Por dentro da Copa: Cardiff, mantendo uma tradição

População: 390.000

Estádio: Millennium Stadium

Capacidade: 74.500

Principais times de rugby: Cardiff Blues (PRO12) e Cardiff RFC (Welsh Premiership)

Jogos na Copa do Mundo:
19/09 – Irlanda x Canadá;
20/09 – Gales x Uruguai;
23/09 – Austrália x Fiji;
01/10 – Gales x Fiji;
02/10 – Nova Zelândia x Geórgia;
11/10 – França x Irlanda;
17/10 – Quartas de final;
18/10 – Quartas de final.

 

A Copa do Mundo desembarcará em setembro na Inglaterra e, para deixá-lo ambientado com o palco do Mundial, iniciamos hoje a nossa série de matérias especiais sobre as cidades-sede da competição. Porém, começaremos com a intrusa na terra de São Jorge. Ou melhor, começamos com o Dragão! É Cardiff, capital do País de Gales, única cidade que receberá partida nesse Copa do Mundo e que não se localiza na Inglaterra.

 

Esta é uma tradição da Copa do Mundo de Rugby, desde sua criação: ter jogos em mais de um país. A primeira Copa do Mundo, em 1987, foi dividida entre Nova Zelândia e Austrália, sendo oficialmente um Mundial realizado nos dois países. Já 1991, apesar de comumente ser considerada a Inglaterra como a sede da Copa do Mundo, o Mundial teve oficialmente como sedes os cinco países do então Cinco Nações: Inglaterra, Escócia, Gales, Irlanda e França. A grande final que foi disputada em Londres, na Inglaterra. Em 1999, novamente o Mundial foi dividido entre as Cinco Nações, porém a sede fora oficialmente o País de Gales. Apesar disso, até as semifinais foram realizadas fora de território galês. Com a eleição da França como sede da Copa do Mundo de 2007, a Europa finalmente teve uma Copa do Mundo realizada em um só país, ou quase. Isso porque, em um arranjo político, os franceses cederam dois jogos à Escócia e quatro jogos a Gales, incluindo uma das quartas de final -ironicamente o jogo entre Nova Zelândia e França, vencido pelos Bleus. Apenas três Mundiais tiveram todos os seus em um só país: 1995, na África do Sul, 2003, na Austrália, e 2011, na Nova Zelândia.

 

Em 2015, Cardiff manterá a tradição dos Mundiais na Europa como o intruso no ninho. O monumental Millennium Stadium, construído para a Copa do Mundo de 1999, foi escolhido para receber nada menos que 8 jogos do torneio, incluindo duas quartas de final, com Gales realizando duas de suas quatro partidas da primeira fase no local: contra Fiji e contra ao Uruguai, o que significa que, apesar de ter uma sede, Gales jogará seus dois mais importantes jogos, contra Inglaterra e contra Austrália, em solo inglês, em Londres.

 

Pequeno porto no início do século XIX, Cardiff cresceu e se desenvolveu no coração do centro minerador e industrial do Sul de Gales ao longo das décadas seguintes, transformando-se na principal cidade galesa apenas no século XX. A importância como cidade industrial e portuária levou Cardiff a receber importantes instituições administrativas e culturais, enquanto aflorava na região forte sentimento de identidade nacional.

 

A fundação da União Galesa de Rugby, em 1891, independente da RFU inglesa, e a formação da seleção galesa de rugby se tornaram símbolos da luta por maior autonomia de Gales e da identidade galesa, com Cardiff se tornando a casa da seleção nacional. O mítico estádio do Cardiff Arms Park, construído em 1881, se tornou o templo do rugby do país e o espaço no qual os galeses expressavam seu nacionalismo, sobretudo durante as partidas contra a Inglaterra, entoando em galês, língua celta, músicas como o Hen Wlad Fy Nhadau, tornado justamente pelas partidas de rugby o hino do país (oficializado em 1993). Foi somente em 1955 que Cardiff foi apontada oficialmente como a capital de Gales e apenas em 1997 Gales passou a ter seu próprio parlamento, a Assembleia Nacional de Gales. Algo muito recente, para uma nações que desde 1292 está sob domínio inglês. As marcas são claras: hoje, apenas 11% da população de Cardiff fala galês, percentual inclusive mais elevado que no início do século passado.

 

Gales é a única das nações britânicas que tem o rugby como “esporte nacional”, certamente a maior expressão da consciência nacional galesa. E, ao contrário da maior parte do Reino Unido, o rugby em Gales não é um esporte majoritariamente das classes médias: trata-se do esporte do povo, com fortes laços com a classe operária, sobretudo com os mineiros, desde o século XIX. Concentrando mais de 80% da população do país, os vales do sul do país são a terra do rugby, com cada cidadezinha contando com seu clube, de longas tradições e listas intermináveis de grandes atletas dados ao esporte.

 

O Cardiff RFC, fundado em 1876, é um dos grandes símbolos da cidades e um dos grandes clubes galeses. Sua rivalidade com outros clubes dominantes do Sul de Gales, como Swansea, Neath, Llanelli e Newport, lotou os estádios do país por décadas e alimentou a paixão pelo esporte em Gales. Jogando sempre no Cardiff Arms Park, o Cardiff RFC ostenta vitórias sobre as principais seleções do planeta. O time da capital galesa conquistou em 1953 uma histórica vitórias por 8 x 3 sobre os All Blacks, e antes já havia vencido os New Zealand Natives (a primeira seleção neozelandesa formada) em 1888 (8 x 3). Cardiff ainda venceu os Springboks em 1907 (17 x 0) e os Wallabies em 1908 (24 x 8), 1947 (11 x 3), 1957 (14 x 11), 1966 (14 x 8), 1975 (14 x 9) e 1984 (16 x 12), tendo produzido na época amadora atletas da categoria de John Bevan, Barry John, Gareth Davies, Gerald Davies e o lendário Gareth Edwards, o que levou o clube a ser nomeado para o Hall da Fama do World Rugby.

 

Na era profissional, o Cardiff RFC se sagrou vice-campeão da Heineken Cup em 1996, logo na primeira edição, mas a fraqueza econômica da liga galesa obrigou a União Galesa de Rugby a efetuar mudanças drásticas no funcionamento do rugby de elite do país. Em 2003, a entidade criou cinco franquias regionais em substituição aos clubes como o máximo nível do rugby do país. O Cardiff RFC se tornou dono majoritário do novo Cardiff Blues, que passou inclusive a usar as cores do Cardiff RFC. A equipe, no entanto, não conseguiu desde então ter o mesmo sucesso de seu passado e tudo o que conquistou foi a Challenge Cup, a segunda copa europeia, em 2010, e a Copa Anglo-Galesa, em 2008.

 

Quanto ao estádio de Cardiff Arms Park e o Millennium Stadium, a história é também curiosa. Até 1969, Cardiff RFC e a seleção galesa atuavam sob o mesmo teto, o Cardiff Arms Park. Nesse ano, o Cardiff RFC se mudou para o campo vizinho, onde foi erguido um novo estádio no local do campo de críquete que havia no terreno. O estádio principal do Cardiff Arms Park foi reconstruído, dando lugar ao novo Estádio Nacional, inaugurado em 1984, com 54 mil lugares. Contudo, com a eleição de Cardiff como sede da final da Copa do Mundo de 1999, o Estádio Nacional foi demolido e em seu lugar um novo, maior e mais moderno estádio, o Millennium Stadium, foi erguido, sendo inaugurado em 1999. A seu lado, está o novo Cardiff Arms Park, casa do Cardiff RFC  e do Cardiff Blues, com capacidade menor, para 12.500 lugares, formando junto do Millennium Stadium um monumental complexo de rugby no coração da capital galesa. Certamente, palco perfeito para a Copa do Mundo de 2015.

 

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