Fotoi; Bruno Ruas @ruasmidia

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ARTIGO OPINATIVOOs Springboks não jogarão o Rugby Championship em 2020. O fato se soma à saída dos times sul-africanos do Super Rugby, à migração provável deles para o PRO14 (que se tornaria PRO16 em 2021-22) e ao baixo interesse que a África do Sul parece revelar com relação à proposta australiana de um Super 8.

Enquanto os motivos para a desistência sul-africana do Championship são pragmáticos (pouco tempo de preparação para sua seleção, como resultado da pandemia), o fim do Super Rugby foi o fim de um projeto de união e colaboração entre sul-africanos, neozelandeses e australianos. É justamente por esses dois fatos ocorrerem no mesmo ano que o futuro do Rugby Championship pode estar também em xeque.

É verdade que a África do Sul vem sendo cogitada como futura integrante do Six Nations (Seven ou Eight Nations), mas tal proposta não avançou e, até o momento, parece estar vivendo muito mais no domínio do sensacionalismo. De todo modo, um ano sem o Championship e a migração de Lions, Bulls, Sharks e Stormers para o PRO16 podem resultar no fortalecimento dos defensores de que o rugby sul-africano deveria se alinhar de vez com a Europa, abandonando qualquer projeto conjunto com a Oceania.

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Para tornar a situação mais dramática, com todos os atletas dos Springboks jogando suas temporadas pelo calendário europeu (isto é, setembro a junho), o Rugby Championship passaria a ter um sério problema de datas a partir de 2021. Exceto neste ano de pandemia, o Championship é atualmente jogado de agosto a setembro/outubro. Agosto para o calendário europeu é mês de férias para os atletas que jogaram os amistosos internacionais de julho. Já setembro é o primeiro mês de competições após as férias na Europa. Com a Argentina voltando a ter seus principais jogadores na Europa (por causa do fim do Super Rugby), certamente os meses de agosto e setembro são inadequados para o Championship no futuro.

Por outro lado, a proposta de transferir o Championship para fevereiro e março (meses do Six Nations europeu) não deverá ter apoio de Austrália e Nova Zelândia, que iniciam suas temporadas justamente em fevereiro. Ou seja, haverá negociações potencialmente tensas entre Nova Zelândia, Austrália, África do Sul e Argentina.

Buscando a racionalidade, não há (ainda) motivos para histeria sobre o assunto. O interesse de ter a África do Sul jogando anualmente contra a Nova Zelândia é forte ainda dos dois lados, por se tratarem de duas das melhores (ou talvez, de fato, as duas melhores) escolas de rugby do mundo. Springboks e All Blacks se beneficiam mutuamente do intercâmbio e da rivalidade entre si. É óbvio que interessa aos dois lados, ao menos do ponto de vista técnico (e cultural), manter o intercâmbio.

No entanto, manter os jogos anuais entre Springboks e All Blacks em algum formato não implica manter vivo o Rugby Championship. Uma coisa não exige a outra. Os dois (Nova Zelândia e África do Sul) poderiam viver de amistosos entre si com uma taça em disputa, por exemplo (prejudicando Austrália e Argentina). Como Austrália e Nova Zelândia entraram em uma guerra fria entre si, tal cenário não seria implausível, mas (até o momento) as relações entre Austrália, Argentina e África do Sul são boas o bastante para pensar que a cooperação ainda deva prevalecer. Como alternativa ainda, uma Liga Mundial (com formato distinto daquele proposto por Agustín Pichot) poderia igualmente solucionar o problema dos duelos entre os velhos rivais do Hemisfério Sul.

O futuro do Rugby Championship estará em debate nos próximos meses. Primeiramente, será debatida sua continuidade. Depois, seus meses de disputa. Em meio a tudo isso, a maior perdedora em potencial é a Argentina, que já viu os Jaguares ficando órfãos do Super Rugby e agora precisará também lutar pelo futuro dos Pumas.