Os Tupis: quais os pontos fortes e fracos? Com comentários de Pedro Leal!

ARTIGO COM VÍDEOS – O Rio 2016 começa nessa sexta, dia 5, com o pontapé inicial para o rugby feminino no sábado, dia 6, e para o rugby masculino na terça, dia 9. Hoje, aprofundamos um pouco mais nossas prévias com uma série de análises de vídeo da seleção masculina, feita pelo nosso especialista português Francisco Isaac. E para dar um tempero ainda mais especial, Isaac convidou o ídolo do rugby português Pedro Leal – maior pontuador da história da seleção de Portugal – para fazer comentários sobre os Tupis. Imperdível!

 

A visão de Pedro Leal

Portal do Rugby: Pedro, em 2016 jogaste por 3 vezes frente ao Brasil… qual é a tua opinião em relação aos Tupis?

Pedro Leal:  Os Tupis evoluíram muito e jogam muito à imagem da Argentina nao fossem treinados pelo argentino Andrés Romagnoli. Uma equipe com muita determinação e alma!

 

PDR: Qual é a atitude do Brasil dentro de campo? Há algum pormenor ou detalhe que te lembras e possas destacar?

PL: Como disse na resposta anterior, o Brasil é uma equipe que luta muito e joga com paixão e isso são fatores importantes para o crescimento do Brasil!

 

PDR: Tu fizeste parte da melhor geração de jogadores de 7’s de Portugal, com algumas conquistas de Sonho… qual é que foi o segredo para atingirem tantos pódios?

PL: Trabalho!! Muito espírito de sacrifício e treinar muito!! Esses fatores são determinantes para se evoluir! Hoje em dia os jovens gostam pouco de sofrer…

 

PDR: O Brasil vai jogar frente às Fiji… há alguma forma de parar o carrossel de offloads?

PL: Os jogos contra as Fiji são sempre complicados porque os 12 jogadores são todos muito bons com muita magia! Parar esses offloads é quase impossível mas para se ganhar às Fiji tem que se defender muito bem com muito apoio ao placador tanto no ataque como na defesa!! Tentar evitar esses offloads na defesa e no ataque trabalhar muito e não ir “ fácil” para o chão!! Tentar manter a posse de bola e evitar os turn over que contra as Fiji normalmente resultam em muitos ensaios!

 

PDR: Perante um grupo com Fiji, EUA e Argentina, achas que os Tupis conseguem chegar às finais?

PL: Hoje em dia não há grupos fáceis!! Ainda para mais nos Jogos Olímpicos! Agora nos 7´s tudo é possível!! O Brasil joga em casa, perante os seus adeptos, famílias, amigos etc e isso é um fator muito importante! Muito trabalho na defesa e tudo é possível!! Mas sendo realista, sabemos que são 3 equipes muito complicadas!!

 

PDR: Algum conselho para os teus colegas do Brasil para o Rio 2016?

PL: Conselho apenas que joguem pelo povo brasileiro!! Sei que vão dar 200% e deixar a pele em campo! Boa sorte e muita confiança!!

 

Tupis em vídeos – Por Francisco Isaac

Brasil vai ter o “direito” de tentar conquistar uma medalha nos Jogos Olímpicos do Rio? A missão é, no mínimo, complicada e vai exigir o melhor rugby de qualidade dos Tupis que abrem desde logo com um grupo muito “delicado”: Fiji, Estados Unidos e Argentina. É, sem dúvida, um grupo recheado de talento, categoria e “agressividade” ao bom espírito do Rugby.

 

No que toca a confrontos diretos no ano de 2016, o Brasil dos três adversários só jogou contra a Argentina, em duas ocasiões, que foram no Canadá e Londres. Nesses jogos os Tupis perderam por 35-05 e 28-07, apresentando algumas diferenças com os seus concorrentes diretos. Não tiveram o “prazer” de jogar contra as Fiji, mas conheceram o poderoso rugby sul-africano (sempre com derrotas, mas com o jogo no Canadá a ser fortemente elogiado pela forma como lidaram com os Blitzbokke) ou os All Blacks de “patins” (em Londres foram derrotados por 31-00, por exemplo). Mas não tomemos estes jogos e derrotas como um mau sinal… vejamos como uma experiência e uma aprendizagem para o momento mais importante da época: Rio 2016!

 

Mas então aonde pode o Brasil de 7’s melhorar? Que dificuldades demonstra? Quais são os seus pontos fortes?

 

Bem, a equipe brasileira tem, desde logo, vários problemas que estão a “prender” o seu jogo como: “mecanismos” do rugby de XV; falta de técnica de tackle; comunicação q.b.; pouco entendimento coletivo defensivo. Sobretudo o grande “mal” do Brasil é a técnica individual dos seus jogadores, notando-se erros seja no passe, na abordagem a um passe largo ou no momento de lutar no contato. Vamos começar pela última característica:

 

O Brasil tem a necessidade de ir ao contato mais do que devia… nos 7’s o contato deve ser evitado – não é fugir, é evitar – para manter a bola o mais “viva” possível. Ir ao contato possibilita a uma boa defesa recuperar a bola (contra a seleção dos Tupis vemos isso bastante) ou paralisar, por completo, a ação ofensiva. Mais que tudo se é para ir ao contato tem de ser em condições para garantir a oval e não para perdê-la. Se observarem no vídeo nº1, no jogo frente à Nova Zelândia (Londres) o Brasil estava com posse de bola assegurada, mas uma ida ao contato de Martin vai levar a que sofram um turnover e penalidade. O nº2 da seleção brasileira podia ter jogado em Fiori ou Thiago Evaristo mantendo a bola no ar e tirando a pressão de cima de si. No vídeo nº2 vejam a forma correta como o Brasil deve “atacar” a defesa em contato fechado, com Lucas Duque a não parar de mexer as pernas e as ancas, o que torna o tackle mais complicado para a defesa.

 

 

Uma vez mais, se o Brasil quer ir ao contato há que, também, saber “ler” o que o portador da bola vai fazer e apoiá-lo o mais rapidamente possível, outro aspecto que o Brasil falha, várias vezes. No vídeo nº3, temos o Brasil a jogar frente à África do Sul (Paris), num jogo que estava a caminhar para o final da 1ª parte. Com 15-00 no placar era fundamental ir para o intervalo com pontos… ora posse de bola, Fiori joga em Tanque e este por sua vez em Sancery. Este descobre um espaço para entrar, só que uma queda perante o tackle e uma reação rápida do jogador que apoia ao “tackleador”, leva a que o juiz assinale uma penalidade contra o Brasil. Aqui há que: 1º lutar mais no contato (mesmo que o “tackleador” tenha ido às pernas o jogador brasileiro tem de mexer o tronco de forma a criar dificuldades ao adversário) e em 2º o apoio ao portador da bola estar em cima do “acontecimento”. No vídeo 4, frente à Escócia (Paris), o Brasil vai ter a oportunidade de jogar uns minutos contra 6 (amarelo para Fife por tackle alto) e aproveita bem essa oportunidade. Vejam como Martin vai ter que ir ao contato e de imediato há logo um apoio rápido de Rambo possibilita manter a bola do lado dos Tupis, numa jogada que logo de seguida termina em try do nº11 brasileiro.

 

 

Por isso em suma, se o objetivo é jogar mais numa “lógica” de contato então há que fazê-lo de forma eficaz. O Brasil já demonstrou que o consegue, mas por vezes a tentação de querer fazer tudo rápido ou a falta de atenção ao pormenor na capacidade técnica de contato (não é só entrar, bater e cair) provocam erros ofensivos que originam tries para os seus adversários.

 

JOGO RÁPIDO

Peguemos pelo a situação anterior, o do try frente à Escócia como bom exemplo daquilo que o Brasil tem de fazer mais. Não interessa que estejam a jogar contra 6, o que importa é a saber como aproveitar os espaços concedidos pela defesa. A equipe brasileira gosta de “fechar” o jogo, invés de abri-lo e tentar explorar, em velocidade, a equipe adversária. Nesta situação Tanque inverteu o jogo e aproveitando uma situação de 4 para 2, consegue fazer perceber aos seus colegas o que fazer… passe, prender adversário e jogar em frente. Os processos são simples e a execução, como demonstrada, também o pode ser. No mesmo jogo, o Brasil demonstrou que tem essas aptidões como podem ver no vídeo 5. 1º um bom trabalho no contato e chão de Fiori, que disponibiliza a bola depois de trabalhar no adversário… passe longo bem executado perante uma linha ofensiva profunda e larga (muito diferente do que se assiste em 90% dos jogos do Brasil) e, logo de seguida, Lucas Muller entra bem no contato, prendendo dois jogadores para depois “brilhar” com um offload de nível para a entrada de Martin. Vejam o trabalho que Muller faz no contato, “batendo” as pernas quando está a ser “tackleado” por dois, o que dificulta a movimentação defensiva dos seus adversários.

 

No vídeo 6, contra Portugal (Paris), o Brasil consegue marcar try a Portugal – num jogo que praticamente só defendeu – porque Lucas Duque, num 1º momento, entra e força uma ruptura defensiva portuguesa (bom gesto técnico com o tronco e braços) para depois Martin conseguir ter dois “tackleadores” em cima, e o mesmo jogador, consegue  depois fazer um offload do chão para o try de Rambo. Mas já com a Argentina, em Londres, o Brasil sentiu muitas dificuldades em ter a oval em seu poder como podem ver no vídeo 7. A Argentina só teve de apostar numa atitude defensiva que pressiona q.b., mas sempre que há um passe ou movimentação atacante dos Tupis há uma boa reação… notem que o Brasil está muito “preso” e com demasiadas unidades no centro do campo, com pouca profundidade ou largura na linha para atacar. Por isso que fazer aqui? Em jeito de exemplo, Moisés Duque podia ter corrido com a bola para o lado exterior, aproveitando depois para ter o apoio do último jogador que está no ruck para criar uma situação de controlo de bola. O problema não começa e acaba no facto de estarem vários jogadores no centro do terreno, mas sim também porque Moisés Duque dá a entender o que a linha do Brasil vai fazer… o que simplifica a missão da equipe adversária. A Argentina é uma equipe que defende com classe, tem uma leitura defensiva de grande nível e que poderá fazer a diferença nos Jogos do Rio.

 

 

 

LEITURA DEFENSIVA

Voltando a agarrar na última ideia do ponto anterior, o Brasil tem de fazer uma leitura defensiva dos seus adversários. Ora sobe rápido e pressiona totalmente ou fica na expectativa… não há mal algum variar entre um e outro, pelo contrário, mas há que saber quando aplicar. No vídeo 8, jogo contra Portugal (em Paris), os brasileiros aplicaram uma excelente pressão defensiva sob a formação dos Linces portugueses, que acaba por dar em try para Portugal devido ao risco de uma intercepção por parte de Martin. Mas o jogador com a camisa nº2 não esteve mal, foi um risco assumido… se fosse ao tackle podia, mesmo assim, abrir espaço para que o jogador português tivesse um “buraco” à ponta para fugir. A atitude defensiva é esta, de pressionar o adversário até que este cometa um erro… todavia, para que isto corre tudo bem é necessário ter uma defesa individual eficaz, mas já iremos a esse ponto. No vídeo 9, frente à África do Sul, Moisés vai ler mal o ataque sul-africano, abrindo a hipótese de try para os Blitzboks. Tinha de ficar no lado exterior do ruck para impedir que existisse esta situação de 2 para 1… como podem ver o nº6 do Brasil quase que “dança” ao ritmo do jogo de mãos do jogador sul-africano. Menos mal que consegue apanhar Hougaard com Fiori a ler bem o que o seu adversário queria fazer… um offload para Senatla que é evitado com uma intercepção rápida. Nunca é fácil de aplicar uma pressão alta, é necessário que a equipe tenha uma boa condição física e que a técnica individual de tackle seja apurada.

 

 

Ora, um dos pontos mais débeis do Brasil em jogo aberto: o tackle e a forma de placar. É fulcral que para o Rio2016 que o Brasil tenha isto bem trabalhado, pois quer as Fiji, Estados Unidos da América ou Argentina gostam de “inventar”. Os fijianos têm sobretudo aquele jogo técnico único, que culmina com uma força e capacidade de entrar no espaço fora do normal… por alguma razão são campeões da Série Mundial de Sevens. Já os Estados Unidos têm velocistas que facilmente encontram o seu espaço no jogo e acabam por se escapar à defesa. A Argentina pode não ser tão hábil ou rápida, mas consegue fazer um jogo coletivo capaz e consistente. Por isso, para tentar chegar o mais longe possível, o Brasil vai precisar estar no seu melhor em termos defensivos. No jogo frente à Argentina (Londres), o Brasil sofre o primeiro try em virtude de Felipe Sancery não ter realizado qualquer tackle a Moroni da  Argentina como podem ver no vídeo. Este tipo de situações foram acontecendo em todo o ano e podem ser resolvidos a tempo dos Jogos Olímpicos. Há que existir uma comunicação maior e uma voz de comando que consiga pôr a “cabeça” dos jogadores na defesa. Os índices de confiança entre colegas têm de ser altos, como acontece no vídeo 11. Aqui Lucas Duque deixa Ioane vir subir no terreno, esperando que Felipe Sancery suba na defesa… o nº8 para além de subir, placa e consegue ainda fazer um turnover… defesa perfeita do lado dos Tupis. No sevens uma situação destas pode acarretar uma situação de try ou de vantagem ofensiva, como vemos no caso do vídeo 12. Na 2ª parte desse encontro, os brasileiros estavam a atacar, mas nova má ação ofensiva (portador vai ao chão, não luta e o apoio vem tarde) dá penalidade para os sul-africanos… uma bola comprida, em balão, é apanhada por Nascimento, que intercepta nos seus 10 metros e vai directo até à área de validação. Nem sempre uma boa defesa tem de ser uma tackle, pode ser um bom turnover. O fundamental é conseguir virar da defesa para o ataque em fração de segundo. Não pode é ficar demasiado na expectativa, com uma tackle pouco segura, “agressiva” e que consiga parar o adversário no local. A exemplo disso é o vídeo 12 no jogo frente à Escócia, em que o try de Wight provém de uma série de momentos em que a equipe do Brasil não assume uma postura de defesa de pressão… os escoceses agradecem e facilmente chegam ao try.

 

 

 

TÉCNICA INDIVIDUAL

Ponto final desta análise de jogo ao Brasil 7’s, a técnica individual. Nota-se que alguns jogadores têm a qualidade necessária para “virar” o jogo da sua equipe, como Felipe Sancery, Moisés Duque, Martin ou Rambo. Vimos em toda esta análise vários momentos de categoria, como aquele offload de Sancery ou o passe do chão de Martin, assim como a comunicação defensiva dos irmãos Duque ou a capacidade de “inventar” de Felipe Sancery. Por isso o que falta? Falta “fugir” ao jogo “pesado”, ao jogo de contato, trabalhar mais a bola de pé e de conseguir trocar mais a bola com velocidade. O Brasil tem de sair do “universo” do Rugby de XV que pede outros detalhes, com uma lógica completamente diferente. O melhor que podem fazer frente a umas Fiji ou EUA é manter a bola sob o seu controlo, por isso há que saber ir ao contato, com o portador a trabalhar no espaço e com um apoio rápido. A técnica individual não pode, de forma alguma, ser descurada no campo de sevens… é algo que as Fiji levam até ao seu mais ínfimo detalhe, para ganharem a frente às outras equipes. A nível de tackle, se notarem em maioria dos casos, o Brasil placa à rugby de XV, com boas ideias em ir aos pés ou pernas… mas podem também ir ao tronco para trancar a “oval” como lhes aconteceu no jogo frente à África do Sul, como está no vídeo 13. Terá de ser um tackle rápido e que coloque o adversário de imediato no chão, depois têm de ler e pressionar a equipe adversária. O Brasil já não disputa os rucks, o que demonstra uma importante evolução para uma equipe que vive entre o XV e os 7’s. Pode e deve tentar realizar o movimento defensivo que a África do Sul esboça no vídeo 3, em que o “tackleador” está nos pés e depois o 1º apoio vai logo à bola… penalidade a favor dos seus adversários.  No vídeo 14, vemos a Escócia a fazer o mesmo contra o Brasil, com o jogador brasileiro a cair no chão sem lutar e, depois, o nº2 escocês mete logo as mãos à bola. Movimento perfeito.

 

 

 

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