O rugby escolar será um dos maiores legados após os Jogos Olímpicos

Estive pensando muito ultimamente, sobre a situação atual do rugby em nosso país. Quanto mais se aproximam os jogos olímpicos, mais aumenta a ansiedade (pelo menos a minha). A pergunta que não quer calar é: Como será que vai ficar a situação do rugby nacional depois do evento olímpico?

 

Realmente, esportivamente falando, eu não sei responder. Mas na minha opinião de educadora, o fortalecimento do rugby escolar estará entre os maiores legados que os jogos olímpicos poderão nos deixar. Por isso a responsabilidade de nós professores e coordenadores de projetos de rugby escolar em falarmos a mesma língua, e assim como o rugby esportivo termos uma maior representatividade no cenário nacional.

 

Em meu texto anterior, prometi que iria abordar o tema rugby escolar e formatação de método. Tenho recebido inúmeras mensagens pedindo orientações sobre o método do projeto VOR, e agradeço o interesse de todos.
Neste texto vou colocá-lo a exposição, para quem quiser apreciar ou saber mais sobre nossa forma de trabalhar o rugby. Lembrem-se que que o melhor método é aquele que atende as necessidades da realidade apresentada, mesmo assim vou desvendar aqui nosso segredo, se é que se pode chamar assim.

 

Quando criei o método VOR estudei tudo que vinha sendo feito no mundo em ralação ao rugby infantil, extraí o que achei relevante e adequei a nossa realidade. Isso aconteceu em 2009 e todo ano faço revisão metodológica para atualização do método, procurando acompanhar a evolução do rugby e acrescentar algo de diferente voltado ao universo ao escolar. Este ano por exemplo estamos trabalhando junto ao planejamento o tema OLIMPISMO, com o objetivo para colocar os alunos a par do momento olímpico que vivemos e tudo que abrange o tema e sua influência em nossa atividade.
Para o desenvolvimento e introdução do rugby na escola, creio que alguns pontos devam ser colocados à frente de qualquer que seja a metodologia a ser desenvolvida, pois estes pontos são fundamentais e podem influenciar a aceitação do rugby no meio escolar.

 

Primeiro ponto
O Rugby deve ser ensinado como tudo na escola, ou seja, se você pretende realmente ser reconhecido como professor de rugby, procure antes se inteirar sobre a filosofia da escola a qual você pretende apresentar ou desenvolver uma proposta de trabalho e se alinhe com o currículo da instituição. Não chegue querendo mostrar o quanto o rugby é legal, isso não interessa a eles, procure mostrar o quanto o rugby pode ajuda-los a atingirem seus objetivos educacionais. Para isso elabore um projeto com introdução, justificativa e conclusão bem escrito e dentro das normas. Aconselho que se inteire da lei 9394/96 (Lei das Diretrizes da Educação) para poder argumentar quando colocado em xeque e entender realmente as responsabilidades de um educador.

 

Segundo ponto
Após se inteirar das filosofias e currículos, é imprescindível que a equipe que irá trabalhar o rugby dentro da escola (principalmente no contra turno), esteja bem treinada e alinhada, e desenvolva o trabalho com bases nestes conhecimentos adequando-os ao planejamento.
Isto não significa que o rugby será ensinado de forma diferente do usual, e sim que será ensinado de forma alinhada e condizente com outros conteúdos, afinal não temos que ser os “diferentões” pois isto nem é saudável para nosso esporte.

 

Terceiro e último ponto
O rugby não precisa mais ser justificado. Nesta altura do campeonato temos que parar com o discurso de que o rugby é pouco conhecido e outros bla, bla, blas. Se os outros professores não o conhecem o máximo que podemos fazer é induzi-los a pesquisa através de argumentos reais sobre os benefícios e características do nosso esporte. E não já começar o discurso dizendo que é normal a falta de conhecimento, devido o rugby ainda ser pouco conhecido. Notem que assim já de cara arranjamos uma justificativa para a falta de interesse por parte dos professores de educação física (que não são do meio), quase que pedindo desculpas por nosso esporte ser visto como diferente dos outros e por isso não ser tão popular no meio educativo (pelo menos este é meu ponto de vista).

 

Principalmente entre as crianças os rugby está em pé de igualdade aos demais esportes, visto que o conhecimento ainda está em plena formação nesta fase e tudo ainda é novo. E é aí que entra a nossa expertise em fazer com que as crianças gostem do rugby, aprendam e levem uma lembrança positiva desta experiência, isso fará que no futuro ao se deparem frente a nossa modalidade, está memória seja agradável, aumentando a chance de sucesso na escolha do rugby como prática também fora da escola.

 

Outro ponto positivo quando as crianças gostam do rugby é que elas cobram de seus professores de educação física curricular, o porquê não dão rugby na escola. Isso aconteceu aqui em Curitiba, e a procura por cursos e palestras sobre o tema aumentou muito, e esse aumento se deu devido ao interesse dos alunos, aliados a confiança dos coordenadores pedagógicos da educação física em nosso trabalho.

 

Daqui para frente vou mostrar meu trabalho e espero poder inspirar alguns de vocês de alguma forma. Procurei resumir o máximo e com linguagem informal, o conteúdo completo está registrado no Ministério do Esporte, e na Secretaria Municipal da Educação da cidade de Curitiba.

 

No projeto VOR, trabalhamos com a metodologia periodizada, ou seja, o aluno vai se graduando dentro dos fundamentos básicos e ao mesmo tempo que aprende a história, regras e princípios. Em nosso método o ritmo de aprendizado de cada aluno é respeitado, e depende de seu aproveitamento e assimilação. Isto, às vezes, faz com que as coisas não andem no ritmo programado. Nossos professores são treinados a lidar com a frustração caso as coisas não saiam no ritmo esperado, pois afinal a meta é o aprendizado.

 

Quando decidi trabalhar o método de periodização, me deparei com um problema; “como dividir as turmas por níveis? Visto que já dividimos por faixa etária e por gênero. Seria inviável para nossa realidade dividir estes grupos também por níveis, a logística seria bem complicada para nossa realidade.
A resposta está em nosso próprio esporte. Sim, se em um time existem jogadores com níveis esportivos diferentes jogando entre si, porque os alunos também não podem aprender juntos mesmo estando em níveis de aprendizado diferentes?

 

Desta forma, trabalhamos os grupos divididos por idades e gênero, todos recebem a mesma informação e estímulo e participam juntos dos exercícios. O que diferencia é o grau de exigência na resposta aos estímulos. Os níveis são assim elencados R1-Rugby-nível 1/introdução e aprendizado, R2-rugby nível 2 /aprendizado e aprimoramento e R3-rugby-nível 3 aprimoramento e aperfeiçoamento (conforme tabela abaixo)

 

Os alunos mesmo estando em níveis diferentes de aproveitamento, interagem entre si, assim os mais adiantados, contribuem no andamento da aula e inspiram os demais (aqui entra o espírito do rugby). Exemplificando, em uma linha de passe com quatro alunos, pode ter alunos do R1 (primeiro nível), R2 (segundo nível) e R3 (terceiro nível), para os alunos do R2 e R3 não é aceitável que recebam a bola sem movimento de corrida por exemplo (uma das cobranças para este nível), enquanto que um aluno do R1 a cobrança é mais branda para esta exigência visto que ainda estão sendo observados outros pontos chaves prioritários par o seu estágio de aprendizado. Caso alunos do R2 e R3 insistam no erro, voltam para o nível anterior até assimilarem a técnica. Isto nunca aconteceu, mas consta no protocolo de avaliação, e os alunos ao serem promovidos de nível sabem desta responsabilidade, e entendem que os estágios que já passaram devem ser cada vez mais aprimorados.

 

Para chegar neste nível de observação, o planejamento tem que ser condizente com os objetivos, devidamente aplicado e avaliado, e o processo avaliativo não pode ser subjetivo.

 

No protocolo de avaliação VOR, professores e alunos ficam sabendo exatamente o que falta para atingir cada objetivo.

 

No método VOR quando pensamos cada fundamento em sua generalidade, ou seja, nada escapa. Estimulamos o aprendizado em ações com e sem a bola.

 

Usando novamente o exemplo do passe: em uma linha de passe todos estão envolvidos e não somente o portador da bola, isso nossas crianças aprendem desde de sempre e levam esta consciência para a prática.

 

Lógico que para chegarmos a conclusão do que queríamos ensinar, elencamos pontos chaves relevantes a execução de cada fundamento, e após longas discussões, elaboramos educativos e estratégias de ensino para assimilação e compreensão dos mesmos. Embora todo o processo de ensino do VOR esteja em separado do processo esportivo do Curitiba Rugby, existe um alinhamento entre eles. Para quando um menino ou menina passar para a categoria de base já leve a essência do que é trabalhado no rendimento. Isso se reflete por exemplo no orgulho defensivo que os alunos apresentam, e quando notam que o time esportivo também tem uma defesa forte e alinhada se sentem parte disso.

 

Construí a metodologia VOR alinhada com a filosofia do CRC e  voltada dentro dos princípios do jogo (ataque, defesa, apoio e continuidade), sempre em ações com e sem a bola. Para isso utilizamos muitos jogos lúdicos, estafetas, e toda a ferramenta que for necessária para que os objetivos sejam alcançados de maneira divertida, estimulante, e sempre dentro dos valores do rugby. Não vou me aprofundar neste campo senão o texto fica cada vez mais extenso e não é o objetivo.

 

Mostro aqui as planilhas da metodologia VOR, e vocês poderão notar que o simples prevalece, e é deste “simples” que podemos crescer para onde quisermos.

 

metodologia vor

 

Cada nível de aprendizado tem um gama de detalhes relevantes a cada fundamento e aspectos a serem trabalhados, a equipe está em constante debate para melhorar o conteúdo. Trabalhamos de segunda a quinta-feira nos polos com a prática, e usamos a sexta-feira para reuniões pedagógicas, apresentação de relatórios e discussões necessárias para o alinhamento do trabalho. Somente nas reuniões se pode dar ideias e a partir delas elaboramos (ou não) ações que serão usadas por todos. Tudo que é reproduzido na prática passa antes por debates e análises. Chamo isso de criatividade assistida, ou seja, o professor não pode ter um surto criativo e sair testando na aula, mas pode e deve ser criativo para contribuir com os conteúdos.

 

Abaixo o método VOR resumido em planilha, usado para apresentar para a secretaria da Educação, escolas e onde for preciso. Chegar com cem folhas de projeto, apesar de mais detalhado seria menos produtivo para o entendimento rápido, por isso uso este reduzido e simplificado. Quando somos solicitados aí sim apresentamos o planejamento completo (o mesmo entregue ao Ministério da Esporte).

 

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Avaliação da metodologia

Não adianta ter a melhor metodologia do mundo se ela não contemplar um sistema de avaliação efetivo (palpável).

 

Quando falamos de avaliação, devemos lembrar que não são somente os alunos que devem ser avaliados em seu aprendizado, mas também a equipe em sua performance, e o projeto em seus objetivos. Organização de padrões não quer dizer que tudo deva ser engessado; pelo contrário, o processo não dever ficar estagnado na zona de conforto pois isso impede o crescimento e a evolução constante de todo o processo.

 

No caso do VOR realizamos avaliações práticas e teóricas, e analisados os resultamos trazemos para nós toda a responsabilidade, e estes resultados são palpáveis e objetivos e assim sendo não geram contradições.

 

Assim como a metodologia o protocolo de avaliação é extenso, e demanda muito treinamento da equipe e alinhamento de conteúdo para que dê certo. Vou procurar resumi-lo para que vocês tenham um ponto de partida para entender modelo. Ao final notarão o quanto é simples.

 

Realizamos avaliações cotidianas (sem a consciência do aluno), e avaliações agendadas (conscientes), aquela que o aluno é informado sobre a data da mesma.

 

Avaliação Nivel R1 (cada nível tem exigências diferenciadas)

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Cada item da avaliação foi antes combinado para que todos os avaliadores sigam os mesmos critérios, ou seja os critérios do projeto e não o critério pessoal do professor. Nem sempre o professor que fará a avaliação será o mesmo que dá as aulas, por isso é imprescindível este alinhamento.

 

Os resultados são apontados por quatro critérios: DT (domínio total), DP (domínio parcial), ND (não domina) e EA (em aprendizado)

 

Domínio total é entendido quando o aluno em todas as repetições executa de 90 a 100% de acerto, domínio parcial é quando o aluno acerta no mínimo 60%. Por exemplo, ao avaliar se REALIZA O PASSE EM MOVIMENTO DE CORRIDA, em 10 repetições pelo menos 6 devem ser acertadas, isto caracteriza o domínio parcial, não dominase entende quando apesar de o aluno já ter tido as informações e participado de várias práticas, ainda assim insiste no erro. Em aprendizadoé anotado para os alunos iniciantes, que ainda não tiveram muito contato com o fundamento (novatos).

 

No exemplo abaixo, duas avaliações, uma positiva outra negativa (para os critérios do passe), após o resultado, o aluno toma conhecimento do que precisa para passar para o próximo estágio do passe, e assim ficará focado em corrigir o erro. Por exemplo se não passou apenas por não dominar o movimento de mostrar as mãos para receber a bola, pode ter certeza que para a próxima avaliação este item estará mais do que memorizado. Lembrem-se que analisamos o passe na sua totalidade ou seja ações com e sem a bola, não dividimos em recepção e passe e os alunos também entendem recepção como parte do passe, na nossa filosofia é assim, respeito quem pensa diferente. Mas isso faz com que os alunos mesmo sem a bola na mão se sintam parte do exercício e estejam sempre ligados.

 

 

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Cada nível tem seus critérios avaliativos, todos os alunos são avaliados no mesmo dia e no mesmo exercício, porém as exigências e anotações são diferenciadas. A partir do nível R2 entram critérios referentes aos valores, e estes não podem ter DP, nem ND (são pré-requisitos).

 

Para o professor não ficar com fichas individuais de um por um, pois seria inviável na prática, no dia da avaliação é utilizado uma ficha única, depois é passada para a planilha e aí sim, elaborada a ficha individual de cada aluno a partir das anotações.

 

Abaixo dois exemplos de avaliação de passe, feitos com a mesma turma, e por motivos óbvios tirei o nome dos alunos e professores, a primeira avaliação foi feita no início do ano (2015) e a segunda três meses depois. Notem o quanto fica claro, os objetivos que devem ser mais trabalhados para uma futura avaliação. E eu como coordenadora também me atenho para o fato de a maioria dos alunos estarem tendo dificuldades em um mesmo critério, isto pode sinalizar algumas coisas como: o meu planejamento não estar sendo eficiente, ou não estar sendo aplicado devidamente conforme o que se programou, ou qualquer outro motivo. Essas discussões são levantadas na reunião pedagógica e sempre solucionadas dentro do possível.  Em amarelo os pontos fracos, notem como a maioria dos alunos tem os mesmos problemas, ou seja, evidencia que algo está errado, e aí que entra a auto avaliação constante para solução dos problemas.

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Nesta avaliação nota-se claramente a necessidade de se trabalhar com mais ênfase os itens 3 e 9 (ambos referentes a passe e recepção em movimento de corrida), e notem como os demais itens em amarelo, interferem diretamente nisto. Basta olhar para detectar a falha. E não é uma questão de acusar o erro, mas sim de identifica-lo para poder corrigir. Isto caracteriza uma avaliação objetiva. Independente de qual seja o resultado da avaliação, o aluno recebe um parecer por escrito, que é conversado e analisado com seu professor, para serem traçadas metas para o próximo encontro avaliativo, abaixo o exemplo de um aluno aqui denominado aluno 6.

 

Veja o parecer recebido pelo aluno 6 em sua primeira avaliação         

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Três meses depois foi refeita a avaliação e os resultados foram bem diferentes. Quem já havia passado este estágio foi reavaliado juntamente com a turma, porém com os critérios do R2 (segundo nível) onde entram ao dame e sidestep por exemplo entre outras exigências. Notem como fica claro visualizar os progressos (ou não), e assim fazer uma análise comparativa entre a primeira e a segunda planilha.

 

Planilha 2ª avaliação / modulo 1 – PASSE

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O parecer da 2ª avalição do mesmo aluno 6

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Ilustração de uma prova teórica do nível R1

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Com base em todas as avaliações do calendário, ao final do ano cada aluno tem seu histórico formado, e a análise do conjunto de resultados, registra seu aproveitamento do ano letivo. Assim forma-se o banco de dados de cada um, e está feita documentação de todo o processo.

 

Como eu já disse antes, parece complicado. Mas depois que se pega o jeito fica cada vez mais fácil e toda a trabalheira inicial é recompensada. O segredo está em treinar bem a equipe para que o protocolo seja assimilado e acima de tudo considerado eficaz.

 

Criei esta metodologia e este protocolo avaliativo, e não me incomodo em dividir com vocês, tudo o que somos hoje e todo o caminho que percorremos foi norteado em cima do que mostrei aqui. Espero que ajude ou que pelo menos inspire outros trabalhos, pois eu mesma estou sempre atualizando e mudando algumas coisas.Só não esqueçam de citar a fonte, pois aqui tem anos de pesquisa, de ralação e acima de tudo de princípios e valores do rugby.

 

Artigo por Leca Jentzch – Curitiba Rugby

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