitor Otano, jogadores que em mais de uma década de Pumas bateram Escócia, Gales e Irlanda. Com isso restava às outras seleções uma dura briga pelo segundo lugar.

O campeonato começou com uma vitória tranquila da Argentina contra o Uruguai, por 25 a 6, no dia 15. O Brasil entraria em campo no dia seguinte contra os Cóndores, equipe que os brasileiros nunca tinham vencido. Jogando sempre com camisas brancas e diante de nada menos que 2 mil pessoas, de acordo com reportagem da Folha de S. Paulo, o Brasil fez uma grande apresentação, mas acabou empatando o jogo em 16 a 16. O selecionado da antiga URB começou muito bem, com um penal convertido por Truscott e um try (que valia 3 pontos na época) de Bush, terminando o primeiro tempo vencendo por 11 a 3. Na segunda etapa, o Chile diminuiu a vantagem, com um try de Martinez, mas viu Pawson aumentar o placar para o Brasil, em mais um try. O time da casa vencia o jogo até os segundos finais, quando um try convertido do Chile empatou a partida. Fim de jogo, 16 a 16.

Na segunda rodada o Brasil enfrentou a Argentina, jogo em que acabou derrotado por 30 a 8. No outro jogo, os Teros bateram os chilenos por 15 a 8. Com esses resultados, os Pumas se consolidaram na liderança do campeonato, enquanto a disputa da segunda colocação ficaria para o jogo entre Brasil e Uruguai, na última rodada.

O último fim de semana de competição começou com mais uma vitória fácil e a confirmação do título pelos argentinos, que bateram o Chile por 30 a 8. O jogo de encerramento ficaria por conta do Brasil, que enfrentaria o Uruguai. O time nacional deixou sua melhor apresentação para o final. A equipe atropelou os Teros, contando com os chutes precisos de Truscot e mais uma atuação de gala de Derek Bush. Vitória brasileira por 15 a 8, em seu último triunfo contra o Uruguai, conquistando o histórico vice-campeonato.

Naquela oportunidade, a arbitragem brasileira foi representada por Kenneth Carr Hunter, que apitou todos os jogos que não envolviam a seleção brasileira.

Escrito por: Diego Gutierrez

Foto: Seleção Brasileira de 1964. Cedida por Jean Rheims – arquivo pessoal de Leon William Rheims, presidente da ABR de 1984 a 1986

 

Dia: 16/8/64: Brasil  16  x 16 Chile  (1º tempo: 11 x 3)

Brasil

Tries: J Bush, Franklin e Pawson

Conversões: Truscott (2)

Penais: Truscott (1)

Cartões: L Bush (vermelho)

Leslie Hepburn, Diego Bush, Luis Bush, C. Betenson, Thomas Pawson, John Bush, Anthony Franklin, Alastair Steel, Alan Bath, Michael Truscott, John Young, Robin Muir, Eric Bradley, Jeremy Hughes, Malcolm Aylett.

Chile:

Tries: Barrios, Martinez e Velazco

Conversões: Barrios (1) e Mingo (1)

Penais: Mingo (1)

Cartões: Armas (vermelho)

J.M. Mingo, E. Barrios, D. Dickson, C. Echavarri, G. Velazco, C. Solari, D. Huggins, C. Reska, J. Muñoz, L. Kittsteiner, G. Martinez, G. Armas, L. Ilabaca, A. Leontic, J. Kinglake.

Árbitro: A. Camardon  (Argentina)

 

Dia 19/8/64: Brasil 5 x 30 Argentina (1º tempo: 0 x 11)

Brasil 

Tries: L Bush

Conversão: Truscott

Akemi Tanaka, Diego Bush, Luis Bush, Anthony Truscott, Thomas Pawson, John Bush, Anthony Franklin, Alastair Steel, Alan Bath, Michael Truscott, John Young, Alan Pow, Eric Bradley, Jeremy Hughes, Malcolm Aylett.

Argentina     

Tries: Neri (2), Molina Berro, McCormick, Goti, Etchegarray, Dartiguelongue e Contepomi

Conversões: Molina Berro (2) e Queirolo (1)

J. Dartiguelongue, H. Goti, J.C. Queirolo, M. Molina Berro, E. Neri, C. Contipomi, A. Etchegaray, E. Verardo, N. Gonzalez del Solar, G. McCormick, A. D’Amilano, B. Otaño, R. Gallo, M. Puigdevall, E. Scharemberg.

Árbitro: Ian Murrie  (Chile)

 

Dia 22/8/64: Brasil 15 x 8 Uruguai (1º tempo: 9 x 5)

Brasil

Tries: D Bush (2)

Penais: Truscott (3)

Leslie Hepburn, Diego Bush, Luis Bush, Thomas Pawson, John Hughes, John Bush, David Pirie, Alastair Steel, Alan Bath, Michael Truscott, Robin Pheysey, Alan Pow, Eric Bradley, Tadao Uryu, Malcolm Aylett.

Uruguai        

Try: Saavedra

Conversão: Lerma (1)

Penal: Lerma (1)

D. Paysee, P. Pike, K. Yorston, R. Cassarino, A. Soto, A. Lerma, D. Sedgfield, J. Gomes, M. Saavedra, A. Benquet, H. Pepe, A. Pollak, C. Giavi, A. Pardo Iriondo, G. Estape.

Árbitro:  Ian Murrie  (Chile)