Aquele primeiro tempo contra o Uruguai no Pacaembu foi mesmo empolgante para o torcedor brasileiro. Convidamos Beukes Cremer, scrum-half da Poli, ex Tupis, para fazer uma análise de dois aspectos chave do sucesso inicial brasileiro contra os Teros: os chutes e a linha defensiva. Confira o texto dele!

Agradecemos à ESPN por ceder os trechos dos vídeos.

 

Jogo de chutes

O Brasil realmente evoluiu em termos de compreensão do jogo e do espaço no campo. Com isso, os Tupis cresceram em seu jogo de chutes.

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O que podemos ver é que o Brasil está começando a entender que tipos de chutes são necessários em certos momentos do jogo. Normalmente, o Brasil confiou nos camisas 9 e 10 para fazer o jogo de chutes, mas agora temos também a ação do primeiro centro e do fullback, o que está ajudando muito. Ficou claro isso no jogo com o Uruguai.

Podemos ver o fullback recebendo a bola e o abertura entrando para limpar o ruck. O primeiro centro estava muito bem ciente de quem entrou no ruck e se posicionou. Na sequência, o centro já estava olhando para as opções do espaço atrás da defesa, ciente de que o Brasil não estava em boa posição para jogar com a bola na mão. Também era mais difícil para o scrum-half chutar no meio do campo. Assim, podemos ver o centro se deslocando para o meio para criar as opções necessárias. Com isso, os demais jogadores ficaram cientes de que ele iria chutar e também criaria uma boa linha de perseguição.

O que Moisés, o primeiro centro brasileiro, viu foi que o ponta do Uruguai estava razo e abria espaço atrás, enquanto o 10 uruguaio estava mais profundo e mais para o meio do campo. Moisés deu um chute mais baixo para saltar e não dar aos jogadores de Uruguai tempo para apanharem a bola. Foi ótima leitura do camisa 12 do Brasil, para ter consciência do espaço e também qual tipo de chute seria necessário.

 
 Aqui temos um scrum na linha de meio campo, com o abertura indo para um chute de up and under. O que é ótimo aqui é o camisa 10 ter consciência de onde a linha de 22 m está, pois é muito difícil julgar um chute da linha de meio campo para as 22. O abertura rival realmente oferece uma bola para os brasileiros apanharem, o que foi bom, pois o Brasil teve chance de fechar o espaço para o contra ataque uruguaio. O chute foi bom, mas ainda melhor foram as linhas de pressão do Brasil, pressionando o jogador oponente, forçado a cometer um erro, estando ele fora das 22, impossibilitado de pedir mark. Trata-se de um chute melhor que o visto antes.

O primeiro centro deu um chute raso e longo, ao passo que o abertura deu um chute alto e curto. Portanto, temos uma evolução na consciência do jogo como uma equipe.

 
Vemos também os jogadores conscientes de quem deve ir ao ruck e quem deve assumir cada função. O abertura entende que o scrum-half recebeu o tackle e passa a fazer a função do 9, enquanto o fullback assume a função do 10.
 
O bom aqui é o fato do abertura chutar com a direita, o abertura com a esquerda e o fullback com a direita, o que levará mais dificuldades à defesa para cobrir os dois lados.
O 15 enxergou o espaço nas costas da defesa dos Teros e desferiu um chute raso no fundo da linha, não deixando tempo aos oponentes de reação. Boa percepção brasileira, colocando pressão sobre os uruguaios e forçando-os a jogarem desde as 22 de defesa.
 
Esses tipos de chutes requerem muito treino e quando os chutes são dados a esmo não se torna possível jogar pressão sobre os adversários. Podemos ver como são os All Blacks nesse aspecto, pois eles são os melhores do mundo no jogo de chutes, com compreensão e execução de quase 100%.
 
 
Linha defensiva
 
Podemos ver a defesa do Brasil indo muito bem no primeiro tempo com os Teros. Os atletas avançando em blocos para fecharem o espaço dos uruguaios foi algo notável. Foi ótimo ver tanto o abertura capaz de conduzir a linha de defesa como o hooker ser capaz de jogar atrás da linha.
Com o time avançando junto e mantendo ajustados seus canais, o Uruguai não teve opções e tempo para pensar o que fazer. O importante da defesa é conseguir tomar decisões antes do ataque. Se você permite que o ataque avançar sobre a defesa a tendência é o ataque ganhar vantagem, criando pressão.
 
É possível ver a consciência do hooker e do asa sobre suas funções. O abertura deu um tackle sólido e deixou livres o hooker e o asa para defenderem na sequência. É possível ver o abertura Josh fazer o tackle e retornar rapidamente à sua posição. O Brasil conseguiu liberar seus atletas rapidamente, voltando logo às suas posições, enquanto os Teros tinham ainda 4 homens dentro do ruck. O que significava o Brasil jogando com 15 naquele lance contra 11 do Uruguai. Com isso, os camisas 2 e 6 fecharam o espaço e tornaram a defesa em ataque, ganhando metros.
 Agora, é avaliar como os Tupis vão seguir evoluindo no jogo desse sábado contra os Estados Unidos, em São José dos Campos, com transmissão 17h40 da ESPN.
Escrito por: Beukes Cremer
Crédito dos vídeos: ESPN
Foto: Daniel Venturole/Portal do Rugby