tupi vermelho

Durou pouco: 7 anos. Em entrevista ao jornal argentino La Nación, o CEO da Confederação Brasileira de Rugby, Agustín Danza, revelou que o símbolo do rugby brasileiro será trocado, o que acaba por esclarecer o motivo maior por trás da mudança da marca do rugby brasileiro que está em estudo (ao custo total de 100 mil reais). O anúncio, no entanto, não foi feito ainda por meio de uma página brasileira.

De acordo com a entrevista, o motivo é que “somos a única federação de rugby que tem uma figura masculina em seu escudo”, considerando também o uso do Tupi como “apropriação cultural”.

A mudança de símbolo também fará do Brasil um caso raríssimo de país que muda seu símbolo no rugby. Mudanças de escudo – de logomarca – são frequentes, mas mudanças de apelido não são vistas normalmente na bola oval, sendo que de todos os países do atual Top 30 do mundo nenhum trocou seu apelido depois do mesmo se popularizar. Existem apenas casos de países que não possuíam um nome difundido para alguma de suas seleções e que, por isso, buscaram criar um.

 

- Continua depois da publicidade -

Tupi NÃO é um tribo

A matéria do La Nación traz um erro grave de conceito. “Tupis” não são uma tribo específica. “Tupi” é o nome genérico dado a uma série de povos que falam línguas do tronco linguístico “Tupi”.

Tronco linguístico? É o nome que se dá a uma grande família de línguas, que têm aspectos em comum. O Tupi, para a linguística, está no mesmo patamar do “Indo-Europeu”, que é o tronco linguístico que estão a maioria das línguas europeias e algumas asiáticas: todas as línguas latinas (português, francês, espanhol, italiano), o inglês, todas as línguas escandinavas (sueco, dinamarquês, norueguês), todas as línguas eslavas (russo, sérvio, croata, tcheco, polonês), o grego, o albanês, o armênio, as línguas celtas, as línguas bálticas, o persa (iraniano) ou o hindi (falado na Índia), entre outros. Isto é, as línguas do tronco Tupi são tão variadas que se diferem entre si como o português se difere do russo.

Abaixo dos troncos linguísticos estão as famílias, como é o caso da família de línguas latinas. O Guarani, por exemplo, é uma família dentro das línguas tupis. Em geral, quando se fala “língua tupi” como sendo uma língua específica a referência é algum língua desse tronco que é usada como língua franca, isto é, uma língua mais difundida. É o caso do Nhengatu, a língua franca usada na Sul do país – e que foi em São Paulo, por exemplo, mais falada que o português até meados do século XIX. O Tupi é o único grupo de línguas indígenas que era falado em todo o território brasileiro – em qualquer região do país houve e em muitas partes ainda há indígenas falantes de uma língua tupi.

Portanto, os tupis não são uma tribo amazônica. São o conjunto de diversos povos indígenas que estão espalhados por todo o país – e que dominavam o litoral brasileiro em 1500, quando os portugueses chegaram. A origem das línguas tupis, segundo antropólogos e arqueólogos, está na região amazônica, a partir de onde se espalharam a outras partes da América do Sul, antes da chegada europeia. A mestiçagem de séculos entre indígenas, africanos e europeus é aspecto central dentro da identidade e da cultura brasileiras, com as línguas tupis sendo grandes influências na língua portuguesa falada no Brasil.

O Tupi também não se refere ao gênero masculino. Essa é apenas a escolha de quando se criou o símbolo do rugby brasileiro.

Para saber mais: Instituto Socioambiental.

 

Quando surgiu o Tupi como símbolo do rugby brasileiro?

O Tupi foi eleito em 2012 por votação popular criada pela própria CBRu. O Tupi derrotou na votação final a Arara e a Sucuri, tendo um total de 47% de votos.


Na época, o rugby brasileiro tinha como símbolo a Vitória Régia, porém o apelido “Vitórias Régias” era raramente usado dentro do país, o que justificava a busca por um apelido que se difundisse dentro da comunidade.

A Vitória Régia era utilizada no escudo da Associação Brasileira de Rugby. É frequente no mundo do rugby que ícones sejam usados nos escudos dos países mas não se tornem apelidos oficiais de suas seleções. Inglaterra, Escócia, Irlanda, Gales, França, África do Sul, Nova Zelândia, Namíbia e Alemanha são exemplos de países que não usam oficialmente como apelidos para suas seleções todos os ícones que estão retratados em seus escudos. Outros países não retratam seus apelidos em seus escudos, como é o caso de Portugal (que não tem o “Lobo” no peito).

 

E o feminino?

O fato do símbolo do rugby brasileiro retratar um homem levou o rugby feminino a buscar um apelido próprio para a Seleção Brasileira Feminina e, desde pelo menos 2014, o nome Yaras é usado para a equipe. O apelido Yaras foi escolhido dentro da seleção feminina e jamais teve um anúncio oficialmente de sua criação por parte da Confederação que, com o tempo, passou a utilizá-lo. Porém, a Yara (Iara ou Uiara) – a sereia do folclore amazônico – jamais foi retratada oficialmente na camisa da seleção feminina ou no escudo da Confederação.

 

Temática indígena no esporte

O uso de nomes genéricos indígenas dentro do esporte no Brasil é bastante comum. Entre os clubes de futebol mais conhecidos (e de longa tradição, com história nas primeiras divisões de seus estados) que fazem referência a populações indígenas estão o Guarani de Campinas (SP), o Guarani de Palhoça (SC), o Guarani de Venâncio Aires (RS), o Guarani de Divinópolis (MG), o Guarany de Sobral (CE), o Guarany de Bagé (RS), o Tupi de Juiz de Fora (MG) e o Aimoré de São Leopoldo (RS), ao passo que a Chapecoense (SC) e o Brasil de Pelotas (RS) têm o índio como mascote. Fora do Brasil, o Colo-Colo é exemplo forte da temática indígena, importante na construção de identidade nacional chilena, sendo usada por um clube de futebol popular – e que tem um homônimo na Bahia, o Colo-Colo de Ilhéus.

No rugby brasileiro, ainda há o Charrua de Porto Alegre, o Minuano de Canoas, o Guaicurus de Três Lagoas, o Xavantes de Goiânia, o Arawak e Korubos, ambos de Manaus, o Acemira de Belém, o Macuxi de Boa Vista (Roraima) e o Ymborés de Vitória da Conquista, enquanto o Chapecó faz uso de temática indígena também.

Nos Estados Unidos, o tema gerou protestos recentemente, com o time da NFL Washington Redskins sendo criticado pelo uso do nome, que em português significa “peles-vermelhas”. A polêmica, entretanto, se deu pelo fato do termo “redskins” e da forma com que o indígena é usado pela franquia serem entendidos como pejorativos ou racistas.

 

Quando haverá a mudança?

De acordo com ata da reunião que levou a tal decisão, a mudança ocorrerá até o jogo contra os Maori All Blacks – novembro deste ano.

3 COMENTÁRIOS

  1. Por um lado, R$ 100.000 é pouco para uma instituição que depende da própria imagem para expandir a modalidade; por outro, R$ 100.000 para investir em eventos e equipamentos no Brasil, seria bárbaro.

    De novo, se por um lado, de fato, adotar o rosto de um nativo nacional pré-cabralino como “mascote” e “apelido”, num contexto em que os próprio indígenas estão longe de serem motivo de orgulho (far far away), sem serem compreendidos e aceitos, é uma apropriação bizarra. Por outro lado, sem querer salvar o “mascote”, estimular uma seleção plurinacional das nações do Xingu, que jogam suas Olimpíadas próprias (com convidados internacionais) etc, talvez fosse interessante. Um dia chegaremos a eles de novo.

    Vida longa à seleção de XV brazuca! Vida longa aos povos nativos!

  2. Eu particularmente acho que a escolha de apelidar nossa seleção de TUPIS foi muito acertada. É um símbolo imponente e tem tudo a ver com o Brasil. Há quem diga que se trata de “apropriação cultural”, mas eu não vejo assim. Usar a figura do índio como um brasão na camisa é um modo de honrar nossas raízes, assumir nossa ancestralidade sem vergonha ou receio. Nosso povo é a mistura das 3 raças e isso faz parte da nossa identidade, tenhamos orgulho disso.
    Ademais, não foram dirigentes que escolheram o nome. Foi a torcida! Eu mesmo votei na época. Respeitemos a decisão dos torcedores.