Foto: Bruno Ruas @ruasmidia

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ARTIGO OPINATIVO – O assunto vai e vem. O jornal australiano Sydney Morning Herald publicou na última semana que a Liga Mundial para o rugby XV masculino voltou a ser negociada nos bastidores do rugby.

O projeto nasceu em 2019 com Agustín Pichot, na época vice presidente do World Rugby (a federação internacional). A premissa era simples e óbvia. Num mundo no qual a indústria esportiva e de entretenimento está cada vez mais disputada, amistosos vêm perdendo espaço no mundo esportivo. No futebol, a UEFA, ao substituir boa parte dos amistosos internacionais pela sua Nations League, foi capaz de aumentar a relevância comercial do futebol de seleções. No críquete, os amistosos foram organizados numa nova liga mundial, que passou a dar outra razão de ser para o nível internacional. No rugby, é mais do que natural que se discuta o mesmo, pois a tendência é que as receitas para amistosos caiam com novas gerações perdendo interesse por jogos que “não valem nada” (ainda que tenham seu valor alicerçado na tradição).

Pichot primeiramente desenhou um modelo que copiava a UEFA Nations League, com 12 times divididos em 4 grupos com 3 equipes cada. O torneio seria anual, com sede pré determinada para as semifinais e final e com sistema de rebaixamento e promoção. O problema é que Pichot deu um passo adiante antes da hora e propôs algo mais radical na sequência. Deixando de lado a ideia preliminar, a proposta passou a ser de transformar Six Nations e Rugby Championship em parte da Liga Mundial (batizada de “Nations Championship”). Era previsível que isso daria errado, já que os britânicos e italianos são radicalmente contrário a rebaixamento no Six Nations. O projeto foi derrotado e a pandemia colocou o assunto de lado.

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Novo plano poderá produzir campeão com mais derrotas do que vitórias

Renascido, o plano agora é desassociar a competição de vez do Six Nations e do Rugby Championship, o que parece sábio. A esperança é de que, sem mexer com a integridade do Six Nations, a competição nova possa ter rebaixamento e promoção livremente. A proposta prevê que 6 europeus encarem 6 times do Resto do Mundo todo ano, com 6 jogos em julho, quando os europeus jogarão fora de casa, e 6 jogos em novembro, na Europa, seguidos de uma quarta data para a grande final entre o melhor time da Europa e o melhor do Resto do Mundo. A(s) repescagem(s) de promoção e rebaixamento ocorreria também na quarta data de novembro.

Isto significa que não haveria jogos entre europeus e entre os times do resto do mundo, o que estaria reservado para o Six Nations e o Rugby Championship. Ou seja, cada uma das 12 equipes enfrentará apenas 6 oponentes. Assim, será possível que uma equipe com 6 vitórias em 6 jogos não avance à final. Do mesmo jeito é possível o campeão ter acumulado mais derrotas do que vitórias ao longo do campeonato. Tudo porque a final seria necessariamente entre um europeu e um time de outro continente.

Aqui, falo “Europa” e “Resto do Mundo”, mas a matéria original e o mundo do rugby em geral preferem falar em “Norte” e “Sul”, o que lamentavelmente expõe quão preso ao passado imperial britânico o rugby ainda segue. Afinal, não faz o menor sentido falar em “Norte” e “Sul” quando Ásia e América do Norte são consideradas “Sul” no rugby e jogariam no grupo “Sul”. O rugby para ser global precisa mudar seu vocabulário. Parece detalhe, mas não é.

Tal conceito equivocado de “Sul” leva a uma insanidade que igualdade inviabiliza a liga mundial do ponto de vista do bem estar dos atletas. Uma seleção europeia que viajar em julho ao “Hemisfério Sul” poderá dar a volta ao mundo em um mês literalmente. Quer ver? Quais seriam as 6 melhores seleções do “Sul” hoje? África do Sul, Argentina, Austrália, Nova Zelândia, Fiji e Japão. Isto é, 4 nações da Ásia/Oceania. Se um país europeu visitará 3 nações em julho, isso significaria necessariamente uma visita ao Pacífico na semana seguinte (ou anterior) que visitaria Argentina ou África do Sul (ou ambas). Insanidade.

Quer ver? Usando o ranking mundial para designar os times:

Chave Europa: França, Inglaterra, Irlanda, Gales, Escócia e Geórgia

Chave Resto do Mundo: África do Sul, Argentina, Austrália, Nova Zelândia, Fiji e Japão

Exemplo de tabela – Julho: ARG vs FRA (na ARG), NZL vs FRA (na NZL), JAP vs FRA (no JAP) / Novembro: FRA vs AUS (na FRA), FRA vs FIJ (na FRA), FRA vs AFS (na FRA);

Neste caso, a França visitaria numa semana a Argentina e na semana seguinte a Nova Zelândia, o que demandaria muito dos atletas, sabendo não só do tamanho da viagem, mas, sobretudo, da mudança de fuso horário e do fato de ter outra viagem e outro jogo logo na sequência, sem descanso.

Porém, o maior problema está mesmo na briga pelo título. Por exemplo, Nova Zelândia e África do Sul não se enfrentariam nesse modelo proposto. Ou seja, ambas poderiam ter 6 vitórias em 6 jogos. Algo bem plausível. Mas apenas uma iria à final. Do mesmo modo, no rebaixamento, o pior europeu poderia ter mais pontos do que o segundo pior do resto do mundo e seria rebaixado.

Para mim, está muito claro que sim uma liga mundial é necessária. E que, obviamente, ela só fará sentido se tiver mobilidade, isto é, se houver sistema de promoção e rebaixamento, assegurando chance a todos os países de crescer no esporte. No entanto, a competição precisa assegurar junto do torcedor credibilidade e o modelo proposto agora não terá essa credibilidade. Na primeira temporada que um time com 100% de vitória for privado da vaga na final o questionamento virá.

 

Há outras alternativas?

Sim, a UEFA já mostrou o caminho. É plenamente possível coexistirem Copa do Mundo e Liga Mundial, exatamente como no futebol europeu coexistem Euro e Nations League. A questão é que qualquer competição nova requer um modelo de disputas simples e que exale justiça.

É justamente por isso que o modelo da UEFA Nations League é tão bom e deveria ser privilegiado. Com 4 grupos de 3 países, a fase de grupos contaria com 6 rodadas, sendo 4 jogos por país. A primeira fase inteira poderia ser disputada entre junho e julho e os finais de semana de folga serviriam para que as seleções pudessem viajar com tranquilidade. Isso significaria que não haveria necessidade de separar as seleções por continentes. Seria aceitável 3 seleções de continentes distintos, pois haveria folga para as viagens. Com isso, a competição teria efetivamente as 12 melhores seleções do mundo, não importando seu continente.

Obviamente, com 4 grupos de 3, haveria a possibilidade de 2 equipes europeias no mesmo grupo. Ou mesmo 2 da Oceania. Qual o problema disso? Eu não vejo problema algum de um time do Six Nations voltar a enfrentar um rival local. Isso ocorre no rugby de clubes o tempo todo. Basta que o jogo tenha valor de campeonato que o jogo passa a ter apelo. Na verdade, dois times de regiões próximas se torna ótimo para a montagem da tabela de jogos.

Em novembro, haveria ainda as duas datas de semifinais (entre os campeões dos grupos) e final. Uma data a menos em novembro do que atualmente (hoje, são 3 datas de novembro destinadas a seleções), o que agradaria aos clubes europeus (que reclamam hoje das datas de seleções no meio de suas temporadas). Os times que ficarem em segundo lugar nos seus grupos poderiam jogar semifinais de uma segunda taça e o times que ficarem em último lugar fariam repescagem de promoção e rebaixamento (ida e volta) contra os 4 campeões dos grupos da segunda divisão, aumentando o número de jogos das nações emergentes contra nações do primeiro escalão mundial.

Quer visualizar minha ideia?

1ª divisão:

Exemplo de grupos, usando o ranking mundial

A: Nova Zelândia, Gales, Escócia

B: Austrália, Inglaterra, Fiji

C: África do Sul, Irlanda, Japão

D: Argentina, França, Geórgia

Exemplo de tabela de jogos:

Julho – 6 semanas: FRA vs ARG, FRA vs GEO, GEO vs ARG, GEO vs FRA, ARG vs FRA, ARG vs GEO;

E as repescagens de promoção e rebaixamento? Com tais grupos, poderia ter jogos ida e volta como Escócia vs Uruguai, Fiji vs Samoa, Japão vs Tonga, Geórgia vs Itália.

Para mim, o modelo da UEFA Nations League (com algumas adaptações, como as repescagens), cai perfeitamente bem para o rugby.

No entanto, o modelo hoje discutido é outro e creio que voltará a trazer problemas para o calendário e para os atletas.