Foto: Bruno Ruas @ruasmidia

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ARTIGO OPINATIVO – O rugby mundial viveu uma semana intensa de discussões após o jornal britânico Daily Mail ter afirmado que a Itália deverá ser expulsa do Six Nations em 2025, dando lugar à África do Sul. A notícia foi replicada mundialmente entre os dias 16 e 17, mas o Guardian publicou nesta quinta-feira que a possibilidade da Itália ser excluída já foi rejeitada, com o Six Nations negociando uma possível expansão para se tornar Seven Nations. Mas, o que significa tudo isso na prática?

O tema da exclusão da Itália sempre é muito mal trabalhado e as perguntas certas nunca são feitas. A Itália é dona de 14,3% da Six Nations Ltd, a entidade organizadora do Six Nations, que conta com 7 sócios: as 6 federações nacionais envolvidas e o fundo de investimentos CVC. A Itália não pode ser sumariamente expulsa, mas, claro, pode ser pressionada a vender sua parte. Acontece que a Itália não tem interesse algum em vender sua parte, uma vez que o Six Nations representa cerca de 70% do orçamento de sua federação. Sair do Six Nations seria quase uma sentença de morte – e, verdade seja dita, a Itália está colecionando bons resultados na categorias de base, incluindo vitória neste ano no U20 contra a Inglaterra, além de ter anunciado a expansão do seu sistema de academias.

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Sabendo que o mundo dos negócios muitas vezes opera passando por cima de boas práticas, seria lógico os demais membros do Six Nations tentarem forçar a Itália a sair? A Itália também tem participação nas propriedades da EPCR (entidade organizadora da Champions Cup europeia, bem como da Challenge Cup) e do United Rugby Championship (liga que acaba de admitir equipes sul-africanas, com apoio italiano para tal). A Itália ainda tem 3 votos no Conselho do World Rugby e apoiou o atual presidente da entidade, o inglês Bill Beaumont, em sua eleição em 2020. Oras, seria um movimento extremamente arriscado e mal visto, podendo acabar em tribunais e arranhar a imagem da entidade, de seus membros e do esporte. A quem interessaria isso?

O problema para uma expansão de 6 para 7 times no Six Nations é a ampliação do calendário, que resultaria em tensão com os clubes europeus. No entanto, modificações nos amistosos de julho e novembro poderiam ajudar em tal acomodação.

É muito improvável que a Itália seja forçada a deixar o Six Nations e parte da imprensa não fez as perguntas corretas aos envolvidos: como é possível expulsar um sócio desse modo? Para mim, seria uma imensa surpresa um movimento tão baixo e irresponsável dos envolvidos caso realmente tentem expulsar a Itália. A própria Six Nations Ltd entende isso e já publicou uma nota desmentindo os boatos.


 

Quais seriam os desdobramentos de uma migração dos Springboks?

Já a saída dos Springboks do Rugby Championship para ingressarem no Six (Seven) Nations realmente é possível, uma vez que o acordo de participação dos sul-africanos na competição expira em 2025. A federação sul-africana já deixou claro que estuda seu futuro e é cristalino que a CVC quer os Boks no Six Nations para aumentar o valor comercial do torneio. Para a África do Sul, deixar de enfrentar anualmente os All Blacks pode ser ruim do ponto de vista técnico, mas a Europa oferece contratos mais ricos e, sobretudo, um fuso horário semelhante para os Springboks e seus torcedores. As viagens longas são muito piores quando há mudanças de fuso horário. Para a Oceania, certamente a viagem pesa mais do que para a Europa. A saída de Bulls, Lions, Sharks e Stormers do Super Rugby para disputarem o United Rugby Championship seguiu a mesma lógica e escancara o interesse sul-africano pela Europa.

Se os Springboks se transferirem, no entanto, o impacto no restante do rugby mundial será muito ruim. A ausência dos Boks provavelmente faria com que Austrália e Nova Zelândia optassem por um torneio restrito à Ásia e Oceania, convidando Fiji e Japão, por exemplo. Isso, possivelmente, deixaria a Argentina na pior situação possível – depois de perder o Super Rugby poderia perder também o Rugby Championship. Claro, isso é apenas especulação minha, por enquanto.

Já na Europa, a presença da África do Sul sepultaria de vez qualquer esperança de uma abertura do Six Nations para os demais países, como a Geórgia.

Especula-se, por outro lado, que os Springboks deixariam de enfrentar a cada 12 anos British and Irish Lions, abrindo oportunidade para argentinos e japoneses desafiarem os Lions. Na minha opinião, isso é uma conclusão precipitada. Nada indica que Lions vs Boks acabaria e, se acabar, nada garante que simplesmente os Lions optem por enfrentarem mais vezes All Blacks e Wallabies.

Haveria efeitos aqui nas Américas? Talvez. Se os Pumas ficarem órfãos, é capaz de ressuscitarem o Americas Rugby Championship – que, aliás, voltou à pauta e poderá mesmo renascer, segundo reportagem uruguaia.

 

E o que a Liga Mundial tem a ver com isso?

No entanto, a outra questão mais importante é o relançamento do projeto do World Nations Championship, a Liga Mundial, proposta anteriormente pelo argentino Agustín Pichot. Desta vez, no entanto, o projeto não está sendo liderado pelo World Rugby, e sim pelos maiores interessados, as 10 potências do rugby.

O que isso significa? A Liga Mundial irá sair do papel? Difícil prever qualquer coisa. Uma expansão do Six Nations para Seven Nations desequilibraria as relações de forças no rugby mundial e dificultaria a criação do calendário dos amistosos. Porém, poderia ser o empurrão para Oceania e Europa negociarem seus termos para a competição. Sem os Boks no Rugby Championship, uma Liga Mundial interessaria muito All Blacks e Wallabies.

Aliás, a federação da Nova Zelândia fechou longa negociação com o fundo de investimentos americano Silver Lake, que agora tem direto interesse na rentabilidade da marca All Blacks. De fato, do mesmo jeito que a CVC está empurrando os Springboks para a Europa, a Silver Lake pode pressionar por uma nova competição mundial.

O rugby entrou na era dos fundos de investimento, que colocam o lucro a curto prazo a frente do desenvolvimento de longo prazo do esporte. O que sairá desses movimentos ainda é incerto.