Passou da hora: a Copa do Mundo tem que ter 24 equipes

O boato já está rondando os círculos do World Rugby. De acordo com o jornal francês Midi Olympique, a entidade máxima do rugby mundial já discute expandir a Copa do Mundo de 2023 para 24 seleções. A sede ainda não foi escolhida, tendo Irlanda, Itália, França e África do Sul como os candidatos oficiais a receberem a competição. Por outro lado, já é certo que a Copa do Mundo de 2019, que será no Japão, seguirá no atual formato, com 20 seleções, restando apenas saber qual será o formato das eliminatórias.

 

Fato é que por mais ansiedade que o Mundial de 2019 cause, sobretudo por, finalmente, o país sede não ser nenhuma das velhas potências do esporte, expandindo as fronteiras, é o Mundial de 2023 que está nas nossas mentes – sobretudo de nós brasileiros. Em 2023, quando o World Rugby comemorará o bicentenário da mítica data de William Webb Ellis – que pode não ter criado o rugby, mas tem sua importância dentro do imaginário da modalidade – nosso esporte poderá dar mais um salto, expandindo o número de participantes da Copa do Mundo.

 

Desde que a Copa do Mundo foi criada, em 1987, três formatos foram usados: de 1987 a 1995 a competição teve 16 participantes, divididos em 4 grupos de 4 seleções cada; em 1999, o Mundial passou a ter 20 seleções, divididas em 5 grupos com 4 seleções; e desde 2003 as 20 seleções são divididas em 4 grupos com 5 equipes cada, sendo que as duas primeiras colocadas de cada grupo garantem vaga nas quartas de final e as três primeiras de cada grupo se qualificam antecipadamente ao Mundial seguinte.

 

A Copa do Mundo de 2015 foi histórica ao finalmente produzir uma mudança dentro do Top 12 mundial. Desde 2003, os doze primeiros lugares de todos os Mundiais foram ocupados pelas dez potências que disputam anualmente o Six Nations e o Rugby Championship e por mais duas das três nações do Pacífico Sul (Fiji, Samoa e Tonga), que se alternam dentro do grupo dos doze e, por vezes, beliscam uma vaga nas quartas de final (Fiji em 1991 e 2007 e Samoa em 1995 e 1999). Somente em 1991 o Canadá quebrara o status quo, classificando-se às quartas de final pela única vez. Em 2015, não houve nenhuma novidade entre os oito melhores, com Six Nations e Rugby Championship ocupando as vagas. Mas, houve finalmente intrusos no grupo dos doze, com Japão e Geórgia ocupando os lugares que outrora foram do Pacífico. Com isso, pela primeira vez na história profissional da Copa do Mundo, a Europa teve sete seleções classificação antecipadamente ao Mundial seguinte e a Ásia ineditamente garantiu uma vaga antecipada.

 

O modelo, de 20 seleções, entretanto, vem se provando engessado em termos de rotatividade de participantes. Em oito edições, somente 25 países estiveram presentes na Copa do Mundo e apenas os Mundiais de 1995 (quando a África do Sul vez sua estreia, saindo do apartheid, e a Costa do Marfim se classificou inesperadamente) e de 1999 (quando o Mundial cresceu de 16 para 20 seleções, dando oportunidade para Uruguai, Espanha e Namíbia debutarem) teve mais do que um país debutante. Desde que a competição assumiu 20 participantes, houve apenas uma mudança entre os participantes de uma edição para a outra. Em 2003, apenas a Geórgia substituiu a Espanha. Em 2007, Portugal substituiu o Uruguai. Em 2011, a Rússia substituiu Portugal. E em 2015 o Uruguai retornou deixando de fora a Rússia.

 

Contudo, tanto Uruguai como Namíbia parecem estar em uma zona limite, na qual suas posições são vulneráveis – vulnerabilidade menos sentida pelas demais 18 seleções, já muito melhor estabelecidas no cenário internacional. A Namíbia sofreu para se classificar, sendo derrotada pelo Quênia que, por sua vez, perdeu para o Zimbábue. A Namíbia venceu o Zimbábue e se garantiu em sua quinta Copa do Mundo consecutiva por meio do saldo de pontos. Já o Uruguai venceu a Rússia na Repescagem Mundial e a competição entre uruguaios e russos foi parelha, ao passo que a Rússia vive em equilíbrio com Portugal e Espanha na Europa, sendo que todas elas poderiam ter ocupado tranquilamente a vaga uruguaia. Mesmo na América do Sul, o Chile deu prova de força neste ano vencendo o Uruguai no Sul-Americano. Isso significa que o rugby mundial tem pelo menos outras cinco seleções que poderiam ter desempenhos semelhantes ao de Uruguai e Namíbia – sem vitórias, mas com apresentações dignas.

 

A necessidade de se dar mais oportunidades parece latente. E o fato da Ásia ganhar – possivelmente – mais uma vaga em 2019 – a ser decidida entre Coreia do Sul e Hong Kong, se seguida a tendência – apena reforça a ideia. A ele se soma ainda a desigualdade com que a América do Sul é tratada nas eliminatórias, pois, apesar de ser separada da América do Norte no rugby, não conta com nenhuma vaga direta na Copa do Mundo, tendo que decidir sua sorte contra os norte-americanos e, em caso de derrota, como sempre ocorre, em uma repescagem global.

 

Qual o modelo ideal para a Copa do Mundo de 2023?

Com a diminuição da distância entre as potências e as demais seleções, um modelo de 24 seleções divididas em 6 grupos com 4 seleções, tendo 16 seleções avançando às oitavas de final (as duas melhores de cada grupo e as quatro melhores terceiras colocadas), parece apropriado, respeitando o limite de 7 rodadas, pois mais do que isso não caberia dentro do calendário mundial, já em constante conflito entre seleções e clubes. Com número par de seleções em cada grupo, a tabela de jogos não criaria as desigualdades entre dias de descanso entre as seleções registradas em 2015.

 

É fato que a primeira fase não teria muita emoção para seleções como Nova Zelândia e Austrália, mas o cruzamento das oitavas de final pode ser determinado pela campanha na primeira fase (por exemplo, com os quatro melhores primeiros enfrentando os terceiros colocados, o que faria da primeira fase para as seleções mais fortes uma briga por um caminho mais simples no mata-mata).

 

Exemplo (seguindo o ranking mundial atual):

 

Grupo A: Nova Zelândia, Itália, Tonga, Hong Kong;

Grupo B: Austrália, Fiji, Geórgia, Chile (ou Brasil!);

Grupo C: África do Sul, Japão, Samoa, Rússia (ou Quênia, para manter igualdade por continentes);

Grupo D: Gales, Escócia, Estados Unidos, Espanha;

Grupo E: Argentina, Inglaterra, Romênia, Namíbia;

Grupo F: Irlanda, França, Canadá, Uruguai;

 

Por que não 32 seleções? A pergunta é frequente, mas a resposta simples: incorporar seleções como Rússia, Espanha, Portugal, Quênia ou Zimbábue, pelos resultados apresentados por essas equipes nas eliminatórias, não parece ter efeito drástico no nível dos jogos, por serem próximas de Uruguai e Namíbia. Porém, seleções abaixo dessas citação criariam jogos perigosamente desnivelados. Até lá, muitas seleções, como o Brasil, podem subir de nível e chegar a 2023 em igualdade com as seleções que normalmente brigam por um lugar no Mundial. Mas, oito anos é muito pouco para um salto tão grande e 24 seleções parece mais do que apropriado.

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