O que os Campeonatos Brasileiros de outros esportes dizem sobre o Rugby?

Julho chegou e com ele será dada a largada para os dois campeonatos nacionais de XV masculino, o Super 8 (primeira divisão, que começa no dia 16) e a Taça Tupi (segunda divisão, que larga no dia 23). Hoje, abordaremos um assunto delicado e que já vem sendo discutido nas últimas semanas: a concentração de equipes das regiões Sul e Sudeste em oposição à (quase) ausência de equipes do Norte, Nordeste e Centro-Oeste. Neste ano, o Nordeste retornará às competições nacionais com a entrada do Natal (NaFor) na Taça Tupi, depois de um ano de ausência de equipes de fora dos seis estados federados (SP, RJ, MG, PR, SC e RS) nos campeonatos de XV da CBRu.

 

Uma questão importante a ser colocada é: essa concentração no Sul-Sudeste é algo do rugby? Vamos conferir? Para manter uma lógica, apenas esportes coletivos foram usados na comparação, afinal, o fato dos deslocamentos envolverem uma equipe inteira e, no caso das competições profissionais, os pagamentos envolverem dezenas de atletas, é determinante. Com isso, a comparação do rugby deve ser feita com futebol, vôlei, basquete, handebol, polo aquático e hóquei, ficando apenas nas modalidades olímpicas. O que esses esportes têm de comum? São coletivos. E de diferente? Futebol, vôlei, basquete e handebol têm clubes profissionais, mas rugby, polo aquático e hóquei não. Isso significa que para o rugby a questão de custeio de viagens e manutenção de uma competição longa e com muitas equipes (e em muitos lugares diferentes) é, evidentemente, muito mais complexa e difícil.

 

Abaixo, fizemos uma tabela simples, com os esportes, suas primeiras divisões nacionais, o número de participantes, o número de estados representados e, desses, quantas equipes são de fora do Sul (Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná) e do Sudeste (São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Espírito Santo). Excluímos o sevens da conta, pois o modo de disputa é diferente (afinal, a disputa é por torneios de um final de semana, e não no sistema de cada equipe enfrentando em casa ou fora seus adversário, um jogo de cada vez).

 

Modalidade  Campeonato Temporada  Nº de equipes  Nº de estados Nº de equipes fora do Sul/Sudeste
Rugby XV Masculino  Super 8  2016  8  5  0
Futebol Masculino  Brasileirão  2016  20  8  3 (PE e BA) = 15%
Futebol Feminino  Brasileirão  2016  20  11  7 (AM, PA, PI, MA, CE, PE, BA) = 35%
Vôlei Masculino  Superliga  2015-16  12  5  0
Vôlei Feminino  Superliga  2015-16  12  5  1 (DF) = 8,3%
Basquete Masculino  NBB  2015-16  15  7  2 (CE e BA) = 13,3%
Basquete Feminino  LBF  2015-16  6  4  3 (MA, CE, PE)
Handebol Masculino  Liga Handebol  2015  10  5  0
Handebol Feminino  Liga Handebol  2015  6  3  0
Polo Aquático Masc.  Liga Nacional  2015  6  2  0
Polo Aquático Fem.  Liga Nacional  2016  3  2  0

 

Com as exceções notáveis do Brasileirão Feminino de Futebol (que oferece vagas a todas as regiões, tendo as relações políticas da CBF e das federações estaduais por trás) e da Liga de Basquete Feminino, que encontrou no Nordeste sua sobrevivência (tendo três equipes paulistas e três nordestinas, equilibrando a dispersão dos times), todas as demais ligas são centradas no Sul-Sudeste. Deixando o Brasileirão de Futebol de lado na discussão, a única liga que realmente conseguiu incorporar de algum modo o Nordeste foi a NBB de basquete, com o Vitória, da Bahia, e o Basquete Cearense, do Ceará.

 

O vôlei feminino conta com um time em Brasília, que, apesar de ser Centro-Oeste, está na divisa com Minas Gerais e tem articulação fácil com todo o Sul e Sudeste, não sendo uma exceção na prática. Assim, vôlei, handebol, rugby e polo aquático são idênticos: têm competições nacionais que, na verdade, são compostas exclusivamente por equipes dos estados do Sul e Sudeste. Por quê?

 

Muito pode ser discutido sobre os motivos disso. Certamente, os custos dos deslocamentos, em esportes que não nada em dinheiro como o futebol masculino, são uma razão, somados à falta de investidores em outras reuniões dispostos a bancarem equipes no Nordeste, Norte ou Centro-Oeste – cientes das dificuldades e custos extras. Outro motivo talvez seja também político, é evidente, já que para equipes e federações sediadas no Sul e Sudeste jogar em cidades mais distantes impõe problemas extras tanto de custos como logísticos (horários de voos em esportes amadores como o rugby são problemáticos em um país cuja malha de transportes em nível nacional é deficiente). A decisão, muitas vezes, de não expandir o leque da competição e abarcar mais clubes é puramente de ordem política pragmática.

 

Na Taça Tupi que se avizinha tudo indica (ainda a confirmar) que o NaFor mandará suas partidas em São Paulo, pois o acordo para incorporar uma equipe localiza a no mínimo 2500 das demais necessitou desse artifício. Mas, então, qual a solução para o futuro, para que possamos ter competições nacionais mais democráticas geograficamente e devidamente representativas sem jogar dinheiro (tão necessário em áreas carentes e prioritárias como categorias juvenis e desenvolvimento) no lixo? Regionalização. E não só para o rugby.

 

O paradigma que temos no Brasil para competições nacionais foi importado do futebol erroneamente pelos demais esportes, que estão anos-luz dos investimentos que o futebol tem. O Brasil é um continente e o mais racional é que qualquer torneio nacional seja regionalizado, com as regiões se cruzando apenas nas fases finais de mata-mata. Os Estados Unidos, tão grandes quanto nós em área, sabem disso há muito tempo.

 

Foto: NaFor campeão do Nordeste Super XV 2016

 

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