O Americas Rugby Championship está perto do seu início, com o Brasil estreando no dia 3 de fevereiro contra o Chile em Santiago. Chamamos nosso analista português, sempre imparcial, Francisco Isaac, para apontar onde os Tupis precisam evoluir.

Depois de resultados históricos na competição, vencendo Estados Unidos (em 2016 por 24-23) e Canadá (2017 pelo mesmo resultado), a expectativa fica: será que o Brasil vai conquistar nova vitória histórica em 2018?

Para analisar o que “O Brasil não pode fazer” e o que “tem de fazer mais”, foram analisados os jogos de novembro contra a Espanha e Alemanha.

 

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RUCK – COMO NÃO DEFENDER

O Brasil foi dominado pela Espanha no que toca aos rucks e breakdowns, com os Tupis não conseguindo arrancar faltas ou bolas nesse ponto (com a exceção de um, já no final do encontro, em que há um bom trabalho no “limpar” do ruck).

Não só isso, o Brasil foi apanhado desprevenido com os jogadores espanhóis saindo disparados do ruck para, não só ganharem metros, como também para marcarem tries.

Veja-se ao minuto 28:00. O Brasil mete o jogador adversário no chão, mas depois ninguém fica no eixo para defender… a terceira linha afasta-se e permite que o jogador espanhol saia pelo meio do ruck sem que ninguém o consiga apanhar, terminando a jogada em try.

Esta situação é repetitiva. O Brasil deixa os espanhóis fugirem pelo meio do ruck por três vezes, recuando em todas as ocasiões. Onde estão os postes? E a comunicação?

Equipes como a Argentina ou Uruguai gostam de arriscar nestas fugas pelo ou junto ao ruck, uma vez que é parte daquele jogo mais anárquico e rápido que essas duas seleções gostam de praticar.

Como resolver esta questão? O formação tem de falar mais, tem de exigir que os jogadores defendam essa posição no ou junto do ruck, sendo que o próprio 9 deve estar atrás do ruck com atenção redobrada.

 

NÃO HÁ TACKLE, NÃO HÁ SUCESSO

Outro apontamento defensivo que esteve mal contra a Espanha e Alemanha foi o tackle, que, para além de ter apresentado vários erros durante os dois encontros, custou metros e tries sofridos aos Tupis.

O exemplo dado em uma série de tackles ruins e uma má defesa coletiva no vídeo abaixo… não há consistência em termos de linha defensiva.

O tackle não é feito às ancas ou com a postura correta, já que os brasileiros ficam à espera do jogador adversário, sem assumir a posição correta dos pés (se notarem estão os dois em linha) e/ou atiram-se… contra jogadores em velocidade têm de efetivamente meter o ombro e olhar para onde vão aplicar o tackle.

Outro exemplo demonstrativo desse erro está no vídeo abaixo, em que a Espanha encontra facilidade para  fugir pelo meio dos defesas, com o Brasil a defender mal no conjunto. Sem tackle efetivo, não há equipe que sobreviva, por melhor que o seu ataque seja.

Mas os tackles não são o único problema na defesa, já que há outro bem mais complicado e que trouxe vários dissabores para os Tupis: a linha de defesa.

Nos dois jogos analisados, o Brasil apresenta vários problemas em termos de comunicação e de subida de uma linha uniforme ou, pelo menos, que não seja irregular.

Vejam o detalhe do Brasil a não subir como uma linha bem formada apresentando tudo em escada irregular. Em fases mais avançadas do campo, equipes rápidas como a Espanha podem tirar proveito.

Mais uma vez, o problema advém de comunicação e trabalho coletivo, que abre espaço suficiente para que seleções de bom nível consigam fugir, ganhar metros e criar/marcar tries.

Um dos tries da Alemanha é notória não só a falha de tackle mas a linha defensiva irregular, que apresenta sérias variações nocivas para uma defesa completa.

Estes pequenos detalhes levaram o Brasil a ficar à mercê do ataque alemão e espanhol, expondo as suas maiores fraquezas, bem aproveitadas por ataques dinâmicos, rápidos e que a transmissão do passe seja bom.

 

ATAQUE – PORMENORES QUE FAZEM UM TODO

O Brasil conseguiu marcar quatro tries no total dos dois jogos mais complicados, tendo sofrido mais de 100 pontos, algo crítico para o desenvolvimento e confiança dos Tupis. Mas se a defesa esteve ruim, como esteve o ataque?

Os Tupis apresentam boas jogadas em que assumem o risco e tentam demonstrar pormenores da sua veia mais “mágica”. Veja-se o 3º try frente à Espanha.

Verdade que a Espanha já não estava tão focada no jogo, mas este risco do Brasil é um sinal mais para os Tupis. Bons passes, bom apoio e uma excelente entrada de Gelado. Try!

Todavia, o Brasil continua a apresentar alguns erros de captação e transmissão de bola que têm de ser limados. Quais?

Exemplos máximos do jogo contra a Espanha, que é o melhor para perceber.

No vídeo abaixo, o Brasil tinha recuperado bem a bola num ruck, construindo algumas fases de ataque. Contudo, vai aparecer um passe para o chão que vai pôr um empecilho ao ataque brasileiro. O cansaço acumulado pode ser uma razão mas esta falta de clarividência é um problema para os brasileiros.

Recuemos em 16 minutos com relação ao vídeo acima. O Brasil vai fazer knock-on … a mini unidade que ia entrar no contacto está parada para receber a bola, quando se devia movimentar para ela. Podem pedir a bola parado? Não, há que existir algum movimento corporal para não ser apanhado por exatamente o que o defensor adversário faz (estará em impedimento).

Sem movimento e velocidade, não há conquista da linha de vantagem. O jogador brasileiro faz knock-on por causa da subida rápida do adversário e “morre” ali uma jogada dos Tupis.

No jogo contra a Alemanha podemos também ver esse tipo de erro, em que o scrum-half passa a bola já muito em cima da defesa. Para além disso, o receptor de bola estava mais preocupado com o contacto do que garantir o domínio da oval.

O Brasil não ataca totalmente mal, mas há aspectos a corrigir, a começar nos dinamismos de jogadas, na comunicação entre quem tem a bola e quem a vai receber. Por vezes a falta de velocidade, ou as falsas antecipações prejudicam a execução do ataque.

 

RESULTADOS FINAIS: FALTA DE BÁSICOS?

Posto estes apontamentos há que tomar em atenção a uma reflexão: o Brasil precisa de melhorar o seu rugby juvenil seja o de clube ou seleção.

O leitor pode achar estranho avançarmos com esta declaração, mas é assente na questão de que vários erros defensivos ou ofensivos dos Tupis advêm da falta de bases de formação e que só poderiam ter sido limitadas ou resolvidas com um rugby juvenil bem dinâmico.

O tackle eficaz, o passe seguro e completo ou a disputa legal no ruck, são pormenores que têm de ser observados, discutidos e ensinados numa idade mais juvenil. O queimar etapas vai trazer sempre problemas e pequenos erros (que não foram corrigidos) que juntos se tornam num problema enorme para a equipe.

Por melhor fisicamente que um jogador adulto seja, por mais treinos que faça (e aqui há um limite de número de horas que um jogador pode treinar sem se prejudicar) ou por melhor que os treinadores sejam, não há forma de resolver os problemas que existem de base.

Só com muitos anos de treino é que um jogador conseguirá resolver vários apontamentos negativos, contudo um jogador de seleção tem, em média, poucos anos para trazer os seus inputs e dar dinâmica à sua posição e equipe.

O leitor pode arguir que a Alemanha “contratou” quase uma equipe inteira para jogar pela seleção, e, em parte, é verdade essa afirmação.

Todavia, essas contratações foram de jogadores que jogaram rugby desde muito jovens, crescendo ligados à modalidade, ou seja, os germânicos têm uma equipe que já tinha aprumado boa parte dos seus problemas, faltando só uma maior consistência entrelinhas.

A seu tempo os alemães vão ter problemas graves para dar continuidade ao rugby adulto, uma vez que o seu juvenil tem apresentado falhas profundas e maus resultados nos Europeus de M18 ou M20.

Já a Espanha para além de ter jogadores formados em clubes franceses, tem apostado de forma séria na sua formação, com o crescimento tanto do número de atletas de juvenil, dando outra profundidade aos seniores.

O campeonato espanhol está francamente melhor e começa a dar passos bem interessantes no Planeta da Oval. A somar a isso, foram à final do Europeu de M20 e têm apresentado boas gerações de jovens jogadores.

O Brasil está num momento crucial para garantir o futuro e necessita de reforçar a sua base juvenil para conseguir dar outro “músculo” e “massa cinzenta” à seleção adulta que tem feito boas exibições, mas que se nota a falta de básicos em momentos mais nevrálgicos do jogo.

 

DataHora (Brasília)CidadeEstádioSeleção da casaplacarXplacarSeleção visitante
27/01/201823:10Vancouver (Canadá)BC PlaceCANADÁ29X38URUGUAI
03/02/201816:10Santiago (Chile)Estadio Municipal de La PintanaCHILE14X16BRASIL
03/02/201823:10Los Angeles (EUA)Stub Hub Center ESTADOS UNIDOS17X10ARGENTINA XV
09/02/201820:10São Paulo (Brasil)Estádio do PacaembuBRASIL18X27URUGUAI
10/02/201818:40Ushuaia (Argentina)Estadio Agustin PichotARGENTINA XV57X12CHILE
10/02/201821:10Sacramento (EUA)Papa Murphy's ParkESTADOS UNIDOS29X10CANADÁ
17/02/201820:05Fullerton/Los Angeles (EUA)Titan StadiumESTADOS UNIDOS45X13CHILE
17/02/201822:15Punta del Este (Uruguai)Estadio Domingo Burgueno, MaldonadoURUGUAI17X34ARGENTINA XV
17/02/201823:40Langford/Victoria (Canadá)Westhills StadiumCANADÁ45X05BRASIL
24/02/201813:10Santiago (Chile)Estadio Municipal de La PintanaCHILE15X67URUGUAI
24/02/201817:40São José dos Campos (Brasil)Estádio Martins PereiraBRASIL16X45ESTADOS UNIDOS
24/02/201820:10San Salvador de Jujuy (Argentina)Estadio 23 de AgostoARGENTINA XV40X15CANADÁ
03/03/201813:10La Serena (Chile)Estadio La PortadaCHILE17X33CANADÁ
03/03/201815:40Montevidéu (Uruguai)Estadio CharruaURUGUAI19X61ESTADOS UNIDOS
03/03/201818:10São José dos Campos (Brasil)Estádio Martins PereiraBRASIL08X28ARGENTINA XV

 

Foto: © FOTOJUMP

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