Foto: João Pires/Fotojump

Na quarta-feira, a CBRu teve que lidar com um artigo do blog Olhar Olímpico do UOL que apontou para a atual situação financeira da entidade. A coluna Tackle Alto do HP tocou no assunto também, em paralelo com o artigo do UOL, sendo redigido sem conhecimento de que o assunto já estava ganhando uma outra dimensão com a pauta indo para fora da comunidade do rugby.

Nesta quinta-feira, a CBRu enviou um comunicado aos clubes e federações comentando o artigo do UOL – mas, infelizmente, o texto não foi enviado ao Portal do Rugby. De qualquer forma, um dos pontos que a CBRu criticou com relação ao texto do UOL foi o fato do colunista do site ter chamado de “aposta arriscada” a meta estipulada para os Tupis alcançarem a Copa do Mundo, isto é, 2023, que se tornou algo central para a entidade e acaba por mexer nas contas da Confederação, pela necessidade de investimento crescente na seleção. O texto da CBRu defendeu que é preciso haver metas altas para nortearem o trabalho e que não se foca apenas nos Tupis.

Seja como for, a meta de ter o Brasil jogando a Copa do Mundo de 2023 precisa ser tirada da esfera do sonho. A meta é real e as chances existem do Brasil estar lá. Isso seria motivo de orgulho e felicidade para todo o rugby brasileiro, indubitavelmente. Uma recompensa a todos, sobretudo atletas e comissão técnica, que tanto têm elevado a imagem dos Tupis recentemente com feitos notáveis.

O caminho será difícil, pois pelo que se ouve nos bastidores a World Rugby – a federação internacional – não deverá expandir de 20 para 24 participantes o Mundial, o que demandará – provavelmente – que o Brasil deixe para trás Uruguai e/ou Canadá entre 2021-22. Para os que lembram que o Brasil já venceu os canadenses, fica também o lembrete de que o Canadá não tinha força máxima e que seria preciso sucesso tanto dentro como fora de casa. Mais que isso, até 2021 tanto uruguaios como canadenses terão condições semelhantes à do Brasil, pois os dois países rumam ao profissionalismo, com o Uruguai entrando para a mesma Liga Sul-Americana que o Brasil deverá entrar em 2020 e o Canadá contará com pelo menos uma franquia na Major League Rugby até 2020 também – mas talvez já a partir de 2019.

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Em outras palavras: o Brasil já provou que tem hoje material humano para ir longe e quebrar tabu atrás de tabu. Mas também está claro que não estamos evoluindo sozinhos e que ainda não somos favoritos a 2023. Será preciso subir mais degraus – que demandarão continuidade e aumento no investimento.

O grande problema disso tudo é outro: se a meta hoje é de chegar a 2023 e se ela for alcançada, haverá uma nova meta sendo colocada na sequência, que demandará ainda mais foco nos Tupis.

Ou seja, se o Brasil for ao Mundial 2023 e for derrotado em todos os seus jogos (que é o esperado) ou saia de lá com não mais que uma vitória (que também é possível, caso o sorteio dos grupos ajude), a próxima meta seria vencer uma ou duas partidas em 2027. Ou seja, brigar entre os melhores do chamado Tier 2 (segundo escalão) mundial.

Caso isso seja cumprido também, a nova meta para 2031 seria provavelmente brigar para ir às quartas de final em 2031. E assim sucessivamente.

Caso o Brasil falhe em ir a 2023, a meta será 2027 e a conta para os anos seguintes seria a mesma, apenas um pouco adiada.

Não tenho muita dúvida de que essa será a sequência lógica para a CBRu. Afinal, não é preciso conhecer muito sobre esporte no Brasil para saber que chegar a uma Copa do Mundo de qualquer esporte não significa nada para o brasileiro que só acompanha futebol. Para ganhar atenção real é preciso se destacar. Portanto, 2023 sem vitórias ou com no máximo uma vitória certamente não seria suficiente às ambições de ninguém – Conselho, patrocinadores, fãs menos racionais, público leigo desinformado ou imprensa em geral.

Mais que isso, ainda é preciso ter clareza sobre o quanto o brasileiro conhece de fato a Copa do Mundo de Rugby. Para o leigo (alguém que não é ainda fã de rugby) valorizar a Copa do Mundo não basta dizer que ela é grande. É preciso familiaridade. É preciso que a competição e seus times não sejam meras curiosidades exóticas. É preciso que o público brasileiro já esteja assistindo e acompanhando rugby internacional. É preciso que produtos como o Six Nations e o Rugby Championship sejam tão familiares como é hoje, por exemplo, a NFL. É preciso valorizar o rugby como produto – e não apenas a nossa seleção. É preciso valorizar as transmissões de rugby na TV e na internet (as feitas legalmente!).

Então, a constatação é uma só. Acreditar que 2023 fará uma revolução é algo ingênuo. Eu espero estar redondamente enganado e ver sim uma revolução. Mas a história dos esportes no Brasil não sugere isso. E a história da Copa do Mundo de Rugby não sugere isso. Portugal jogou a Copa do Mundo de 2007, não voltou à competição e vive um buraco sem fim. A Rússia foi à Copa do Mundo de 2011, não voltou para 2015, e só está indo a 2019 porque o rugby europeu de seleções virou um circo em 2018. O Uruguai jogou 2 Mundiais seguidos (1999 e 2003), ficou de fora de 2 seguidos (2007 e 2011) e voltou em 2015 apenas. O Canadá foi para todas as Copas do Mundo e nunca viveu um momento tão ruim em seu XV masculino. A Itália ainda não alcançou as quartas de final nenhuma vez e só sustenta a pressão por resultados porque a comunidade do rugby italiano tem cultura de rugby e paixão pela ovalada independente dos resultados. Cada caso é um caso, cada país tem uma dimensão, seria falso dizer que necessariamente o Brasil tomaria o mesmo caminho de todos esses exemplo.

Porém, o que é preciso para chegar na Copa do Mundo e ficar nela? Certamente na receita estão rugby de clubes forte, rugby juvenil forte, rugby com relevância social consolidado.

Portanto, chegar a 2023 não pode justificar nenhum abismo entre a seleção nacional e o rugby de clubes. Chegar a uma Copa do Mundo tem que ser fruto da realidade do rugby como um todo. A seleção deve ser reflexo do rugby nacional. Uma seleção forte que seja reflexo de clubes amadores fortes – não no nível de jogo deles, mas fortes como instituições de prática da modalidade. Reflexo de federações estaduais operantes. E reflexo de times profissionais autossustentáveis (espaço que pelo visto será ocupado por franquias da Liga Sul-Americana) que sejam consequências de um mercado de fãs de rugby que demandem isso e gerem engajamento e receita compatíveis com os gastos exigidos para se fazer esporte profissional. Isso tudo demanda dinheiro sim (portanto a solução não é simples), mas também demanda pé no chão, para se enxergar caminhos lúcidos (sem ilusões ou promessas falsas) para o plano amador.

Depois de chegarmos a 2023 haverá a meta nova de 2027. E a meta nova de 2031. E a meta nova de 2035… Festa, gratidão e parabéns aos que levarem os Tupis até o Mundial. Mas vamos parar de pensar nisso. O que importa é criar um cenário de rugby sustentável, no nível amador e no nível profissional – para o masculino e para o feminino, para o adulto e para o juvenil. E isso não será alcançado em 2023 e nem por causa de 2023. Nada garante que a classificação a 2023 tenha como efeito mais receita e mais oportunidades para toda a estrutura. Mas certamente 2023 terá como consequência mais necessidade de investimento nos próprios Tupis, que podem virar um fim em si mesmos.

Vamos tomar cuidado com as metas. Elas têm cara de apostas. Goste-se do termo ou não.

1 COMENTÁRIO

  1. Vale salientar que a copa do mundo também serve como eliminatórias. O 3º colocado de cada grupo se classifica para a copa do mundo seguinte. A meta é se classificar para a copa do mundo, depois permanecer pelo menos em 3º no seu grupo. Economicamente, isso representa muito para o Brasil. É preciso analisar o quanto financeiramente representa isso e como re-aplicar esse dinheiro no nosso rugby interno.